Busca ativa escolar: como garantir a permanência dos estudantes na escola?

Conheça três casos de busca ativa escolar espalhados pelo Brasil e entenda por que estão falando tanto dela

  • Busca ativa escolar: conceito e desenho

O cenário do abandono e da evasão escolar ainda é um dos principais gargalos da educação nacional. Apesar da tendência de queda nos últimos anos, a pandemia do novo coronavírus potencializou algumas das causas de abandono, como a necessidade de trabalhar para contribuir com a renda familiar e a defasagem no processo de aprendizagem, dado o afastamento da escola no contexto remoto. O abandono, vale ressaltar, ocorre quando o estudante deixa de frequentar a escola ao longo do ano letivo. Já a evasão pode ser uma consequência do abandono, pois se dá quando ele não se matricula para iniciar o ano seguinte. 

Diante disso, existe uma série de estratégias para reduzir esses dois problemas, entre elas destaca-se a busca ativa escolar. O termo ganhou grande notoriedade após a pandemia do covid-19, mas você sabe o que é de fato a busca ativa? Para que ela serve? E por que estão falando tanto dela nos últimos tempos? 

A busca ativa escolar diz respeito à ação de agentes do poder público para identificar e trazer para a escola crianças e adolescentes em situação de exclusão escolar (PERES, 2022), de modo a garantir os direitos desse grupo social, não o deixando em um quadro de invisibilidade. Essa ação pode envolver mutirões, palestras, campanhas, cruzamento de dados e visitas domiciliares, como veremos nos exemplos. 

A Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), inclusive, desenvolveu, em parceria com outras instituições, uma plataforma digital de busca ativa escolar, através da qual a rede de ensino, seja ela municipal ou estadual, pode se inscrever para criar um sistema de busca ativa escolar baseado em uma articulação intersetorial. Ela é necessária, pois para lidar com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade é importante a intervenção não só de agentes da educação, como também da saúde, da assistência social e outros. Assim, cada ator pertencente a essa rede de proteção exerce uma função específica para garantir o retorno e a permanência do estudante na escola. A plataforma ainda permite registrar os casos de abandono escolar, planejar ações e acompanhar suas execuções para verificar os resultados. 

  • A busca ativa escolar na prática

Para visualizarmos a busca ativa escolar na prática traremos em sequência três casos reais de seu uso. Vale mencionar que esses exemplos se deram no contexto da pandemia, no qual o contato dos estudantes com a escola ficou distante e difícil, e os casos de infrequência aumentaram.

  1. Busca ativa para a Educação Infantil – Itanhaém/SP

Um dos principais desafios do município de Itanhaém, no interior de São Paulo, era alcançar as crianças de bairros distantes para garantir seu direito à matrícula e permanência na escola, pois havia um grande número delas fora das creches. Para lidar com essa questão, a Secretaria de Educação priorizou a gestão de casos pela plataforma disponibilizada pela Unicef para desenvolver um trabalho baseado em evidências. Além disso, realizou uma pesquisa de forma contínua, a fim de entender os motivos de risco de abandono ou infrequência.

No caso dos alunos matriculados, a busca ativa tem início na unidade escolar por meio do controle semanal da frequência dos estudantes. Quando o aluno deixa de comparecer, a assessora pedagógica aciona a família, mas se o contato não tiver sucesso, ela emite um alerta na plataforma para que os atores responsáveis resolvam o caso. Tal resolução pode englobar visitas domiciliares para estabelecer e fortalecer a relação família-escola. 

Em 2021, dos 1522 casos registrados de infrequência, apenas 10 permaneceram com status “em andamento/fora da escola”, mas com os encaminhamentos devidos. A ação intersetorial, aliás, foi importante para amparar as famílias com auxílio alimentício. Isso porque, muitas vezes, os alunos que estão fora da escola vivem em uma situação de vulnerabilidade social e econômica.

