Inteligência Emocional e desempenho escolar

A criatividade tem forte impacto no desempenho, mas e a inteligência emocional?

A criatividade tem uma longa história na psicologia e nas ciências educacionais, mais particularmente quando se fala em inteligência e desempenho acadêmico. Alguns estudos que investigam a relação entre criatividade e inteligência demonstram que a criatividade tem impacto no desempenho escolar, o que significa que pessoas mais criativas podem obter maior desempenho cognitivo. A relação entre Inteligência Emocional (IE) e o desempenho acadêmico também vem sendo explorada em vários estudos, e a maioria dos resultados dependem da perspectiva teórica do IE, ou seja, habilidades x características. Apesar de não haver um consenso, algumas perspectivas a respeito da IE compartilham a ideia de que competências emocionais devem ser levadas em consideração, mesmo que não sejam um fator preditor da aprendizagem.

Por um lado, os modelos de habilidades concebem que a Inteligência Emocional abrange quatro dimensões:

  • identificação de emoções;
  • utilização de emoções;
  • compreensão das emoções
  • regulação das emoções.

Por outro lado, os modelos de características consideram a IE como um conceito multifacetado que abrange 13 a 15 disposições comportamentais relacionadas à emoção que afetam as maneiras como um indivíduo lida com demandas e pressões.

São exemplos:

(a) autocontrole;

(b) bem-estar;

(c) sensibilidade emocional

(d) sociabilidade.

Um estudo foi conduzido com 73 crianças de duas escolas primárias da parte francesa da Bélgica, para verificar como se dá a relação entre a criatividade, inteligência emocional e o desempenho escolar, considerando também gênero e série. A amostra compreendeu dois grupos: um contendo 24 meninas e 16 meninos da 2ª série, com uma média de idade de 8,2 anos e o outro grupo de 16 meninas e 17 meninos da 5 ª série, com uma média de idade de 11,2 anos. Todos os participantes tinham o Francês como primeira língua e eram alunos regulares sem histórico de reprovação escolar.

Foi utilizada a versão francesa dos Testes Torrance de Pensamento Criativo (TTCT), que compreendem partes figurativas e verbais. O TTCT figurativo avalia quatro características da criatividade: fluência, flexibilidade, originalidade, e elaboração figurativa. O TTCT verbal avalia as mesmas características, exceto a elaboração. Já a IE foi avaliada por meio de questionários de personalidade.

No que diz respeito à criatividade, os resultados mostram que as características avaliadas têm relação com o desempenho escolar, tendo maior efeito para os meninos. No TTCT figurativo, fluência, originalidade e flexibilidade mostraram efeitos significativos no desempenho em Francês e Matemática. O mesmo foi observado com o TTCT verbal, em que a flexibilidade teve relação direta com a pontuação nas duas disciplinas. Mesmo que o incentivo à criatividade dentro da sala de aula não tenha sido avaliado no estudo, pode-se especular que comportamentos criativos possam ser estimulados dentro da sala de aula, mas apenas os verbais. Isso é positivo, já que a criatividade prediz o desempenho escolar.

Por outro lado, não houve diferença significativa para a Inteligência Emocional entre os sexos, apesar de vários estudos descreveram maior IE entre mulheres, tanto na fase adulta quanto na infância. Além disso, uma questão importante permanece sem resposta: a EI pode desempenhar um papel de fator moderador entre socialização e rendimento escolar? Vários estudos demonstraram associação positiva entre IE e bem-estar. Portanto, mais estudos devem ser guiados para verificar se a IE pode realmente causar impacto no desempenho escolar.

Em conclusão, embora o estudo confirme e amplie o papel preditivo da criatividade no desempenho escolar, a Inteligência Emocional não mostra qualquer influência. Esses achados questionam a recente disseminação dos programas de treinamento de IE em escolas. Contudo, vale a pena conferir os resultados de outros estudos disponíveis sobre o tema, pois a sua abordagem pode ser benéfica para outras questões além da aprendizagem. Além disso, recomendamos a leitura de artigos que abordam o impacto da Inteligência Emocional na sala de aula, como este já disponível aqui no blog.

Agora, conta pra gente: qual foi a atividade mais criativa que já propôs em sala de aula e qual foi o resultado para os alunos? Escreva uma mensagem pra gente! Vamos adorar te ouvir.

Referências:HANSENNE, Michel, LEGRAND, Jessica. Creativity, emotional intelligence, and school performance in children. International Journal of Educational Research, 2012.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!