Como preparar os alunos para a Sociedade do Conhecimento?

A pandemia expôs a falta de alinhamento entre as escolas e o que se espera delas em uma Sociedade do Conhecimento

Desde o início da pandemia, uma situação se tornou central para os governos, as escolas, os pais e os estudantes: o acesso à internet como ferramenta de aprendizado. Durante esse período, ficou ainda mais evidente o despreparo do sistema educacional brasileiro para uma demanda cada vez maior da sociedade do conhecimento por democratização da informação.

As políticas educacionais nos próximos anos devem focar em como ampliar o acesso dos estudantes à tecnologia e à internet e em como capacitar professores – principalmente aqueles com maior dificuldade – para essa nova realidade.

O problema é que apenas informação não basta. Com o advento das redes sociais nas últimas décadas, tornou-se possível criar, compartilhar e comentar conteúdos em comunidades. Ou seja, com o avanço tecnológico, pode-se produzir novos conteúdos e divulgá-los para todo o mundo. Os estudantes, em sua maioria, têm algum tipo de rede social e as utiliza diariamente.

Isso pode parecer contraditório, mas não é. Em grande parte, os alunos utilizam as redes apenas como entretenimento e a internet a qual acessam é de baixa qualidade, além de contarem apenas com um celular. Isso impossibilita o uso de outros recursos que poderiam ser empregados na sua própria formação.

Diante desse cenário, surge um questionamento: como preparar os estudantes (e a escola) para a sociedade do conhecimento?

Primeiro é necessário diferenciar os conceitos de sociedade da informação e sociedade do conhecimento. Segundo o ex-subdiretor geral da UNESCO para Comunicação e Informação Abdul Waheed Khan, “sociedade da informação é a pedra angular para construir o edifício de sociedades do conhecimento”. Para ele, esse conceito está diretamente relacionado à inovação tecnológica que temos vivenciado. Um exemplo que ajuda a visualizar a aplicação disso é observar um indivíduo que tem acesso à internet, aos bancos de dados de artigos, jornais, revistas ou quaisquer outras ferramentas que geram dados e informações.

Por outro lado, sociedade do conhecimento inclui, para Khan, “uma dimensão de transformação social, cultural, econômica, política e institucional, assim como uma perspectiva mais pluralista e de desenvolvimento. O conceito de ‘sociedades do conhecimento’ é preferível ao da ‘sociedade da informação’, já que expressa melhor a complexidade e o dinamismo das mudanças que estão ocorrendo (…) o conhecimento em questão não é só importante para o crescimento econômico, mas também para fortalecer e desenvolver todos os setores da sociedade.”

Na sociedade do conhecimento, há o conceito de rede, o que significa interagir, colaborar e produzir algo novo. São pessoas refletindo, analisando e discutindo sobre variados assuntos, todas emitindo suas opiniões, ensinando e aprendendo umas com as outras ao comentar seus pontos de vista, e em tempo real!

A BNCC trouxe um certo avanço nesse sentido. Ao olharmos para as competências específicas da área de Linguagens para o Ensino Fundamental, por exemplo, vemos claramente a tentativa de trazer o aluno para esse novo modelo de sociedade:

“3. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao diálogo, à resolução de conflitos e à cooperação.

4. Utilizar diferentes linguagens para defender pontos de vista que respeitem o outro e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, atuando criticamente frente a questões do mundo contemporâneo.

6. Compreender e utilizar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares), para se comunicar por meio das diferentes linguagens e mídias, produzir conhecimentos, resolver problemas e desenvolver projetos autorais e coletivos.”

A grande questão é que, por mais que a BNCC traga essas competências e fomente o uso de ferramentas digitais na escola, muitos professores ainda trabalham o ensino como memorização de dados, em um momento em que eles estão disponíveis na nuvem e qualquer pessoa pode acessá-las (o que reflete em certos trabalhos de alunos que são uma mera cópia de textos retirados da rede).

Para a especialista em elaboração e implementação de políticas públicas, Viviane Mosé, “existe um isolamento da escola brasileira em relação à sociedade – do ensino básico à universidade. O que temos que fazer na educação hoje é criar e não repetir. Na educação atual, é preciso acessar os dados, pensar sobre eles, interpretar e partilhar essa interpretação. É preciso reinventar a relação com o saber.”

Mas não se pode jogar a responsabilidade para os professores, que não receberam capacitação adequada para lidar com as tecnologias como um todo e que também enfrentam problemas de conexão, e para a escola, que não recebe investimento suficiente para ter e manter um laboratório de informática que atenda à comunidade escolar.

Para gerar desenvolvimento a partir do acesso e uso das informações disponíveis é necessária a criação de políticas públicas maleáveis e transversais, ou seja, pensadas e elaboradas por todos os atores do processo, respeitando as diferenças locais. E não podem ser simplesmente políticas de governo, mas de Estado, para que os projetos elaborados visem o longo prazo e alcancem cada vez mais e melhor os estudantes. Cabe a todos nós falarmos sobre isso, tornando o tema conhecido e reinvindicando as medidas cabíveis à nossa realidade.

A Curiós está empenhada nessa missão. Caso precise de ajuda nesse processo na sua rede de ensino, mande uma mensagem pra gente! Vamos adorar apoiar você.

Referências:

Gisele Dziekaniak e Aires Rover. “Sociedade do Conhecimento: características, demandas e requisitos”. Revista de Informação – v.12, n.5. Outubro de 2011. Disponível em https://egov.ufsc.br/portal/conteudo/artigo-sociedade-do-conhecimento-caracter%C3%ADsticas-demandas-e-requisitos

Viviane Mosé. Entrevista em vídeo: “Educação na Sociedade do Conhecimento”. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=vqkUWJINT_k

José Eustáquio de Sene. “A Sociedade do Conhecimento e as Reformas Educacionais.”. Universidad de Barcelona. Maio de 2008. Disponível em http://www.ub.edu/geocrit/-xcol/91.html

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!