Democracia, participação e confiança em experiências de crianças
Por Ravena Albuquerque
A partir de um estudo na Suécia, foi pesquisada a participação dos alunos nas decisões da escola e regras da sala de aula. Das três escolas entrevistadas, duas não concediam poder para os estudantes fazerem escolhas e serem ouvidos. Contudo, na terceira, isso era possível, apesar de ser limitado. O objetivo da pesquisa foi investigar a perspectiva e as experiências das crianças com relação à democracia e à participação dos estudantes com relação ao dia-a-dia da escola.
A partir disso, foram identificados 5 obstáculos com relação ao envolvimento das crianças com fundamentos democráticos:
- Descontinuidade dos estudos;
- O padrão de relação em que o/a professor/a tem o poder e o/a aluno/a é subordinado;
- Confiança ingênua nos professores;
- O sistema escolar que suprime as vozes das crianças;
- E inconsistências injustas construídas pelos professores.
Os dados da pesquisa foram buscados em três escolas da Suécia entre os anos de 2002 a 2004, sendo entrevistadas cerca de 200 crianças e 30 professores.
Segundo a Ação de Educação Sueca afirma, é dever de todos os que trabalham em escolas promover práticas democráticas no ambiente estudantil. Ou seja, o desenvolvimento dos valores democráticos devem fazer parte do desenvolvimento das crianças ainda na escola. Isso é importante para que os estudantes desenvolvam habilidades como: ouvir a fala dos outros, deliberar propostas, encontrar argumentos, e desenvolver isso para encontrar valores e normas de acordo comum dentro de uma esfera coletiva.
Essa política que ocorre na Suécia é reflexo da Convenção sobre os Direitos da Criança formulado pela ONU em 1989, em que, como trouxeram os pesquisadores, nos artigos 12 e 13 tratam sobre a direito das crianças se expressarem:
“Os Estados Partes devem assegurar à criança que é capaz de formular seus próprios pontos de vista o direito de expressar suas opiniões livremente sobre todos os assuntos relacionados a ela, e tais opiniões devem ser consideradas, em função da idade e da maturidade da criança.” Artigo 12, §1
Para isso, foram investigados os relacionamentos e os padrões de interação entre professores e alunos/as no dia-a-dia da escola com relação às questões de democracia na escola, participação estudantil e as experiências vividas pelas crianças.
As bases democráticas são colocadas como algo essencial de ser conhecido desde a infância, a partir da teoria do Pragmatismo, que surgiu no começo do século 20. Isso quer dizer que uma educação democrática deve fazer parte do crescimento das crianças dentro do ambiente escolar. Por essa teoria, a democracia não é vista como procedimentos de um pequeno grupo, mas é uma forma de viver e de se relacionar dentro de uma sociedade. Dessa forma, experienciar ações democráticas dentro da escola coaduna com a ideia de a escola funcionar como microcosmo da sociedade, proposta pelo filósofo Émile Durkheim. Isso é essencial para a preparação e amadurecimento da sociedade visando ao futuro.
Na pesquisa percebeu-se que a maioria dos estudantes tinham um histórico de moral, convenções e questões pessoais dentro das famílias e do ambiente social. As crianças cresciam já criando muitos julgamentos a valores diferentes aos delas e, muitas vezes, isso gerava conflitos.
Ao mesmo tempo, as crianças são bastante dependentes dos responsáveis e dos professores. Elas eram criadas para serem obedientes e se comportarem em silêncio. No livro “O Dia do Curinga”, do escritor norueguês Jostein Gaarder, o pai pergunta ao filho:
“- O que ensinam para você na escola, Hans-Thomas?”, e o filho responde:
– A ficar sentado na carteira sem perguntar nada – respondi. E está aí uma coisa tão difícil que a gente precisa de anos para aprender.”
Assim como na ficção, as crianças não são consultadas nem tampouco têm voz para decidir regras e outros aspectos de suas vidas. O chamado “currículo escondido” é considerado o currículo não formal que reafirma valores da educação autoritária e tradicional, como treinar crianças para obedecerem ordens e se manterem em silêncio. Mais a fundo, esse “currículo” visa à manutenção do controle social.
Nas duas primeiras escolas foi encontrado o esperado currículo escondido, em que os professores e gestores realizavam as decisões e esperavam que os estudantes somente se comportassem bem. Já na terceira, os alunos e alunas tinham mais oportunidades para serem influentes e terem uma participação ativa. O grande diferencial era que para os professores a habilidade das crianças falarem era um importante objetivo. Tendo isso em vista, a maneira de pensar as aulas e aprender situações encorajava as crianças a agirem e pensarem em soluções.
