Uma reflexão sobre a ideia de que ser professor é deixar-se desafiar pelos estudantes
Por Samuel Godinho
Recentemente, lendo o excelente livro da psicóloga Cida Bento sobre “O Pacto da Branquitude” me deparei com uma narrativa interessante que introduz a obra. Ela relata que, certa vez, seu filho, Daniel, chegou em casa irritado após uma aula sobre escravidão. Depois da aula, um de seus colegas havia apontado para garotos negros e, de forma debochada, se referido a eles como “desdendentes de escravos”. Cida conclui o seu relato dizendo como ajudou o filho a entender que não havia vergonha alguma em descender de pessoas que foram escravizadas, pelo contrário, ele deveria se orgulhar do que as pessoas negras construíram, apesar da escravatura. Muitas coisas me chamaram atenção nessa história, como o fato de eu também ter sentido um certo incômodo ao me deparar com figuras e narrativas sobre o período colonial nas aulas de história. Contudo, o que mais me inquietou, enquanto educador, ao ler o relato da psicóloga foi: qual o papel do professor nessa história? Afinal, ser professor é transmitir conhecimentos que ajudam a perpetuar estigmas? Ou, é possível construir uma educação que ajude a superá-los?
Quando iniciei na carreira docente, eu já trazia todas essas inquietações na minha mente. Por isso, um dos meus objetivos era impactar a vida dos estudantes de forma libertadora. Eu não queria simplesmente que eles aprendessem o conteúdo, mas era importante para mim ser uma pessoa que os ajudasse a desenvolver competências, estimulando-os a superarem estigmas e a encararem a realidade de maneira crítica. Depois de alguns meses me esforçando para ensinar as habilidades previstas no currículo municipal, percebi que eu simplesmente não sabia se estava gerando o impacto que gostaria. Na verdade, eu não conseguia mensurar se estava gerando qualquer impacto. Foi então que decidi consultar os únicos que podiam me dar essa resposta: os estudantes. Muitos aproveitaram minha curiosidade sobre a opinião deles a respeito do impacto que minhas aulas estavam causando para fazer elogios animadores, mas pouco específicos, como “ótimo professor” ou “sua aula é muito boa”. Outros fizeram críticas genéricas como “eu não gosto de estudar”. Mas alguns comentários me chamaram atenção, como o de uma aluna que escreveu para mim que o que mais gostava era que além de ensinar eu era um professor “muito gentil”. Outros me disseram que conseguiam aprender com facilidade quando eu explicava, aumentando seu interesse pela disciplina. Essas falas me mostraram que, de certa forma, eu estava sendo um exemplo positivo e causando mais bem do que mal. Ouvir os alunos me deixou feliz e, depois de um tempo, fui percebendo que eles realmente gostavam das minhas aulas e que esse apreço os ajudava a aprender.
Entretanto, eu esperava mais de mim, e queria ensinar algo além do conteúdo programático. Afinal, acredito que ser professor é, também, colocar-se como agente de transformação. Mas eu não era um professor de história ensinando sobre a escravidão, nem dava aulas de filosofia ou qualquer coisa desse tipo. Eu era um professor de Língua Inglesa que se esforçava para despertar nos estudantes o interesse por um idioma estrangeiro que eles achavam “muito difícil”.
Foi nesse momento que decidi me reinventar: passei a conversar com os professores das outras disciplinas para pensar estratégias de interdisciplinaridade; pesquisei temas importantes que poderiam ser discutidos em qualquer idioma, como a preservação ambiental e o combate ao preconceito; e trouxe para a sala de aula falas e biografias como as de Malala, Nelson Mandela, Beyoncé, Martin Luther King e Emicida, todos capazes de se comunicar em Língua Inglesa e de servir de inspirações importantes para a juventude. A partir daí, fui percebendo a curiosidade deles por saber sempre mais. Perguntas provocadoras como “Chamar alguém de ‘preto’ é preconceito?”, “Por que eles falam inglês na África?” e até “Professor, você também gosta de brega funk?” foram surgindo à medida que eu deixava espaço para que os estudantes fizessem mais do que repetir as formas do verbo “to be”. Paulo Freire, já nos anos 1980, lembrava da importância de criar esses espaços para que a inquietação dos estudantes desafie os educadores:
“Mas não há como esquecer que também sempre nos defrontamos com essa certeza ideologizada segundo a qual o estudante existe para aprender e o professor para ensinar. Essa ‘sombra’ é tão forte, tão pesada, que o professor dificilmente percebe que, ao ensinar, ele aprende também, primeiro, porque ensina, quer dizer, é o próprio processo de ensinar que ensina a ensinar. Segundo, ele aprende com aquele a quem ensina, não apenas porque se prepara para ensinar, mas também porque revê o seu saber na busca do saber que o estudante faz. Tenho insistido em trabalhos antigos como em recentes, em quanto a inquietação dos estudantes, a sua dúvida, a sua curiosidade, a sua relativa ignorância devem ser tomadas pelo professor como desafios a ele. No fundo, a reflexão sobre tudo isso é iluminadora e enriquecedora do professor como dos alunos” (FREIRE, 2021, p. 64).
A partir dessa experiência e das reflexões que fui fazendo em seguida, fui percebendo que o cotidiano da sala de aula pode ser bastante estimulante, se nos permitimos ouvir o que os estudantes têm a dizer. E concluí que, no fim das contas, ser professor é isso: deixar-se transformar, ao mesmo tempo que provoca transformações. Concorda? Conta pra gente sua opinião!
Referências:
BENTO, Cida. O pacto da branquitude. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
FREIRE, Paulo; FRAUDES, Antonio. Por uma pedagogia da pergunta. 11ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.
