Como apresentar o feminismo pra meninos?

Reunimos algumas referências que podem ser usadas para apresentar o feminismo pra meninos e expandir o debate com as meninas

Em 2013, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie fez uma palestra em que convidava homens e mulheres a serem feministas. Na ocasião, ela apresentou sua visão de como a desigualdade de gênero na Nigéria – e na África em geral – era um problema e defendeu que todos se unissem para “planejar um mundo diferente, mais justo, um mundo de homens e mulheres mais felizes, que sejam verdadeiros consigo mesmos”. Como o contexto nigeriano não era assim tão diferente do brasileiro, a palestra rapidamente ficou conhecida no Brasil e, desde então, a escritora tem feito várias contribuições sobre formas de apresentar o feminismo pra meninos e meninas. Em 2017, por exemplo, ela lançou a versão em português de seu manifesto com quinze sugestões de como criar filhos dentro de uma perspectiva feminista.

Um ano depois da palestra de Chimamanda ter viralizado, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou o movimento ElesPorElas com o objetivo de envolver toda a sociedade, inclusive os homens e meninos, na promoção da igualdade de gênero. No discurso de lançamento da campanha, a atriz Emma Watson associou o seu sucesso ao fato de ter tido pessoas ao seu redor que, mesmo sem saber, funcionaram como “embaixadoras da igualdade de gênero” em sua vida. Nas suas palavras: “Minha escola não limitou minhas oportunidades porque eu sou menina”, e concluiu que “precisamos, justamente, de mais pessoas assim”. Entretanto, ela compartilha conosco uma questão importante: “Como podemos mudar esta situação [de desigualdade entre homens e mulheres] se somente metade das pessoas do mundo é convidada ou se sente à vontade para participar desta conversa?”, ou seja, como podemos ter um mundo justo se apenas as mulheres se engajam na luta por igualdade e direitos? Nesse sentido, é essencial que essa discussão seja amplificada para incluir, também, o debate sobre masculinidades. 

Já em 2015, foi lançado na Netflix o documentário “The Mask You Live In” [A Máscara Em Que Você Vive, em tradução livre], que explora a definição limitada de masculinidade nos Estados Unidos e os danos que ela causa a meninos e homens. O filme chama atenção por apresentar entrevistas com especialistas e acadêmicos de diversas áreas, na intenção de apoiar a criação de uma geração de homens mais saudáveis e que, de alguma forma, se sintam incluídos na conversa sobre desigualdade de gênero. Na mesma perspectiva, o Instituto Papo de Homem lançou, em 2019, o documentário O Silêncio dos Homens, que aborda as questões a respeito das masculinidades numa perspectiva totalmente brasileira.

E onde entram os profissionais da educação nessa história? 

Não é nenhuma novidade que, assim como em toda a sociedade, o machismo está presente nas escolas brasileiras. Em 2016, o canal Gestão Escolar ouviu relatos de professoras e professores sobre situações de machismo dentro da escola. Mesmo sem ouvir esses relatos, quem vive o dia a dia da sala de aula sabe que não é raro presenciar situações de desrespeito e desigualdade. Para enfrentar esse problema, é preciso unir toda a comunidade escolar na superação desse desafio.

Ao longo deste texto, por exemplo, trouxemos diversas referências importantes. Apresentamos palestras, livros, vídeos, campanhas e documentários. Todas essas produções, podem servir como recurso para iniciar o debate sobre a importância de meninos, tanto quanto meninas, promoverem uma convivência respeitosa e, tomarem parte na luta por igualdade de direitos e melhores condições de vida para todas e todos. Ajudar os meninos a reconhecerem que têm um papel na luta por direitos femininos é função de todos os profissionais da educação, independente de gênero. 

Além disso, todo o material aqui referenciado reforça a importância de ouvir meninos e meninas em relação ao modo como se percebem e, muitos deles, colocam a escola como o lugar ideal para promover uma educação para a igualdade. No documentário O Silêncio dos Homens, por exemplo, é mostrada uma escola em São Paulo que promove rodas de conversa para meninas falarem sobre sua condição e pensarem coletivamente formas de superar os desafios femininos. O filme conta que, com o tempo, atendendo a um pedido das próprias alunas, foram iniciadas rodas de conversa exclusivas para os meninos. Nessas oficinas, os garotos podem conversar sobre o que significa ser homem e, em consequência, como podem ser homens melhores e mais justos.

Como mostramos aqui, convites estão sendo feitos aos homens e meninos para que se engajem na construção de um mundo mais igualitário há pelo menos 10 anos. Ainda assim, nossas escolas continuam sendo espaços de reprodução de desigualdades. Deixamos aqui uma pergunta para reflexão – que é também um convite – para todos os professores: o que você tem feito para apresentar o feminismo pra meninos e meninas? Se a sua resposta for “nada”, o que acha de começar exibindo a palestra de Chimamanda para a sua turma na próxima semana? Afinal, como profissionais da educação, sabemos que educar é o nosso dever e, igualmente, o nosso maior desafio. Justamente por isso, é preciso dar pequenos passos em direção a um mundo mais justo e igualitário. Se quiser continuar essa conversa, a Curiós está de portas abertas! Mande uma mensagem pra gente 🙂

Referências:

TED Talks, por Chimamanda Ngozi Adichie. “We should all be feminists”. Abril de 2013. Disponível em: <https://www.ted.com/talks/chimamanda_ngozi_adichie_we_should_all_be_feminists/transcript>. (29 min.).

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas: um manifesto; tradução Denise Bottmann. — 1a ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2017. (96 p.).

Organização das Nações Unidas, por Emma Watson. Discurso de abertura da campanha ElesPorElas. Setembro de 2014. Disponível em: <https://youtu.be/gkjW9PZBRfk>. (13 min.).

THE MASK YOU LIVE IN; Direção: Jennifer Siebel Newsom. Produção: The Representation Project. Estados Unidos: Netflix, 2015. (97 min.).

O SILÊNCIO DOS HOMENS. Direção: Ian Leite e Luiza de Castro. Produção: PapodeHomem. Youtube. 29 de agosto de 2019. Disponível em: <https://youtu.be/NRom49UVXCE>. (60 min.).

MACHISMO NA ESCOLA. Gestão Escolar. Youtube. 30 de março de 2016. Disponível em: <https://youtu.be/OwIKSsOQtQ8>. (3 min.).

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!