Nesse sentido, a participação pode ser entendida mais como habilidades de se relacionar com as outras pessoas e com ideias diferentes. Segundo a fala de uma estudante:
“Parece que eu posso decidir de alguma forma. Sinto que sou eu quem pode decidir.”
Isso reflete a ideia da participação ser vista não apenas como o resultado, mas tem mais a ver com relacionamentos, confiança e interação (Thornberg & Elvstrand, 2012).
Continuando, a pesquisa identifica que há tipos de confiança que as crianças na escola atribuem aos adultos. O primeiro é considerado confiança ingênua, que é qualificada pelos estudantes confiarem e acreditarem nas decisões dos professores e gestores, simplesmente pelo fato de eles serem “autoridades”. Ela é considerada ingênua porque não ativa o senso crítico dos alunos a refletirem sobre as decisões, ou seja, o acreditar não é baseado em argumentos e em evidências.
Em contrapartida, há também a chamada confiança fundamentada. Ela é caracterizada pela confiança das crianças baseada em argumentos e boas explicações dos professores, e em negociações justas e participação conjunta em tomadas de decisões (Thornberg & Elvstrand, 2012). Em outras palavras, a confiança fundamentada é um exemplo de vivência democrática nos relacionamentos. Os relacionamentos são feitos não por alguém ser autoridade, mas é formada a partir de trocas de ideias, do escutar o outro e tomar decisões em grupo.
Foi notado que muitas crianças têm essa confiança ingênua, e acreditam nas decisões dos professores “porque eles são adultos”. Nesse raciocínio, há uma diminuição da sua própria capacidade de compreensão democrática. O pensar que “não sei decidir pois sou só uma criança” também leva a questões de auto-confiança e auto-estima, e a sala de aula pode se tornar um espaço de desconfiança e insegurança.
Nesse raciocínio, as crianças que não sabem operar sem adultos e regras explícitas, não desenvolvem a habilidade de participar nas tomadas de decisão na escola e nas regras da sala de aula.
Além disso, também é demonstrado que as inconsistências e injustiças perceptíveis realizadas pelos professores resultam em más atitudes pelos alunos. Quando, por exemplo, o professor quebra alguma regra escolar e não é penalizado como os estudantes, os dados da entrevista mostram que as crianças consideram a atitude do professor estranha, errada e injusta.
A credibilidade que os alunos tinham nos professores é comprometida, pois ao se verem sendo tratados de forma injusta e desrespeitosa, elas confiam e respeitam menos os professores e professoras. Assim, fica constatado que atitudes negativas e inconsistentes dos educadores causam um efeito de diminuição da confiança dos alunos.
Mesmo que os professores tenham intenção de estimular processos democráticos na escola e a participação dos estudantes, as oportunidades das crianças terem voz ainda é bastante limitada. As escolas parecem funcionar num sistema de “desempoderamento”, ao moldar o comportamento das crianças a partir de forças controladoras e autoritárias.
Incentivar os alunos a terem voz e a participarem dos procedimentos democráticos da escola deve ser levado de forma séria como projeto educacional. Por exemplo, o fato de haver eleições na escola foi considerado positivo para preparar emocionalmente as crianças e gerar uma participação em atuação pacífica quando forem votar como adultas.
Implicações práticas:
- Primeiro, os professores têm que aumentar sua consciência de poder e dos padrões de interação na cultura cotidiana da escola;
- Em segundo lugar, políticos locais e diretores de escolas têm de oferecer suporte a professores para habilitá-los a trabalhar decisões democráticas;
- É importante investir na instrução e debate considerando a democracia deliberativa, bem como conduzir os processos democráticos na escola e seus obstáculos na cultura escolar e na psicologia social da sala de aula.
Você enxerga essa reflexão sendo válida no seu contexto? De que forma? Como as propostas e resultados da pesquisa podem ajudar no seu dia a dia? Conta pra gente!
Referências:
Robert Thornberg, Helene Elvstrand. Children’s experiences of democracy, participation, and trust in school. International Journal of Educational Research. Volume 53, 2012. Pages 44-54, ISSN 0883-0355. https://doi.org/10.1016/j.ijer.2011.12.010. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0883035511001297
Convenção sobre os Direitos da Criança, UNICEF. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca#:~:text=A%20Conven%C3%A7%C3%A3o%20sobre%20os%20Direitos,Foi%20ratificado%20por%20196%20pa%C3%ADses.
Jostein Gaarder. O Dia do Curinga. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. Tradução: João Azenha Jr.
