Cultura escolar: a forma de ser e fazer das instituições

Como o entendimento da cultura escolar contribui com o sucesso dos estudantes – por Juliana Ferro

O objetivo desse texto é trazer reflexões acerca da importância do mapeamento de cultura escolar e do quanto esse aspecto pode ter interferências no alcance dos objetivos da escola. Apesar de ter sua presença confirmada na escola, a cultura passa pela rotina sem ser notada e talvez, recebendo a devida atenção possa ser ser uma peça de grande valor para entender o funcionamento da escola.

Para começar essa conversa sobre cultura escolar precisamos primeiro definir o que é cultura. Esse é um termo amplo que segue diferentes linhas de entendimento a depender da área de estudo. A que vamos utilizar como ponto de partida é a definição de Da Matta (1981) em que cultura é “um mapa, um receituário, um código através do qual as pessoas de um dado grupo pensam, classificam, estudam e modificam o mundo e a si mesmas”.

Desse modo, a cultura está ligada a um contexto que produz e é produzido em/por seus participantes. Ou seja, há a predominância de certos comportamentos, de formas de lidar com determinadas situações. Há também as regras implícitas e explícitas que fazem parte de uma história compartilhada entre os envolvidos, sendo esses são alguns exemplos de manifestações da cultura.

Mas qual seria a importância de fazer um mapeamento da cultura escolar?

Quando estamos falando de alcance de metas, é impossível não pensar em planejamento. O planejamento é parte fundamental para o sucesso de qualquer iniciativa, e ele requer também entender quais são os interesses dos envolvidos, bem como suas forças e desafios. Partindo desse princípio, ter um olhar sensível à cultura da organização faz parte do processo de perceber o real funcionamento da instituição.

Em se tratando da escola, Hoy e Miskel (2015) trazem a necessidade de uma instituição conhecer sua cultura, já que ela traz consigo diversas particularidades, como: 

  • Definição de fronteiras, criando diferenciação entre as instituições;
  • Fortalecimento do senso de identidade da instituição, facilitando o comprometimento do grupo;
  • Contribuição para o aumento da estabilidade social;
  • Construção da coesão, favorecendo normas e comportamentos adequados.

Você já deve ter ouvido frases como: “Aqui fazemos assim”, “Nessa escola trabalhamos dessa maneira”. Essas afirmações, muitas vezes cheias de orgulho, são manifestações de um sentimento de pertencimento e de processo estabelecido, que é uma das muitas facetas da cultura. 

O comportamento no pátio diz muito sobre uma cultura, que tem regras implícitas, mas que todos de alguma forma seguem. Por exemplo, já acompanhei uma escola em que todos os estudantes sabiam que a gestora não gostavam que eles ficassem parados na porta da secretaria. Observei inúmeras vezes os próprios estudantes se regulando para não ficarem em frente a porta. Não havia nenhum estatuto sobre essa conduta, nem mesmo avisos nas paredes, mas por possivelmente terem presenciados inúmeros discursos sobre aquela ação, esse comportamento de alguma forma foi internalizado.

“A cultura é um conjunto de regras que nos diz como o mundo pode e deve ser classificado” e “o conceito de cultura, ou, a cultura como conceito, então, permite uma perspectiva mais consciente de nós mesmos”, ambas frases de Da Matta (1981), trazem uma perspectiva da cultura como fundamental para o conhecimento do outro e também de si mesmo. A cultura escolar está ligada não só a um conjunto de processos, ou à mercê de seu mero entendimento para tentativas de “consertar” comportamentos, ela está ligada ao próprio conhecimento da comunidade e de seus membros.

Há alguns instrumentos desenvolvidos para captar traços de cultura, que podem ser utilizados de forma fácil pela escola, como, por exemplo, a aplicação de um formulário com perguntas sobre as percepções da comunidade escolar sobre determinados assuntos. Para tornar mais eficiente o manuseio das informações, é possível utilizar a estratégia de afirmativa, com os marcadores usando Likert. Likert é uma escala psicométrica utilizada em pesquisa de opinião, ela possibilita entender a percepção do respondente em escalas de concordância com as afirmativas, facilitando a transformação das respostas em dados.

Por exemplo: “Me sinto ouvido pelos professores”, “A gestão desta escola é muito presente na sala de aula”, ou “A biblioteca da escola é utilizada pelos professores”, entre outras mais que podem trazer pontos de atenção sobre o que está estabelecido na escola e quais são os pontos de atenção.

A forma de ser e fazer da instituição diz muito sobre seus participantes, sobre suas histórias e sobre o que vai sendo negociado e construído nessas relações que vão acontecendo dentro da comunidade escolar. O que torna a cultura um fator de sucesso de qualquer planejamento, pois é preciso conhecer a comunidade e entender seus interesses para propor ações alinhadas aos interesses dos envolvidos.

Já tinha pensado na cultura dessa perspectiva? Temos outro texto sobre cultura colaborativa que pode pode gostar, e não deixe de contar pra gente as suas impressões sobre esse assunto!

Referências:

Damatta, Roberto. 1981. Você tem cultura?. Jornal da Embratel, Rio de Janeiro.

Hoy, Wayne K.; Miskel, Cecil G. 2015. Administração Educacional: teoria, pesquisa e prática. 9 ed. Editora McGraw-Hill. 

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!