Por Lucas Sobreira
No Serrote do Urubu, uma comunidade rural nos arredores de Petrolina, sertão do São Francisco, a educação pulsa entre as pedras, o rio e o vento. Na Escola Municipal Luiz de Souza, estudantes, professores e famílias resistem e reinventam o sentido de aprender. Aqui, o quadro é uma janela para o mundo, mas também um espelho da vida no campo.
“Ensinar no campo é muito mais do que aplicar o conteúdo do livro. É dialogar com os saberes da terra, com a cultura das famílias, com a luta cotidiana por reconhecimento”, afirma a professora Maria da Conceição Silva, que há dez anos atua na escola. “Quando um aluno fala da colheita, do cuidado com a natureza, isso também é conhecimento. E precisa, portanto, estar no currículo.”
Educação do campo: uma luta por pertencimento
A educação do campo no Brasil é marcada por desafios históricos: distâncias geográficas, falta de infraestrutura, rotatividade docente e currículo descontextualizado. Mas também por lutas, conquistas e uma rica produção pedagógica.
Segundo Roseli Caldart, educadora, “a escola do campo não é apenas uma escola no campo. Ela precisa ser do campo, com identidade, com currículo que dialogue com o território e com a vida das pessoas”. Para ela, educar no campo é afirmar o direito das comunidades rurais à cidadania plena, incluindo o direito a uma escola que respeite sua cultura e realidade.
O Brasil conta com mais de 70 mil escolas do campo, segundo dados do INEP (2020), atendendo milhões de estudantes. A Resolução CNE/CEB nº 1/2002, que estabelece as Diretrizes Operacionais para a Educação do Campo, destaca que “as escolas do campo devem considerar as peculiaridades locais, garantindo práticas pedagógicas coerentes com o modo de vida rural”. No entanto, o fechamento progressivo de unidades e a pressão por um modelo urbano de ensino ainda inviabilizam a diversidade rural.
Realidades e sonhos no Serrote
A Escola Municipal Luiz de Souza atende estudantes do 6º ao 9º ano. E ainda que vivencie a escassez de recursos e a dificuldade de acesso, há uma forte valorização da cultura local.
Para João Marcos, de 13 anos, estudante do 8º ano, a escola é mais do que um lugar de estudo. “Aqui a gente aprende sobre a caatinga, sobre o rio, sobre como plantar e cuidar do que é nosso. Então, eu gosto quando a professora traz vídeos e histórias daqui mesmo. Isso dá orgulho.”
Já a coordenadora pedagógica, Lúcia Damasceno, defende um currículo contextualizado: “Não faz sentido ensinar apenas com livros que falam da neve ou de cidades grandes. Nossa realidade é outra. Precisamos mostrar aos nossos alunos que o lugar deles também é importante. Eles precisam se reconhecer no que aprendem.”
Boas práticas e possibilidades
Um exemplo inspirador na escola foi a realização do projeto “Visões do Serrote: um olhar audiovisual da comunidade”, que promoveu a produção de mini documentários pelos estudantes. Através das câmeras, eles registraram histórias de moradores antigos, festas populares, saberes tradicionais e a relação com o Rio São Francisco.
“O projeto ajudou a mostrar que nossa história tem valor. Eu, por exemplo, entrevistei minha avó, e ela contou sobre como era o serrote quando era criança. Agora isso está registrado. Foi emocionante”, compartilhou Vitória Lima, de 14 anos, aluna do 9º ano.
Iniciativas como essa dialogam com os princípios da Pedagogia da Alternância, pois propõe uma educação em que o tempo da escola se alterna com o tempo da comunidade, valorizando o conhecimento local e promovendo a autonomia dos estudantes.
Educar com raízes
A experiência da Escola Municipal Luiz de Souza mostra que é possível fazer uma educação rural viva, crítica e enraizada no território. Mas para isso, são necessárias políticas públicas consistentes, formação docente específica, currículos adaptados e investimento estrutural.
“Não se trata apenas de manter escolas abertas no campo, mas de garantir que elas sejam lugares de transformação e pertencimento”, destaca Miguel Arroyo, educador e autor de referência. “É preciso construir um projeto político-pedagógico que respeite a diversidade e não reproduza um modelo único e urbano de educação.”
Enquanto o sol se põe sobre o Serrote, os estudantes encerram mais um dia de aula com os pés na terra e os olhos no futuro. Porque educar no campo é semear sonhos. E todo sonho, quando enraizado, floresce.
Educadores que, assim como os do Serrote do Urubu, se dedicam a semear sonhos e transformar a realidade de suas comunidades, podem encontrar no programa Florescer o apoio necessário para cuidar de si mesmos enquanto cuidam de seus alunos.
Se você é um educador ou educadora que busca ferramentas para cultivar seu bem-estar e fortalecer sua prática pedagógica, independentemente de sua realidade escolar, conheça o programa Florescer. Junte-se a uma comunidade de professores que, como você, acreditam que a educação enraizada e cheia de propósito floresce.
Referências:
- BRASIL. Resolução CNE/CEB nº 1, de 3 de abril de 2002. Disponível em: https://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=13800-rceb001-02-pdf&category_slug=agosto-2013-pdf&Itemid=30192.
- CALDART, Roseli S. Pedagogia do Movimento Sem Terra. São Paulo: Expressão Popular, 2000. Disponpivel em: https://ufrb.edu.br/educacaodocampocfp/images/livro-pedagogia-da-terra-mst.pdf.
- ARROYO, Miguel. Ofício de mestre: imagens e autoimagens. Petrópolis: Vozes, 2000. Disponível em: https://www.academia.edu/9767740/ARROYO_Miguel_Gonzalez_Of%C3%ADcio_de_Mestre_imagens_e_auto_imagens_Petr%C3%B3polis_Vozes_2000_251_p
- PRONACAMPO. Programa Nacional de Educação do Campo. MEC, 2012. Disponível em: https://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=13214-documento-orientador-do-pronacampo-pdf&Itemid=30192
