3 práticas de avaliação que deveriam mudar

Garantindo práticas de avaliação que reflitam de fato o aprendizado – Por Alexis Tamony 

No final de um semestre, um aluno tem 83% de aproveitamento na minha turma. O que isso realmente significa? Eles entenderam 83% do material, fizeram 83% do trabalho e conseguiram 83% dos pontos disponíveis? Eu tenho pensado muito sobre minhas práticas de avaliação ultimamente e como elas são compostas (ou não) pela minha filosofia geral de ensino. Acredito que meu papel como professora é fazer o seguinte:

  • Ensinar aos alunos sobre matemática
  • Incentivar o desenvolvimento dos alunos nesse componente curricular
  • Relatar com precisão o nível de compreensão do conteúdo

Com isso em mente, examinei três práticas de classificação tradicionais.

1. Média de notas ao longo do tempo

A maioria de nós ensina por um semestre e avalia os alunos em diferentes intervalos. Para um aluno que vem com habilidades fortes, isso parece uma boa prática.

Mas pense nesse cenário: Marisa veio para a aula com uma habilidade super forte e foi ótima o ano todo. O desempenho de José foi bom no começo, melhorou com o tempo e ele acabou no mesmo lugar que Marisa. As jornadas de Elias e Marina foram mais difíceis, mas eles trabalharam duro, e você fez um trabalho fantástico ajudando-os! Se no final do semestre todos os quatro alunos tiverem o mesmo nível de compreensão, sua nota não deveria refletir seu nível atual de conhecimento?

Cada um aprende em um ritmo diferente. Devemos penalizar os alunos que tiveram uma má experiência, podem ter passado por alguma situação que causou uma “queda” ou apenas levam mais tempo para aprender algo novo? Não. Acho que todos os quatro alunos merecem a mesma nota se demonstrarem o mesmo nível de desenvolvimento.

Nos últimos anos, ensinar aos alunos uma mentalidade de crescimento permeou os blogs dos professores e as palestras. No entanto, acho que a forma como os professores normalmente fazem avaliações mina completamente a conversa sobre esse tema. Se nossas práticas de avaliação não promovem, incentivam e recompensam o crescimento, então não o valorizamos. Como mostramos às crianças que seu crescimento é importante?

Foi assim que minha prática evoluiu: atualizo consistentemente as pontuações de desempenho antigas com novas e mais precisas, que reflitam o momento atual de cada um. Os alunos obtêm repetições ilimitadas das avaliações. Peço que eles pratiquem continuamente o conteúdo e demonstrem a retenção do que aprenderam. Eu digo aos alunos que o aprendizado não para depois de uma avaliação. Uma avaliação não é um julgamento final, é um marcador de progresso, e acredito que todos os alunos podem ter sucesso dessa forma.

Se um aluno tirar uma nota abaixo do esperado, as repetições obrigatórias de atividades são atribuídas e concluídas durante o horário de aula. Os alunos recebem oportunidades individualizadas para praticar e são reavaliados depois de aprenderem mais. Eu só mantenho os relatórios mais recentes de proficiência demonstrada. Isso também requer a retenção do conhecimento do conteúdo, que sempre foi um problema nas aulas de matemática.

2. Adição de outros elementos além da compreensão do conteúdo

Tive alunos que foram aprovados na minha aula, mas sabia que eles tinham pouca compreensão do conteúdo. Eu também tive alunos que eu sabia que entendiam o material muito bem, mas tinham uma nota muito baixa. Como? Alunos com notas maiores podem ter tido mais recursos em casa para realizarem as atividades, o que lhes permitiu ter um desempenho melhor sem que necessariamente tenham compreendido plenamente o assunto.

Na realidade, com uma divisão de 60% de avaliações em aula e 40% de trabalhos de casa, um aluno pode ser reprovado em todas as provas, mas fazer toda lição de casa e ainda passar. O aluno não conhece o conteúdo, mas vai passar.

É preocupante quando as notas não refletem com precisão que um aluno precisa de atenção extra. Alternativamente, um aluno com bom conhecimento do conteúdo e uma nota baixa pode também ser uma situação possível, desde que seu comportamento ou forma de pensar tenha impedido que ele tivesse um desempenho melhor. 

Pensando nisso, agora baseio 100 por cento da nota de um aluno na proficiência demonstrada das metas de aprendizado.

“Eles não ganham pontos por seu trabalho?” – “Não.”

“Eles ainda fazem atividades?” – “Sim.”

“Algumas crianças têm tarefas faltando?” – “Sim.”

Eu reporto esses resultados no boletim de notas aos pais para que eles possam apoiar seus filhos, mas esses pontos não afetam a nota numérica (positiva ou negativamente). Não há novas entregas, mas os alunos fazem o trabalho porque construímos uma cultura que produz resultados.

Falo constantemente sobre a correlação entre prática e desempenho. As crianças entendem essa conexão graças aos esportes, dança, videogames e outros hobbies. Por que não nos atentamos para essa conexão com algo tão importante quanto a educação e nossas práticas de avaliação?

3. Relatar pontuações simplesmente como notas

Sou extremamente transparente com alunos e pais sobre qual é a nota deles. Relato o nível atual de compreensão dos alunos sobre metas de aprendizado específicas que são baseadas em progressões de aprendizado projetadas com meus colegas. Usando meu julgamento profissional da compreensão do aluno, eu classifico as avaliações em uma escala de proficiência:

  • 4 – Aproximando-se do Domínio
  • 3 – Proficiente
  • 2 – Emergentes
  • 1- Ainda não 
  • 0 – Nenhuma Evidência de Aprendizagem 

Se uma avaliação abrange quatro metas de aprendizado, a avaliação resulta em quatro pontuações separadas no meu livro de notas:

  • Meta 1: 4
  • Meta 2: 2
  • Meta 3: 2
  • Meta 4: 1

Tenho dados atuais sobre cada meta para cada aluno. Todo mundo vê de forma transparente onde esse aluno está se destacando e onde está lutando. Se esta for a única anotação no livro de notas, a nota geral do aluno seria 2 (9/4 = 2,25). 

Alternativamente, se eu classificasse este teste com base apenas na porcentagem correta (e vamos supor que cada meta tivesse quatro questões), o aluno teria 9/16 (56%). Com base no meu julgamento profissional, este aluno tem conhecimento de passagem em três dos quatro tópicos e compreensão muito boa em um deles, portanto, esse resultado não parece muito preciso. Concorda?

Eles realmente merecem ser classificados como “insuficientes” com esse nível de conhecimento demonstrado? Essa maneira de relatar as notas aos alunos permite que eles assumam mais propriedade de seu caminho de aprendizado. Eles podem acompanhar seu progresso ao longo do tempo, definir metas e ver como avançam. Para saber mais sobre as chamadas avaliações formativas e conhecer práticas de avaliação dessa categoria, confira esse post.

Sabemos que, no Brasil, o sistema de ensino não nos permite eliminar as notas completamente. É importante saber o que são iniciativas possíveis para o dia a dia daquelas que podemos aplicar de forma adequada à burocracia de cada escola. Como a reflexão da professora Alexis pode ser traduzida ao seu dia a dia?



Referências:

Edutopia, por Alexis Tamony. “3 Grading Practices That Should Change”. Novembro de 2021. Disponível em: https://www.edutopia.org/article/3-grading-practices-should-change 

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!