Pensar sobre a aula no momento que o sinal toca não parece um bom plano
Por Jaqueline Novoletti
“Não ousamos encarar uma cirurgia em que o médico não fez um estudo prévio para o paciente. Como prática profissional, o planejamento é uma atitude imprescindível e na escola também precisa ser assim.” Essa analogia feita por Neurilene Martins nos relembra o quanto os planos de aula são essenciais para a eficácia do ensino. E hoje acrescentamos o adjetivo “bom” antes de plano de aula. Será que conseguiremos redigir uma receita pronta de como planejar bem e de forma alinhada à BNCC?
1. Determine o objetivo: Antes de pensar no que fazer, pense no resultado esperado
Doug Lemov chama essa técnica de “comece pelo fim”, ou seja, antes de pensar na atividade que os estudantes participarão, reflita “o que os estudantes saberão ou serão capazes de fazer quando a aula terminar?”. Com isso, temos uma pergunta mensurável que permite avaliar se os estudantes atingiram o(s) objetivo(s) esperado(s).
Por exemplo, diante da habilidade EF35LP23 (que consiste em apreciar poemas e outros textos versificados, observando rimas, aliterações e diferentes modos de divisão dos versos, estrofes e refrões e seu efeito de sentido), antes de pensar na atividade (levar um poema para os estudantes lerem), pensaremos no objetivo (analisar versos, estrofes e rimas) e então, depois de defini-lo, faremos a curadoria de quais textos serão os melhores recursos para a aula.
Acrescento aqui ainda a necessidade de expor o objetivo da aula em um local onde os estudantes possam ver e, ao final da aula, avaliem se o objetivo foi alcançado por eles.
1.1. Construir bons objetivos para elaborar um bom plano de aula
Agora que entendemos o quanto os objetivos são fundamentais para bons planos de aula, é importante refletirmos em como elaborar objetivos eficazes. Todd McKee, citado na obra de Lemov, nos ajudou nessa tarefa através de quatro critérios que estarão brevemente resumidos abaixo – e que valem a leitura completa na obra referenciada no final desse artigo:
- Viabilidade: considere que o tamanho e escopo de um objetivo deve caber dentro do tempo de uma aula.
- Mensurabilidade: pense num objetivo cuja alcançabilidade possa ser medida no final de cada aula. É muito importante planejar a avaliação, ou seja, qual será o meio de mensurar, de fato, se o objetivo foi alcançado.
- Um bom guia para atividades: o objetivo deve guiar a atividade e não justificar sua escolha. Reforçando o que já dissemos aqui: o objetivo vem em primeiro lugar.
- Prioridade: O foco do objetivo deve ser o que é mais importante para chegarmos na totalidade contemplada pela sequência didática da unidade.
Martins também nos lembra de ter objetivos claros, definindo claramente quais as metas de aprendizagem das atividades e estabelecendo indicadores de avaliação. Recomenda ainda: “uma boa opção é fazer registros que indiquem como os alunos estão participando das atividades e se eles estão conseguindo produzir o esperado.”
Além disso, acrescenta a flexibilidade como ponto de atenção: “ajuste as estratégias didáticas e a gestão do tempo aos ritmos e estilos da classe, mesmo que isso altere o que foi pensado anteriormente.”
2. Quem nunca? A armadilha de planejar aulas isoladas
Quem nunca, por falta de tempo ou de prática, deixou para planejar uma aula na noite anterior? A principal questão é que quando isso acontece geralmente planejamos aulas isoladas, sem refletir a progressão intencional das sequências didáticas dentro das unidades.
Martins ainda acrescenta que “o plano de aula não é uma ilha, por isso é esperado que o professor contextualize essa produção em um planejamento maior”.
É claro que planejamento exige gestão de tempo, mas Lemov nos acolhe quando diz que melhor seria planejar todos os objetivos, ainda que só esses, para toda a unidade e depois planejar de fato cada aula (mesmo que na noite anterior), do que planejar com antecedência um lote de aulas, mas centradas somente em atividades.
O planejamento efetivo da unidade significa planejar uma sequência de objetivos para um longo período, mas, sobretudo, relacionar as aulas entre si de modo a construir cada uma delas considerando as anteriores e as futuras. Além disso, é importante considerar que se um objetivo não foi alcançado, ele precisa ser revisto antes de avançar, assegurando assim que os estudantes dominem o conteúdo.
3. Planejar é considerar o contexto
Martins nos presenteia ainda com reflexões imprescindíveis e que levam em conta os contextos em que atuamos. Nos diz que “o plano de aula é o planejamento que mais dialoga com o currículo real da sala de aula” e nos dá mais algumas dicas valiosas para o processo de planejamento:
- Usar as informações e reflexões sobre sua turma: observar como os estudantes estão se apropriando dos aprendizados – avanços e desafios. Logo, o plano de aula precisa fazer sentido para as necessidades reais de cada turma.
- Estruturar o plano: não importa qual seja o modelo, o plano de aula deve conter as habilidades da BNCC, os objetivos, as estratégias, as atividades, as possíveis intervenções, a avaliação dos indicadores de aprendizagem e os recursos a serem utilizados.
- Cada plano de aula é único para cada turma: por isso, revise o plano antes de reutilizá-lo considerando os conhecimentos prévios, revendo os objetivos e as intervenções.
4. Conclusão: não há receita pronta (e que bom!)
O título desse tópico responde a pergunta do parágrafo de introdução: não temos uma receita pronta ou um modelo perfeito para construir bons planos de aula. Mas nessas linhas pudemos trazer alguns ingredientes que não podem faltar e ressaltamos que a ordem do preparo – começando pelo objetivo – faz toda a diferença.
Esperamos ter ajudado a enxergar o plano de aula muito mais como aliado do que “mais um trabalho na vida do professor”. Esse era o plano (e também o objetivo!). Precisa de mais apoio? A Curiós pode ajudar. Mande uma mensagem pra gente!
Referências:
Lemov, Doug. Aula nota 10 2.0: 62 técnicas para melhorar a gestão de sala de aula. 2. ed. Porto Alegre: Penso, 2018.
Martins, Neurilene. 6 pontos essenciais para elaborar um bom plano de aula. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/439/6-pontos-essenciais-para-elaborar-um-plano-de-aula