  1. Busca ativa em área banhada por rio – Marechal Thaumaturgo/AC

No pequeno município de Marechal Thaumaturgo, no Acre, o grande desafio diz respeito à acessibilidade, pois ela só ocorre por via aérea ou fluvial. O município está no meio da Amazônia e conta com zonas urbana e rural. Na zona rural, há comunidades indígenas e ribeirinhas. Para ficar evidente o tamanho do desafio, das 51 escolas de lá, 45 estão na zona rural, distribuídas ao longo do rio para atender a 75% dos estudantes da rede. Com a pandemia, as dificuldades de acesso se agravaram, assim o município teve de se articular para fazer a entrega dos materiais pedagógicos de barco até os locais mais distantes.

Para intensificar o processo de busca ativa escolar, diante do aumento de casos de estudantes fora da escola, o poder municipal contou não só com o apoio da escola para identificar os alunos em situação de abandono, como também mobilizou a população para a entrega de panfletos, colagem de cartazes em prédios públicos e carreatas pela cidade para informar os pais e responsáveis sobre a importância de retornar para a escola. Toda essa ação contribuiu para que 200 crianças retornassem para o ambiente escolar. 

  1. Busca ativa em município de pequeno porte – Guimarães/MA

O município de Guimarães, no Maranhão, possui apenas 12 mil habitantes e, para lidar com o aumento do abandono escolar, apostou na intensificação das visitas domiciliares pela equipe da busca ativa escolar cadastrada na plataforma para amparar e informar as famílias, pois a maior parte da população é vulnerável e possui baixa escolaridade. 

Durante as visitas, foi possível entender a realidade de cada estudante e apoiá-los também com a entrega de alimentos e kits escolares, que são fatores que podem levar ao abandono. A partir dessa ação, dos 71 alunos fora da escola, 42 foram inseridos no ambiente escolar.

As experiências detalhadas acima expõem como a busca ativa escolar, auxiliada pela plataforma digital, pode ser adaptada de acordo com as peculiaridades de cada rede de ensino para trazer o estudante de volta para a escola, especialmente em um contexto de crise como a pandemia. Mas em todas elas foi ressaltada a importância da articulação intersetorial, pois os motivos para a exclusão escolar, em geral, são múltiplos. No mais, quando o estudante ingressa no ambiente escolar é necessário um trabalho para acolhê-lo, para que assim ele não volte a abandonar ou evadir.

A Curiós tem soluções que ajudam o dia a dia dos educadores de maneira relevante, engajando e acolhendo os alunos e, com isso, mitigando a evasão escolar. Quer saber como podemos ajudar a sua rede? Entre em contato, vamos adorar te ouvir e entender a sua realidade.

Referências:

PERES, Andréia. Busca ativa escolar: contexto geral da busca ativa no Brasil. 2. ed. Brasília: Unicef, 2022. Disponível em: <https://buscaativaescolar.org.br/storage/files/shares/2022/BAE_01_contexto_geral_web.pdf>. Acesso em: 27 dez. 2022.

SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO GOVERNO DO ESTADO DO MARANHÃO. Almanaque: boas práticas da busca ativa escolar no Maranhão. São Luís: Seduc, 2022. Disponível em: <https://www.educacao.ma.gov.br/files/2022/12/Almanaque-Busca-Ativa-Escolar.pdf>. Acesso em: 27 dez. 2022.

Experiência de Busca Ativa Escolar em Itanhaém (SP). Busca Ativa Escolar, 2022. Disponível em: <https://buscaativaescolar.org.br/noticia/experiencia-de-busca-ativa-escolar-em-itanhaem-sp>. Acesso em: 27 dez. 2022.

Missão: levar meninos e meninas de volta para a escola. Unicef Brasil, 2022. Disponível em: <https://www.unicef.org/brazil/historias/missao-levar-meninos-e-meninas-de-volta-para-escola>. Acesso em: 27 dez. 2022.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!