Suspensão não ensina!

Práticas restaurativas são alternativas às formas tradicionais de suspensão e punições

Há muito tempo se fala sobre a importância dos relacionamentos dentro da comunidade escolar para o aprendizado e desenvolvimento dos estudantes. Mas, como fica esse relacionamento quando os estudantes recebem punições por mau comportamento que os afastam da escola, como por exemplo a suspensão?

O caminho mais comum é: quando um estudante se comporta de uma maneira considerada inadequada, ele é enviado à sala da coordenação e/ou direção. Após uma investigação, que geralmente é breve, uma consequência que se encaixa em um código de conduta é dada. No caso da suspensão, o estudante é excluído temporariamente de qualquer atividade da escola, incluindo a própria instrução. Quando o tempo da punição acaba, o estudante é inserido novamente no ambiente escolar, sem ter entendido exatamente como seu comportamento afeta os outros e sem ter aprendido qualquer habilidade nova.

Esse tipo de punição faz contraste com as práticas restaurativas, cujo objetivo final é mediar ao invés de punir. É importante ressaltar que ofensas graves ainda devem ter consequências graves, porém a maioria dos maus comportamentos podem ser tratados de forma adequada com práticas restaurativas. A intenção por trás desse tipo de prática é entender a causa da conduta do estudante e buscar soluções em grupo.

Práticas restaurativas, em alternativa às punições, ajudam a manter os jovens na escola, onde eles podem aprender de que forma seu comportamento afeta os outros.

As práticas restaurativas podem ser implementadas seguindo cinco passos básicos. Apesar de serem simples de descrever, esses passos precisam de um esforço para serem aplicados. Os estudantes, após um mau comportamento, ainda irão para a sala da coordenação ou direção. Porém, o procedimento realizado a partir disso é bem diferente daquele que resulta em punições.

Os cinco passos das práticas restaurativas são:

1º – Construindo uma comunidade de aprendizagem: o grupo se junta em um círculo ou ao redor de uma mesa, de maneira que todos tenham uma visão clara dos participantes. O adulto que está liderando define o propósito da reunião. O objetivo pode ser para abordar uma preocupação urgente ou construir uma comunidade de aprendizagem na sala de aula ou em um grupo, que são espaços que têm como objetivo garantir a convivência e participação de todos, de forma democrática, nos processos e na tomada de decisão que envolvem a comunidade escolar.

2º – Momento das falas: um objeto deve ser usado para sinalizar quem irá falar. A pessoa que fala segura o objeto, e apenas ela pode falar nesse momento. Essa habilidade deve ser ensinada explicitamente e reforçada durante todo o momento.

3º – Foco da reunião: uma vez que o propósito da reunião foi estabelecido, esse deve ser o único foco da discussão. Qualquer desvio deve ser redirecionado. Deve-se evitar falar sobre casos que já aconteceram anteriormente ou outros comportamentos que não são o foco nesse momento. É importante ser bastante específico, pois isso ajuda os estudantes a entenderem a importância daquele conflito ser solucionado.

4º – Usar declarações “Eu sinto”: ensine os estudantes a usarem declarações “Eu sinto”, pois isso pode levar ao desenvolvimento da empatia quando o problema é o comportamento ou ações de alguns estudantes específicos.

Quando esses indivíduos percebem que suas ações afetam outras pessoas, eles são mais propensos a mudar seu comportamento. Esse é o grande diferencial das práticas restaurativas, elas ajudam a construir um senso de comunidade, confiança e compreensão. Por exemplo, o estudante pode usar declarações como “Eu me sinto desrespeitado quando meu colega faz piadas de determinado tipo” ou “Eu sinto que não sou valorizado quando dou minha opinião no grupo e ela não é levada em consideração”.

5º – Definindo um acordo: depois que aqueles que gostariam de falar já foram ouvidos, o grupo define e concorda quais são as mudanças que deverão ocorrer, aceitam seguir em frente juntos e perdoar as transgressões. É essencial permitir que todos os grupos avancem e não mantenham nenhum ressentimento persistente.

As práticas restaurativas permitem que as escolas cresçam como uma comunidade, estreitando os relacionamentos. Com isso, os estudantes passam a aprender com o fracasso e o perdão, em vez da punição.

O que você achou da utilização das práticas restaurativas nesse contexto? Você já conhecia? Conta para a gente!

Referências:

WHEELER, Ryan. Suspensions Don’t Teach. Edutopia, 2017 . Disponível em: <https://www.edutopia.org/article/suspensions-dont-teach>. Acesso em: 05 de agosto de 2021.

compartilhar

Relacionados

Metodologias ativas e inovadoras: uma ruptura do foco no ensino para o foco na aprendizagem

Como as metodologias ativas podem ser utilizadas para garantir um processo de ensino-aprendizagem mais engajante e significativo? por Joice Andrade       Quadro e giz, (…)

Educação no campo: saberes da terra, vozes do Serrote

Por Lucas Sobreira  No Serrote do Urubu, uma comunidade rural nos arredores de Petrolina, sertão do São Francisco, a educação pulsa entre as pedras, (…)

ATUAÇÃO DOCENTE EM MÚLTIPLAS ESCOLAS:

ATUAÇÃO DOCENTE EM MÚLTIPLAS ESCOLAS: O QUE ISSO REVELA SOBRE A REALIDADE BRASILEIRA? por Lucas Kauan N. De Santana No Brasil, a atuação docente (…)

Encontrou o que precisava?

Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!