Dia dos povos indígenas

Como fomentar reflexões e atividades evitando estereótipos no dia dos povos indígenas? – Por Marina Queiroz

Vamos ao campo lúdico da lembrança: você se recorda do dia 19 de abril, quando estava na educação infantil, no Ensino Fundamental ou no Ensino Médio? Você realizou alguma atividade marcante na sua escola? 

Eu me recordo de quando eu estava aprendendo a ler e houve uma celebração na minha escola porque era o dia do índio. A professora regente e a professora de artes pintaram desenhos tribais no meu rosto, colocaram um cocar de papel na minha cabeça e eu e os meus coleguinhas cantamos 1,2,3 indiozinhos. Com vocês foi diferente?  

No Ensino Médio, aos 16, eu me lembro de um professor de história que passou um documentário acerca dos povos indígenas e explicou alguns dados sobre a discussão. 

De lá para cá muitas coisas mudaram. Uma dessas mudanças foi o nome: Dia do Índio se tornou Dia dos Povos Indígenas, segundo a Lei nº 14.402, de 8 de julho de 2022. Essa mudança ocorreu justamente para ressaltar a diversidade de povos indígenas que existe. Não existe apenas um tipo de etnia, existem atualmente 266 etnias indígenas no Brasil, por isso, povos indígenas é um termo mais coerente para ser utilizado. 

Outra alteração importante foi a Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008, que tornou obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena na etapa do ensino fundamental e médio. Certamente hoje, pintar os rostos, colocar cocares e visualizar indígenas apenas nas florestas não é o mais adequado. Isso ressalta estereótipos. 

Existem povos indígenas que utilizam pinturas, cocares, colares e moram nas aldeias, enquanto outros moram na cidade, estão dentro de universidades, empresas, governo. A cultura indígena é vasta, rica e diversa, ressaltar seus saberes e conhecimento é produzir uma cultura de respeito com essa diversidade que compõe o Brasil.

Como você pode trabalhar nas escolas e salas de aula essa cultura? Aqui, listei em tópicos temas que possam ser úteis para serem trabalhados no próximo Dia dos Povos Indígenas: 

– Artes: grafismo indígena, pinturas, cerâmicas, música, artesanato;

– Português: literatura, contação de histórias, lendas e mitos, palavras originadas das línguas indígenas (urubu, abacaxi, açaí, capim, paçoca, saci, pipoca…)

– Educação física: danças indígenas, arco e flecha, cabo de guerra, canoagem;

– Geografia: estudo sobre territórios indígenas, conceituações próprias indígenas sobre terra, espaço, lugar, trabalho;

– História: a história dos povos indígenas antes da colonização no Brasil e em toda a América e após a colonização: como viviam/vivem, quem eram/são, como era/é a filosofia de existência, como eram/são as relações sociais e de produção, como se organizavam/organizam o trabalho; marcos temporais;

– Ensino Religioso: cosmologia indígena, compreensão do que é religião segundo as diferentes etnias; 

– Ciências: relação com a fauna e a flora; com o corpo; plantas medicinais, alimentos;

– Matemática: etnomatemática, arquitetura e grafismo indígena, relação com o dinheiro e educação financeira, diferentes formas de contagem; 

– Química: química orgânica, medição de elementos para fazer misturas e remédios;

– Física: energia, tempo e velocidade utilizando os esportes indígenas e a arquitetura como exemplos práticos.  

Você pode utilizar os temas trazidos acima e adaptá-los para cada um dos públicos trabalhados, o importante é utilizar a criatividade e ressaltar a diversidade e a profundidade dos saberes e conhecimentos indígenas para fazer com que esse Dia dos Povos Indígenas e em muitos outros possam ser cheios de aprendizados e respeito. 


Referências: 

Presidência da República. Lei nº 11.645. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11645.htm

Câmara dos Deputados – Palácio do Congresso Nacional. Lei nº 14.402. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2022/lei-14402-8-julho-2022-792970-norma-pl.html

MELIÀ, Bartomeu. Educação indígena na escola. Cadernos Cedes, v. 19, p. 11-17, 1999.

ANESIO, Isabela Lira et al. A Cultura Indígena no Ensino de Química: Uma Proposta de Sequência Didática. Revista Debates em Ensino de Química, v. 8, n. 3, p. 283-298, 2022.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!