Entendeu?

Relato de um professor sobre como melhorar a clássica pergunta “Entendeu?” para verificação da aprendizagem

Um(a) professor(a) comprometido com seu trabalho frequentemente deve se perguntar se seus alunos estão aprendendo o que está sendo ensinado. A distância do “eu ensinei” para o “eles aprenderam” é muito grande. E existe um termo que é muito usado para verificar se os alunos internalizaram o que explicamos: o entendeu? Mas será que essa é a melhor técnica para fazer essa verificação?

É importante ressaltar que, fora da sala de aula, existem inúmeras maneiras de verificar o aprendizado dos alunos, seja pelas provas, trabalhos, atividades avaliativas e por aí vai. O que quero destacar aqui é a habilidade de perceber se os alunos estão aprendendo dentro dos 50 minutos de aula. Isso é importante porque se o professor sai da sala com uma interpretação errada do que aconteceu lá dentro, é possível que essa interpretação se arraste por mais aulas e se descubra que houve pouco aprendizado apenas no fim do bimestre – o que está longe do ideal.

Portanto, vou destacar aqui algumas técnicas que vão além do famoso entendeu?, que vocês podem utilizar para fazer verificações rápidas de aprendizagem em sala de aula. Como sou professora de Química, utilizarei conteúdos desta disciplina para exemplificar as técnicas.

1. Faça perguntas objetivas

Se você faz uma pergunta para toda a turma da forma: “Bom, todos entenderam o que são reações endotérmicas e exotérmicas?” Ou “Então, reações endotérmicas são aquelas que absorvem energia e as exotérmicas são aquelas que liberam energia. Entenderam, pessoal?” Dificilmente aqueles alunos que não entenderam vão levantar a mão e dizer um enfático “Não!” E isso não é exclusivo de uma sala de aula, você pode dirigir esse tipo de pergunta para crianças, adultos, adolescentes ou idosos. Perguntas do tipo “Está claro?” ou “Todos entenderam?” dificilmente instiga as pessoas que não entenderam a se manifestar.

Uma alternativa para esse tipo de pergunta é: Quem pode me dizer o que são reações exotérmicas e endotérmicas? Os alunos mais desinibidos levantarão a mão (ou começarão a falar todos juntos haha) e você começa a selecionar alunos para responder. Assim que o primeiro aluno ou aluna responder, você pode pedir para outro aluno que levantou a mão para justificar a resposta anterior e continuar com perguntas que aprofundem a explicação. Ao fim desta sequência de perguntas, você terá uma amostra da sala que te dará uma noção de como foi o aprendizado daquele conteúdo.

2. Direcione suas perguntas

Uma forma de complementar a técnica anterior é direcionar perguntas para alunos específicos, de preferência alunos que representem os perfis diferentes encontrados na sala de aula. Você pode fingir escolher alunos aleatoriamente, mas o que você quer é obter respostas de uma amostra que represente toda a sala de aula. Dessa forma, escolher apenas os alunos que levantam a mão pode trazer uma interpretação errônea, pois aqueles que se oferecem voluntariamente para responder tem mais chance de ter entendido o conteúdo. Agora vamos pro exemplo: Pessoal, vamos fazer uma verificação do entendimento agora. Allan, você pode explicar o que é uma reação exotérmica? Bianca, e o que seria uma reação endotérmica? Marcos, você pode dar exemplos destes tipos de reações? Sugiro fazer uma apreciação positiva após as respostas corretas e para aquelas não satisfatórias você pode ajudar o aluno a chegar na resposta correta ou pedir para outro colega ajudar, sem desmerecer o esforço. Assim, a sequência de perguntas será feita de forma estratégica e os alunos poderão se sentir valorizados e motivados a responder em voz alta mais vezes.

3. Rastreie

Recentemente uma aluna me deu um feedback muito positivo: “Eu acho que quando os alunos escrevem é muito bom que você fique andando pela sala, porque quem não fazendo nada começa a fazer e prestar atenção.” Achei muito interessante a percepção dela, pois o meu caminhar pela sala tem sim intencionalidade. Além desse movimento fazer exatamente o que a aluna citou, ele tem outro objetivo por trás. Quando eles estão realizando um exercício, por exemplo, eu defino o que estou procurando. Geralmente rastreio:

– Se alunos que acredito já terem entendido o conteúdo, conseguiram realizar o exercício;

– Alunos que têm mais dificuldade, mas se esforçaram e responderam corretamente;

– Dúvidas comuns que surgiram durante a realização do exercício;

– Alunos que nem tentaram iniciar o exercício. Nesse caso, eu pego no pé para iniciarem, mas dando aquela ajudinha pra eles saírem do lugar. Em seguida, peço para um colega que já terminou para ajudá-lo.

Na correção do exercício, eu uso os dados que coletei. Peço para um dos alunos com mais facilidade para explicar o seu raciocínio e depois direciono uma pergunta para os alunos com mais dificuldade (mas que sei que saberão responder, pois rastreei isso). Essa é uma estratégia para mostrar para esses alunos que com um esforço a mais eles também conseguem. Caso encontre uma dúvida muito frequente, eu explico novamente para toda a turma em uma tentativa de sanar as dúvidas ainda remanescentes.

E aí, o que você achou dessas técnicas? Já utiliza alguma delas? Caso você tenha outras técnicas para compartilhar, fique à vontade para escrever nos comentários!

Ao ler esse post você pode pensar no tempo que vai perder para verificar o entendimento e que poderia ser utilizado para explicar mais conteúdo. Mas lembre-se: verificar se os alunos aprenderam antes de seguir adiante dá muito menos trabalho do que ter que retornar o assunto depois. As técnicas explicadas são encontradas no capítulo 1 do livro Aula Nota 10, que vimos em mais detalhe neste post. Existem outras técnicas neste capítulo, mas são essas que mais utilizo em sala de aula e funcionam melhor comigo.

Como eu disse, você não precisa utilizar todas as estratégias disponíveis para ser um(a) excelente professor(a). Utilize as que fazem sentido pra você e que dão certo na sua aula! E, se precisar de ajuda para implementar novas estratégias na sua rede, conte com a Curiós! Estamos aguardando seu contato e vamos adorar construir isso com você.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!