Como prevenir a evasão escolar em tempos de pandemia?

Dados e sugestões de estratégias para incentivar a permanência nas escolas, diminuindo índices de evasão escolar

O Plano Nacional de Educação de 2014, publicado pelo governo federal em 2014, previa que, até 2016, o ensino de jovens entre 15 e 17 anos seria universalizado. Entretanto, segundo dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio Continuada (PNAD), de 2019, 11,8% dos jovens nesta faixa etária não estão na escola. Isso significa que, embora o Brasil tenha universalizado o acesso ao Ensino Fundamental e ampliado expressivamente o ingresso no Ensino Médio, 1,1 milhão de potenciais estudantes brasileiros abandonaram ou evadiram os estudos na última etapa do ensino básico.

Dentre as principais causas para a evasão, o economista Ricardo Paes de Barros destaca a dificuldade de acesso às escolas, incluindo questões como violência local, falta de transporte e pobreza. Outra causa se refere às dificuldades de aprendizagem, estas relacionadas a uma educação de baixa qualidade, currículos desatualizados e o não reconhecimento do jovem da importância da educação.

Essas condições, quando transformadas em evasão ou abandono escolar, impactam diretamente no desenvolvimento cognitivo e de competências sociais e emocionais dos jovens. A evasão e o abandono escolar impedem que o jovem articule uma maior consciência individual e coletiva, desencadeando em menor autonomia intelectual e econômica. Como consequência, jovens que não chegam a completar o ensino médio possuem maior tendência a recorrerem a postos de trabalhos informais e com menor remuneração ao longo da vida adulta.

De acordo com um estudo de 2017 promovido pelo Instituto Ayrton Senna, em parceria com o Insper, a Fundação Brava e o Instituto Unibanco, aqueles que não concluíram o Ensino Médio têm apenas 50% de chance de ter uma ocupação formal aos 35 anos de idade. Comparativamente, aqueles que alcançaram essa etapa da educação básica têm 77% de chance de terem uma ocupação formal. Além disso, estudos indicam que jovens que concluem o Ensino Médio tendem a se envolver menos em atividades violentas, terem menor prevalência de doenças crônicas e ter um planejamento familiar mais sólido.

Essas características impactam não apenas o indivíduo, mas toda a sociedade. Segundo o pesquisador Ricardo Paes de Barros, em estudo publicado neste ano, o Brasil perde 372 mil reais anualmente a cada jovem que não conclui a educação básica. Multiplicando este valor pelo número de alunos que não completam o Ensino Médio no país, a cifra chega aos 214 bilhões de reais anuais, valor correspondente a 3% do PIB. Além disso, a taxa de evasão e abandono escolar interfere indiretamente nos níveis de participação política, democracia, competitividade, produtividade e inovação.

Essa realidade se agrava ainda com a pandemia do novo coronavírus. Ricardo alerta que, devido à crise causada pela doença, 24% dos jovens de 15 a 17 anos que estão na escola pensam em não voltar. Assim, o cenário exige que educadores redobrem a atenção e tentem a proposição de um atendimento individualizado aos alunos. Jovens dessa faixa etária aprendem em distintas velocidades, fato que foi potencializado com os entraves causados pela pandemia. Se esse tipo de entendimento não for difundido nas escola, o ensino pode não conseguir reduzir as desigualdades e, ainda pior, aprofundá-las.

Diante desse impacto nocivo, é fundamental que educadores cultivem boas práticas para engajar seus alunos e diminuir as taxas de abandono e evasão escolar. O Instituto de Ciências Educacionais (IES), ligado ao Departamento de Educação dos Estados Unidos, recomenda que as escolas acompanhem o desempenho de todos os alunos e se atentem a mudanças comportamentais ou de aprendizagem. Ao identificar esses sinais de alerta, os educadores podem fornecer um suporte individualizado que envolva não apenas o aluno, mas também seu ambiente familiar. Essa resposta preventiva incentiva o jovem a se identificar com o ensino e conseguir completar os estudos.

Uma dica é realizar esse monitoramento através do método “ABC”. Essa metodologia busca coletar indicadores relacionados a três pilares: presença nas aulas, comportamento e resultados em avaliações, que, nos termos em inglês, ‘attendance’, ‘behavior’ e ‘course grades’ resultam na sigla ABC. Os educadores podem disponibilizar esses dados em planilhas compartilhadas com a coordenação pedagógica e outros professores, de forma que seja possível identificar as disciplinas que menos engajam aquele aluno.

Nesse período de ensino remoto, a ferramenta se mostra ainda mais efetiva. Os educadores podem criar categorias de classificação dos alunos em relação ao risco de evasão. Por exemplo, se um jovem não está conseguindo acompanhar o aprendizado por dificuldades de adaptação ao ensino remoto, é provável que essa realidade seja visível a partir de uma porcentagem muito baixa de presença nos encontros remotos e de possíveis quedas na qualidade das tarefas entregues. Quando unidos, esses indicadores demonstram que esse aluno é vulnerável e mais suscetível à uma evasão escolar, o que demanda uma maior atenção da comunidade escolar.

Uma estratégia para incentivar a participação nesses casos é envolver a família na aprendizagem do aluno. Ligações ou mensagens nas redes sociais para os familiares podem ajudar o educador a entender a realidade do jovem e, como consequência, mapear possíveis obstáculos que têm impedido sua participação no ensino remoto.

Outra dica consiste em criar grupos menores de atendimento personalizado através de ferramentas mais acessíveis e dinâmicas – como o WhatsApp, por exemplo. Exigindo uma menor demanda de dados de internet e proporcionando uma comunicação mais rápida, aplicativos de mensagens podem ser mais atrativos para alunos vulneráveis. Por último, é interessante que os educadores partilhem mensagem positivas para os alunos e seus pais quando houver um aumento de engajamento do jovem, de forma que esse sinta incentivado a progredir ainda mais.

E na sua escola, como tem sido essa interação com os alunos? Que tal pensar estratégias intencionais que ajudem na prevenção à evasão escolar? A Curiós existe justamente para te ajudar nessa missão! Entre em contato para saber mais 🙂

Referências:

Fundação Brava, Instituto Ayrton Senna, INSPER e Istituto Unibanco. Políticas públicas para redução do abandono e evasão escolar de jovens. 2017.http://gesta.org.br/wp-content/uploads/2017/09/Politicas-Publicas-para-reducao-do-abandono-e-evasao-escolar-de-jovens.pdf.

Institute of Education Sciences. Preventing Dropout in Secondary Schools. 2017. https://ies.ed.gov/ncee/wwc/Docs/PracticeGuide/wwc_dropout_092617.pdf.

Roberta Fuger. How to End the Dropout Crisis: Ten Strategies for Student Retention. 2008. https://www.edutopia.org/student-dropout-retention-strategies.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!