Alfabetização além das letras: Explorando possibilidades educativas

Como contexto, observação e rotina facilitam o processo de aprender a ler e escrever – por Juliana Ferro

Depois que comecei a estudar educação e entender mais sobre a alfabetização, liberdade foi uma palavra que veio automaticamente associada. Para além das oportunidades de trabalho e/ou a ideia de “ser alguém”, me refiro aqui à liberdade de ser e estar no mundo, explorando as possibilidades de escolha de dentro para fora.

Como apresentado por Freire, “A leitura do mundo precede a leitura da palavra” (2003) o que me faz pensar sobre a necessidade de observar, de produzir opiniões, de conversar, antes mesmo de chegar ao processo de codificar e decodificar, ou seja, antes mesmo de aprender as palavras é necessário um contexto.

A liberdade aqui mencionada se refere a conseguir compreender a si mesmo, o outro e as suas possibilidades de escolha, a leitura de mundo é um processo que facilita a leitura da palavra e torna esse conhecimento significativo, pois dá sentido ao processo de codificar e decodificar tão valorizado na sociedade em que vivemos. Pensando nisso, os momentos de contação de história, observação do espaço escolar e atividades que oportunizem o protagonismo e o exercício da formulação de ideias pelas crianças é tão fundamental, antes e durante a inserção das letras/palavras/textos escritos. Essa observação vai além do método ou linha adaptada para a iniciar o processo de alfabetização.

Para além do contexto, que pode ser aplicado em qualquer sala de aula, separei também três tópicos que podem ser testados para além dos recursos disponíveis na escola, ou até mesmo dos contextos mais adversos, salas cheias e estruturas precárias. Quando pensei nesse texto, não gostaria de trazer algo que esbarrasse na barreira do tempo ou do recurso, tentei reunir o que temos na literatura que trouxesse pequenas alterações e grandes possibilidades.

Essa pesquisa resultou nos seguintes tópicos:

  1. Escolher o momento adequado para iniciar atividades coletivas ou de máxima atenção

O horário da manhã pode ser extremamente desafiador para todos nós, isso inclui  as crianças em fase de alfabetização, o sono desregulado ou a condução dos hábitos matinais podem influenciar a forma com que eles reagem às propostas feitas em sala. É importante, portanto, considerar o momento do dia para propor determinadas atividades, entender bem sua complexidade e necessidade de concentração exigida.

Um aliado desse tópico é um umbral ou acolhida, um momento de recepção muito utilizado na educação infantil que vai se perdendo ao longo dos ciclos, esse momento prevê um momento de escuta, de proposta de ação ou até mesmo de relaxamento. Sempre iniciando a aula com uma proposta clara e objetiva, podendo ser um alongamento, um momento de ouvir uma música com os olhos fechados ou dançando, em momento de desenhar como foi o dia, o final de semana ou a última brincadeira feita fora da escola. A ideia é começar a aula estimulando os estudantes a estarem presentes na sala de aula e se conectarem com os colegas a medida em que desenvolvem a atividade proposta, que não necessariamente precisa ser em grupo inicialmente.

  1. Valorização da presença de cada estudante

Segundo Hooks (2013) a visualização da sala de aula como um espaço coletivo auxilia no engajamento. O trabalho coletivo pode ser visto como recurso, sendo utilizado como propulsor para o envolvimento de toda a turma, o detalhe para que essa dica funcione é conhecer o grupo de alunos. Se tratando da alfabetização é necessário relembrar que aquele grupo de crianças já possuem individualidade e essa individualidade precisa ser conhecida pelos professores e professoras que assistem aquele grupo. Essa informação vai ser primordial para a dinâmica de separação dos grupos e escolha das atividades, que não precisam ser exatamente iguais para todos os grupos. 

  1. Rotina de aula

Quando estou estudando técnicas para um bom aprendizado, a palavra rotina é uma das primeiras a sobressaltar meus olhos, isso porque a rotina pode ser uma grande aliada no processo de aprendizagem visto que ela organiza as ações que deverão ser executadas pelas crianças. Essa dica conversa com a anterior, pois prevê o planejamento das atividades do dia considerando as etapas de concentração e complexidade. Essas etapas do dia devem ser conversadas com as crianças para elas terem clareza do que vão fazer durante o turno/dia, uma rotina bem preenchida pode evitar situações de indisciplina por ociosidade e facilitar a execução ordenada das atividades.

Podem parecer tópicos simples de colocar em práticas, mas é bem verdade que o cotidiano por vezes vai nos tomando de assalto e qualquer mudança já nos causa desconforto e é possível que esse desconforto também alcance as crianças que vão precisar de um período de adaptação, até que ambos, turma e professores, estejam completamente familiarizados com essas pequenas alterações.

Agora, conta para a gente: você já aplicou ou aplica algum desses tópicos nas suas aulas/planejamentos? 

Escreve para gente, vamos adorar ler e compartilhar como você costuma fazer para ter sucesso no processo de alfabetização dos seus estudantes.

Referência bibliográfica:

FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler. 1° ed. São Paulo: Moderna, 2003.

HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo Martins Fontes, 2013.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!