Como aliar o ChatGPT ao processo de ensino e aprendizagem?

ChatGPT: é necessária uma intervenção intencional

Como criar uma atividade avaliativa, um trabalho ou um projeto que os alunos não irão encontrar respostas no ChatGPT? Como estimular os estudantes a resolver um problema complexo de Física, se o ChatGPT pode resolvê-lo em menos de um minuto? Como saber se a redação feita pelo aluno não é uma cópia do ChatGPT? Essas são apenas algumas das perguntas que passaram a fazer parte do dia a dia dos professores desde que o ChatGPT se tornou uma realidade. A dúvida e o medo sobre como ele irá impactar a educação ainda é uma constante. 

Para esclarecer, o ChatGPT é uma  inteligência artificial capaz de responder a diversos tipos de perguntas, desde resolver uma questão de matemática até elaborar uma peça judicial ou um plano de aula. Ou seja, ele fornece uma resposta estruturada e personalizada de acordo com a pergunta.

Dessa forma, vem causando discussões acaloradas sobre seu uso na educação, assim como outras novidades tecnológicas já geraram em momentos anteriores. Para ilustrar, quando surgiu a internet e a possibilidade de encontrar inúmeras informações sobre um tema através de alguns cliques, a educação também se viu ameaçada, mas hoje vemos como ela pode contribuir para o processo de ensino e aprendizagem, apesar de ainda não ser um recurso acessível para todos.  

Em texto anterior aqui no blog (Escola 3.0: as tecnologias digitais são apenas a ponta do iceberg), inclusive, já tratamos da importância de inserir as tecnologias digitais como recursos para criação e implementação de metodologias ativas e inovadoras. Nesse artigo também falamos sobre como elas podem potencializar o processo de ensino aprendizagem a partir da troca entre estudantes e professores, se usadas de forma adequada e intencional. Afinal, a tecnologia e a inteligência artificial já fazem parte da nossa vida.

Nesse sentido, entre vantagens e desvantagens apontadas em relação ao ChatGPT, nosso foco é buscar extrair o potencial dele para a formação dos estudantes. Dadas as circunstâncias atuais, as inovações tecnológicas parecem inevitáveis. Cada vez mais temos acesso a informações e de forma direcionada e estruturada, como é o caso do ChatGPT. Assim, a educação não pode ignorá-las ou negá-las, mas deve se adaptar para inclui-las no ambiente escolar, de modo a proporcionar um ensino significativo capaz de formar alunos preparados para usá-las de maneira segura e saudável, tendo em vista o exercício de um pensamento crítico e criativo. 

As crianças e adolescentes podem ter acesso ao ChatGPT e a outros recursos tecnológicos educacionais, porém não quer dizer que devem fazer isso desordenadamente e sem supervisão. A escola e as famílias precisam se unir nesse processo de formação digital para orientá-los a usar a tecnologia de forma benéfica para seu aprendizado e desenvolvimento. 

Mas, afinal, como aliar o ChatGPT ao processo de ensino e aprendizagem? Essa é a pergunta de ouro no momento e não possui uma única resposta, mas algumas estratégias podem ser úteis para usá-lo na sala de aula, uma vez que ele já está nela. 

1) Discuta com seus alunos sobre o ChatGPT: o que eles pensam sobre a inteligência artificial?

A maioria de seus alunos já conhecem o ChatGPT e já devem, inclusive, ter usado a plataforma para fazer alguma pergunta ou até para ajudar em alguma tarefa. Sendo assim, inclua-os nessa discussão. Primeiro, pergunte se eles conhecem o ChatGPT. Se eles conhecem, o que eles acham do ChatGPT? Como eles acham que ele deve ser utilizado? Qual impacto eles acham que o ChatGPT vai trazer para a educação? Eles, talvez, já discutiram entre si sobre o assunto ainda que de forma superficial, então crie o espaço para eles aprofundarem a análise sobre a inteligência artificial. No caso de seus alunos não conhecerem, não há problema, apresente a plataforma e problematize junto com eles as vantagens e desvantagens dela. Tal atitude é até uma forma de eles aprenderem a utilizá-la de forma adequada desde o início.

Essa é uma oportunidade para você, professor, levantar pontos importantes, como, por exemplo, responsabilidade digital, integridade, gerenciamento de tempo e foco (HEDREICH, 2023).

