Como Enfrentar a Violência Digital e Promover um Ambiente Escolar Saudável
Mas afinal, o que está por trás de uma mensagem cruel enviada por WhatsApp às 22h? Ou, então, de uma publicação zombando de um colega nas redes sociais, vista por toda a escola? Essa é a nova face do bullying: silenciosa, constante e muitas vezes invisível para pais e professores. Chamamos isso de cyberbullying, se trata, portanto, de uma violência digital que afeta milhares de estudantes brasileiros e que exige ação urgente da comunidade escolar.
A violência migrou para o digital
Com o uso crescente de celulares, redes sociais e aplicativos de mensagens por crianças e adolescentes, o ambiente digital tornou-se um novo campo de convivência — e, consequentemente, também de conflitos. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil (2023), 83% dos adolescentes entre 9 e 17 anos já acessam a internet todos os dias. Dessa forma, aumentam também os casos de exposição pública, perseguição online, humilhação e exclusão virtual.
“O cyberbullying é mais cruel do que o bullying tradicional, pois não tem hora nem lugar para acontecer. A vítima leva a agressão para casa, para o quarto, para o travesseiro”, explica a psicóloga e educadora Maria Tereza Maldonado, especialista em convivência escolar.
Quando a ficção se transforma em alerta
A minissérie britânica “Adolescência” (Adolescence, 2025), disponível na Netflix, por exemplo, se baseia livremente em casos reais para abordar o impacto do cyberbullying na vida de jovens.
Na trama, Jamie Miller, um garoto de 13 anos, é preso sob a acusação de assassinar uma colega de classe. Posteriormente na minissérie, o espectador descobre que o crime está profundamente ligado a um ciclo de humilhações, ameaças e exclusão digital — em grupos de mensagens, redes sociais e interações escolares.
“O que Adolescência nos mostra é que o ambiente virtual não está separado do real. Nesse sentido, as feridas psicológicas causadas por postagens, memes e mensagens são tão profundas quanto qualquer agressão física”, afirma Carlos Eduardo Gallo, mestre em psicologia escolar.
A série toca em pontos cruciais: o despreparo de escolas para lidar com conflitos digitais, a pressão da masculinidade tóxica entre adolescentes, e o abandono emocional que muitos jovens enfrentam em casa e na escola.
Consequências graves, mas evitáveis
O cyberbullying pode gerar ansiedade, depressão, isolamento social, evasão escolar e, em casos extremos, ideação suicida ou violência física. Dados comprovam que adolescentes estão sofrendo com esses sintomas. Em 2022, por exemplo, o canal de ajuda CVV (Centro de Valorização da Vida) recebeu mais de 3 milhões de ligações. Muitas delas, de adolescentes em sofrimento psicológico.
Por isso, a prevenção é essencial — e ela começa com diálogo, empatia e educação digital.
Como prevenir e enfrentar o cyberbullying na escola
Educadores, gestores escolares e famílias precisam agir juntos. Bullying e cyberbullying são crimes desde 2024, conforme a Lei 14.811. A lei incluiu o crime de bullying no Código Penal. É, portanto, responsabilidade da escola informar os estudantes sobre as implicações legais dessa prática. Abaixo, listamos orientações práticas baseadas em estudos e experiências de campo para apoiar escolas nessa atuação:
1. Educar para o uso ético da internet
Introduzir nas aulas temas como cidadania digital, segurança online e empatia virtual é fundamental. O uso de vídeos, jogos interativos e projetos colaborativos, por exemplo, pode ajudar os alunos a refletirem sobre seus comportamentos nas redes.
2. Estabelecer protocolos de escuta e acolhimento
É importante criar canais seguros para que os alunos denunciem casos de violência. Isso pode ser feito com apoio de orientadores educacionais, psicólogos escolares e grupos de mediação de conflitos.
3. Formar a comunidade escolar
Promover encontros com pais, responsáveis e professores para debater o tema e entender os sinais do sofrimento psicológico é, primeiramente, um passo importante.
“O silêncio é o maior aliado do cyberbullying. Então, quando a escola se cala ou finge que é apenas ‘brincadeira’, ela se torna cúmplice”, alerta Sílvia Colello, professora da Faculdade de Educação da USP.
4. Registrar e encaminhar formalmente os casos
A escola deve ter clareza de que cyberbullying é violência, e pode ser tipificado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como infração. Logo, em casos mais graves, é necessário notificar o Conselho Tutelar ou o Ministério Público.
O cuidado é coletivo
A minissérie Adolescência nos confronta com uma dura verdade: o descaso diante da violência digital pode custar vidas. Combater o cyberbullying não é uma tarefa individual. É, primordialmente necessário construir uma cultura escolar baseada no respeito, na escuta e na convivência ética.
Como educadores, pais e gestores, temos a missão de oferecer aos nossos adolescentes não só conhecimento, mas referências saudáveis de convivência, acolhimento e afeto.
Referências
- MALDONADO, Maria Tereza. Bullying e Cyberbullying: o que fazemos com o que fazem conosco? Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
- COLELLO, Sílvia. Entrevista concedida ao Jornal da USP. Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/cyberbullying-escola-deve-conhecer-e-enfrentar/. Acesso em: 17 maio 2025.
- BRASIL. Centro de Valorização da Vida – CVV. Relatório Anual 2022. Disponível em: https://www.cvv.org.br. Acesso em: 17 maio 2025.
- CGI.BR – Comitê Gestor da Internet no Brasil. TIC Kids Online Brasil 2023: Pesquisa sobre o uso da Internet por crianças e adolescentes no Brasil. São Paulo: CETIC.br, 2024. Disponível em: https://cetic.br/pesquisa/kids-online/. Acesso em: 17 maio 2025.
- BRITO, J. A. et al. Práticas educativas em saúde na prevenção contra o bullying e o cyberbullying no contexto escolar. Revista Científica Multidisciplinar RECIMA21, v. 3, n. 5, 2022. Disponível em: https://recima21.com.br/index.php/recima21/article/view/4084. Acesso em: 17 maio 2025.
- NUNES, J. R. et al. Promoção da saúde mental na escola: diga não ao cyberbullying. Revista Extensão em Foco, v. 1, n. 1, 2022. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/extensao/article/view/86645. Acesso em: 17 maio 2025.
- GONZÁLEZ, F. Cyberbullying, cyberagressão e riscos on-line: como a escola pode atuar diante dos problemas da (cyber)convivência. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, v. 18, n. esp. 3, 2023. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/iberoamericana/article/view/18444. Acesso em: 17 maio 2025.
- NETFLIX. Adolescência (Adolescence). Minissérie. Direção de Philip Barantini. Criação de Jack Thorne e Stephen Graham. Reino Unido: Netflix, 2025.
