Diversidade no Ensino Médio: Desafios e propostas para a convivência escolar

Promovendo o diálogo e a apropriação da comunidade escolar sobre diversidade no Ensino Médio – por Juliana Ferro

Acredito que se tivéssemos um trending topic da educação esse seria um dos assuntos que estariam por lá: a diversidade. Mas afinal, o que é diversidade?

Segundo o dicionário Michaelis Online, diversidade tem como um de seus significados “qualidade daquilo que é diverso, diferença, dessemelhança, variação, variedade”, ou seja, quando falamos em diversidade estamos falando de pluralidade de formas de ser no mundo. Destaque para dessemelhança. Que palavra bonita! Ela traz a ideia de diferente, mas não como para discriminar nossas diferenças e sim, acrescentar o que nos difere.

Para além das questões de gênero e sexualidade, há também a diversidade religiosa e a cultural. Esses pontos que nos diferenciam e também nos aproximam então presentes na sociedade e consequentemente na escola. Pensando no ensino médio, é importante considerar a faixa etária desse público.

Os estudantes do ensino médio têm características muito marcantes relacionadas a sua identidade. Nessa fase, a necessidade de se afirmar e se inserir nos grupos de identificação são desafios que chegam à escola e, dependendo do grau de intolerância daquela comunidade, pode gerar grandes problemas.

O diálogo sobre diversidade no Ensino Médio não é algo opcional, não é possível ignorar, pois ao fazer isso podem ocorrer danos no aprendizado acadêmico e social, considerando que o clima escolar pode ser afetado por situações de conflito e até casos graves de agressão e assédio. Pensando nisso, separei alguns pontos de atenção e propostas de ações que possibilitem diálogo e apropriação da comunidade escolar sobre o tema:

  1. Diálogo entre a equipe escolar

Antes de pensarmos em como orientar os estudantes, é preciso pensar que a equipe escolar precisa estar munida de conhecimento e alinhada com a forma de condução mais saudável para o bem estar dos estudantes.

Desse modo, ter momentos de diálogo programados, promoção de cursos, palestras e acolhimento da equipe é fundamental para que o trabalho chegue de forma eficiente aos estudantes. É importante considerar também que muitas equipes enfrentam conflitos geracionais e que a forma de pensar e ver o mundo podem ser díspares, e, nesses casos, as intervenções de conscientização se tornam ainda mais necessárias, bem como a promoção de espaços de escuta e acolhimento.

  1. Entender o contexto em que a escola está inserida

Não é possível promover ações eficientes sem entender o contexto escolar, e isso vale quando o assunto é diversidade também. É necessário entender pontos da cultura que acompanham aquela comunidade e principalmente suas influências. Por exemplo, se a escola está associada a uma comunidade muito religiosa, é possível que a moral daquela comunidade esteja baseada em características religiosas, e o diálogo precise ser construído na linha do convívio social, entendendo quais são as regras que medem a todos com o mínimo de intervenção moral. 

Nesse sentido, entender as influências que estão presentes na comunidade, a promoção de discussões baseadas nessas influências e no que rege o convívio em sociedade pode trazer bons frutos.

  1. Construção coletiva

No ensino médio os jovens já se sentem um pouco mais à vontade para ocuparem espaços, quererem vez e voz, e aproveitar essa energia para estabelecer espaços de construção coletiva pode ser uma virada de chave na convivência entre os jovens. Por exemplo, promover projetos de apresentação de temas relacionados a gênero, sexualidade, religião, cultura, etnias, entre outros, podendo fazer uso de ferramentas digitais, como gravar videos, desenvolver uma rede social e divulgar as produções nessa rede, a criação de roteiros de podcast utilizando essas temáticas, feiras, apresentação de dança… O meu recurso favorito são as paredes da escola, pinturas, cartazes, reflexões feitas pelos estudantes, através dos projetos e aulas, expostos e com as identidades demarcadas.

Por último, eu diria que envolver os responsáveis nessas ações de conversa e acolhimento seriam de grande proveito. Acredito que a aproximação com os responsáveis pode trazer à tona inúmeros outros temas que, por vezes, estão atravessando a escola e não nos damos conta, como a violência doméstica, por exemplo.

A conversa sobre diversidade no Ensino Médio é urgente e pode ser feita de forma transversal e também por projetos extraclasse, pois precisamos diminuir o número de casos de intolerância e violência que ganham espaço nos noticiários.

Como uma dica extra, compartilho que em 2018 o Ministério dos Direitos Humanos lançou um Manual orientador sobre diversidade, em que traz diversas informações sobre pontos que nos diferenciam uns dos outros, seja por identidade de gênero ou sexualidade, formas de tratar, leis e também apresentando campanhas de conscientização. Esse material pode ser muito interessante como norteador para elaboração  de projetos de intervenção.

Eu acredito que pequenos passos mudam tudo, e você?

Você pode ler mais sobre o tema nesse artigo sobre diversidade etnocultural na educação infantil.

Referências:

DIVERSIDADE In.: Michaelis, 2024. Disponível em https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/diversidade/

MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS. Manual orientador sobre diversidade, 2018. Disponível em https://sites.usp.br/diversaeca/wp-content/uploads/sites/452/2019/04/copy_of_ManualLGBTDIGITAL.pdf 

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!