Os estudantes fazem parte do processo de ensino e aprendizagem, estando no centro dele, assim, suas vozes precisam ser ouvidas e compreendidas até para que os professores em conjunto com a coordenação pedagógica possam pensar em estratégias para usar a inteligência artificial como aliada do aprendizado. 

2) Use o ChatGPT como recurso para o ensino

Estimule seus estudantes a fazerem uso do ChatGPT a partir de atividades dirigidas. Tal processo contribuirá para a alfabetização midiática e para examinar fontes, habilidades essenciais em um mundo cada vez mais digital. Algumas ideias para fazer isso são:

  • Usar o ChatGPT como Google: peça a seus estudantes para pesquisarem conceitos no ChatGPT, que serão necessários para aprender o novo conteúdo, e, na aula seguinte, discuta sobre as respostas encontradas por eles. Uma forma de fazer isso, é dividir os estudantes em grupo e pedir para eles analisarem e debaterem sobre as respostas trazidas por cada um para depois levar a discussão para a sala como um todo, para assim, sistematizar os pontos elencados por eles, de modo a construir conjuntamente os fundamentos do conteúdo.
  • Use o ChatGPT como uma atividade resolvida: após explicar um conteúdo novo para verificar aprendizagem dos estudantes, coloque no ChatGPT perguntas sobre os principais conceitos ensinados e peça para seus estudantes corrigirem a resposta dada pela plataforma. Se está correta, por que está correta? Se está errada, por que está errada? A verificação pode ser feita de forma escrita ou oral. No mais, essa atividade pode contribuir para os alunos perceberem que a inteligência artificial, em alguns momentos, pode apresentar inconsistências.

3) Use o ChatGPT como método avaliativo: perguntas também demonstram conhecimento

Quando falamos das dimensões cognitivas, logo surge a figura da Taxonomia de Bloom, que estabelece uma hierarquia entre os objetivos de ensino e aprendizagem. Isso significa que o aluno deve ser orientado a desenvolver gradativamente desde habilidades mais simples, como identificar e reproduzir, até habilidades mais complexas, como analisar, comparar e compor. 

Partindo dessa perspectiva, você, professor, pode criar um novo tipo de avaliação para averiguar se seus estudantes conseguiram desenvolver habilidades, como criar e formular, através do ChatGPT. Uma forma de fazer isso é pedir para eles criarem perguntas sobre o conteúdo aprendido. Para construir questionamentos sobre o tema, é necessário grande domínio sobre o que foi estudado. 

Como apontado pela professora e especialista em tecnologias aplicadas à educação, Estela Endlich (Nexo Jornal, 2023), se o ChatGPT é capaz de nos trazer tantas respostas, vamos incentivar nossos estudantes a produzir perguntas inteligentes. Esse tipo de atividade, vale ressaltar, colabora para o desenvolvimento do pensamento científico, crítico e criativo, instigando a curiosidade e o espírito investigativo deles. 

Não existe fórmula mágica para inserir as tecnologias digitais na escola, até porque em nosso país as realidades educacionais são diversas, por isso trouxemos aqui algumas sugestões de como usar o ChatGPT durante as aulas para poder inspirar, inclusive, novas ideias. O fato é que o ChatGPT está entre nós e a inteligência artificial tende a se aperfeiçoar cada vez mais. Assim, cabe a nós enquanto educadores nos adaptar a essas mudanças, de modo a incluí-las de forma intencional no processo de ensino e aprendizagem e preparar nossos alunos para o mundo. 

E aí, professor, pronto embarcar nesse universo tecnológico e levar seus estudantes junto com você? Ao longo dos anos a Curiós tem ajudado centenas de educadores nessa jornada, e podemos ajudar você. Entre em contato!

Referências:

BRAVOS, Michele. ChatGPT: os riscos e as oportunidades do uso com crianças. Nexo Jornal, 2023. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/externo/2023/03/03/ChatGPT-os-riscos-e-as-oportunidades-do-uso-com-crian%C3%A7as>. Acesso em: 24 abr. 2023.

NICHOLS, Hedreich. Making New Tech Tools Work for Your Classroom. Edutopia, 2023. Disponível em: <https://www.edutopia.org/article/make-digital-classroom-tools-work-for-you>. Acesso em: 24 abr. 2023.

RICHMAN, Geoff. Some Ideas for Using ChatGPT in Middle and High School Classes. Edutopia, 2023. Disponível em: <https://www.edutopia.org/article/chatgpt-student-writing-middle-high-school>. Acesso em: 24 abr. 2023

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!