Qual é a importância do Dia Internacional da Alfabetização?

A alfabetização como responsabilidade compartilhada

Por Juliana Ferro

O Dia Internacional da Alfabetização foi instituído pela ONU em 1967, tendo como objetivo lembrar anualmente da importância da alfabetização para o desenvolvimento econômico e social das nações. Considerando que a alfabetização é uma etapa de suma importância para todas as outras fases do desenvolvimento cognitivo do indivíduo, é importante também pensar nesse processo de imensa responsabilidade como um processo compartilhado.

Muito falamos sobre como essa é uma etapa marcante na vida dos estudantes, que para muitos pode significar um processo traumático dependendo de como ele é conduzido. Além disso, é muito comum discutirmos sobre as técnicas, os métodos e até qual seria a idade correta de se introduzir as letras, por exemplo.

Entendo que o Dia Internacional da Alfabetização é também um dia de olhar para o trabalho dos professores. Desse modo, quero dedicar esse texto aos professores alfabetizadores, aqueles que carregam consigo o ônus e o bônus de alfabetizar. Trabalho esse que torna possível o trabalho dos professores de disciplinas específicas e todo o desenvolvimento posterior. Considerando que vivemos em uma sociedade letrada, boa parte do conhecimento que movimenta nossa sociedade é formalizada por registro escrito, e a leitura se torna um pré- requisito para boa parte das funções de trabalho atual.

Pensando nisso, em 2019 o Ministério da Educação lançou a PNA (Política Nacional de Alfabetização), entendendo que o tema da alfabetização é: “fundamental para a vida escolar e para o pleno exercício da cidadania”. Dados de 2016 mostram que 54,73% dos estudantes concluintes do 3º ano tem o nível insuficiente de leitura e 33,95% nível insuficiente em escrita. No documento apresentado, a alfabetização é entendida como ler e escrever com autonomia.

O documento traz também pontos de sucesso encontrados para que esse processo seja exitoso: 

Uma consulta aos diversos relatórios e documentos de políticas públicas voltadas à alfabetização, como o National Reading Panel e o Educação de Qualidade Começando pelo Começo, do Comitê Cearense para a Eliminação do Analfabetismo Escolar, revela cinco componentes essenciais para a alfabetização, a saber: a consciência fonêmica, a instrução fônica sistemática, a fluência em leitura oral, o desenvolvimento de vocabulário e a compreensão de textos. Pesquisas mais recentes, no entanto, recomendam a inserção de outro componente, a produção de escrita, e assim se obtêm os seis componentes propostos pela PNA, nos quais se devem apoiar os bons currículos e as boas práticas de alfabetização baseada em evidências. (BRASIL, 2019) (grifos da autora)

E o que isso tem de relação com a dedicação desse texto para os professores alfabetizadores?

Para além dos dados que chamam atenção, como os dados mais atuais em que 56,4% dos concluintes do 2º ano não foram considerados alfabetizados (INEP, 2021), queremos chamar atenção para o lugar de destaque que os professores alfabetizadores deveriam ter. O reconhecimento advindo de políticas de repasses orçamentários e de apoio a práticas pedagógicas ganha uma ponta de esperança com o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, lançado pelo Governo Federal em meados de 2023. 

O Compromisso prevê assistência técnica, formação e materiais didáticos, no entanto, gostaria de abrir aqui um espaço de atenção para a gestores e secretários municipais: existem ações que podem fazer toda a diferença no dia a dia dos professores alfabetizadores que independem de iniciativas federais. Por exemplo: abertura de momentos de troca de experiência entre pares, incentivo a criação de projetos conjuntos em que os materiais produzidos circulam entre salas, apoio pedagógico em sala de aula, pequenos ajustes e assistências prestadas ao professor para que ele se sinta apoiado e parte de uma rede, entre outros. Iniciativas como essas podem trazer resultados poderosos!

O trabalho docente acaba sendo solitário, e no processo de alfabetização em que as particularidades dos estudantes são postas em evidência, o trabalho conjunto de toda a escola e secretaria pode amenizar essa responsabilidade que, por vezes, acaba se concentrando no professor alfabetizador. 

Que o dia internacional da alfabetização nos lembre que a alfabetização é um trabalho conjunto e que o professor não é o único responsável pelo êxito dos estudantes nesse quesito.

E, aos professores, nosso muito obrigada (!), a vocês que são os canais de facilitação do processo de decodificar e codificar, que lidam com os diversos tempos e referências, que expandem as visões de mundo, que ajudam a dar nome às coisas, que são fundamentais no processo de autoconhecimento e de conhecimento do mundo. Gratidão! Esperamos que não se sintam sozinhos nessa jornada e nós da Curiós estamos aqui dispostos a ajudar.

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Referências bibliográfica:

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Alfabetização. PNA Política Nacional de Alfabetização/Secretaria de Alfabetização. – Brasília : MEC, SEALF, 2019.

BRASIL. Ministério da Educação. Compromisso Nacional Criança Alfabetizada. 2023.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!