ATUAÇÃO DOCENTE EM MÚLTIPLAS ESCOLAS: O QUE ISSO REVELA SOBRE A REALIDADE BRASILEIRA?
por Lucas Kauan N. De Santana
No Brasil, a atuação docente em múltiplas escolas têm influenciado de forma significativa a qualidade do ensino, seja pela falta de vínculo com a comunidade escolar ou pela saúde dos educadores. Atualmente, 1 a cada 5 professores na educação básica atua em mais de uma unidade de ensino.
Neste post, exploramos o cenário da educação básica brasileira, conhecendo as causas, consequências e caminhos com potencial para mitigar esse fenômeno, trazendo perspectivas e dados educacionais.
DOCENTES QUE ATUAM EM MAIS DE UMA ESCOLA
De acordo com o Censo Escolar de 2023, cerca de 19,4% dos professores da educação básica estão nessa condição. Neste contexto, estima-se que 15,9% atuam em duas escolas e 2,6% em três unidades de ensino.
Esse cenário é frequentemente encontrado no Ensino Médio (36,4%) e nos anos finais do Ensino Fundamental (34,4%), especialmente entre professores de áreas como Matemática, História, Física e Português. Ou seja, no Brasil, mais de um terço dos professores dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio atuam em mais de uma escola. Tal fato pode ser associado à fragmentação curricular e distribuição de carga horária, resultando na necessidade do docente em complementar a sua jornada em diferentes unidades de ensino.
No ano passado, o Governo Federal estabeleceu estratégias voltadas à aplicação de políticas públicas educacionais de forma eficiente através do Plano Nacional de Educação (PNE) 2024-2034. Contemplando, dessa forma, pautas necessárias para a educação brasileira, como o cumprimento da jornada de trabalho em um único estabelecimento escolar.
DIFERENÇAS ENTRE AS REDES: MUNICIPAL, ESTADUAL E PRIVADA:
A rede estadual de ensino é a que apresenta maiores registros de docentes que atuam em múltiplas escolas, 32,8%. Quando observamos o panorama nacional, desse modo, identificamos que os seguintes estados são os mais críticos: Pará (56,4%); Rio de Janeiro (55%); Piauí (50,6%); Mato Grosso do Sul (50,2%); Sergipe (47,4%); Paraná (45,1%), Rio Grande do Norte (44,1%) e Alagoas (43,2%), segundo dados do Censo da Educação Básica, em 2023. Em contrapartida, nas redes municipais observa-se que 22,5% dos professores atuam em múltiplas escolas.
Na rede privada, o cenário se assemelha aos índices da rede municipal, onde 22% dos professores também atuam em mais de uma unidade de ensino durante a sua jornada de trabalho. Atualmente, apenas a rede federal não apresenta valores expressivos, correspondendo à 4,5% dos casos registrados.
POR QUE OS PROFESSORES ATUAM EM MAIS DE UMA ESCOLA?
No Brasil há uma tendência entre os profissionais da educação de trabalhar em múltiplas escolas, pois se considera como algo inerente à profissão. Contudo, quando nos aprofundamos nos princípios que orientam o ensino e as diretrizes para os planos de carreira, percebemos que a realidade de dedicação exclusiva a uma escola ainda é um tema que não recebe a devida atenção, apesar de sua relevância para o debate educacional.
A origem deste fenômeno pode ser atribuída à diversos fatores, como, por exemplo: a carga horária fragmentada, onde professores com poucas aulas em uma única escola são se veem forçados a complementar a sua jornada em diferentes unidades de ensino.
Além disso, é bastante comum que profissionais acumulem vínculos empregatícios para garantir uma remuneração adequada e digna, sendo atribuído muitas vezes aos baixos salários e vínculos precários, o que acaba por evidenciar a necessidade de realização de concursos e iniciativas que promovam a reorganização do sistema de educação básica no Brasil.
IMPACTO SOBRE A SAÚDE MENTAL E QUALIDADE DO ENSINO
Apesar de sua relevância para o setor educacional, os impactos negativos da atuação docente em múltiplas escolas ainda são pouco discutidos, sendo eles:
- Saúde e bem-estar dos docentes: Professores que se dividem entre escolas sofrem mais com problemas de saúde física e mental, como cansaço extremo, estresse e até Síndrome de Burnout. A sobrecarga e o tempo reduzido para descanso, portanto, contribuem para o adoecimento e afastamentos.
- Redução da qualidade do ensino: A fragmentação do trabalho dificulta o planejamento pedagógico, a correção de atividades e o acompanhamento dos estudantes. Professores com múltiplas turmas e escolas têm menos tempo para formar vínculos com os alunos e participar da vida escolar.
- Menor integração com equipe pedagógica: Estudos mostram que professores em mais de uma escola participam menos de momentos, como, por exemplo, reuniões pedagógicas, conselhos escolares e projetos coletivos. Isso afeta a construção de comunidades de prática e a colaboração entre pares (fundamentais para a inovação e melhoria contínua do ensino).
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IMPACTO DO BEM-ESTAR DO EDUCADOR NO CONTEXTO ESCOLAR
Nas últimas décadas, tem-se debatido cada vez mais a necessidade de garantir a formação integral dos estudantes. Entretanto, é necessário que as escolas contem com um currículo diversificado, conectado com o contexto dos alunos e que incentive o protagonismo juvenil. Porém, há um ponto essencial nessa equação que ainda parece distante da realidade da educação brasileira: a pedagogia da presença.
Afinal, como esperar que o professor esteja de fato presente, construindo vínculos e acompanhando de perto o desenvolvimento dos alunos, se ele próprio enfrenta condições precárias de trabalho que o impedem de permanecer na escola?
Essa realidade impacta diretamente a qualidade da educação e contribui para a alta rotatividade docente. Desse modo, muitos acabam deixando suas escolas em busca de vínculos mais estáveis e condições dignas para exercer o ofício.
A IMPORTÂNCIA DA IMPLEMENTAÇÃO EFICIENTE DE POLÍTICAS PÚBLICAS NO SETOR EDUCACIONAL
O Plano Nacional de Educação (2024–2034) traz um ponto crucial: priorizar a jornada dos professores em um único estabelecimento escolar. Porém, é necessário que essa proposta saia do papel e ganhe força nas políticas de valorização docente.
Alguns caminhos possíveis para a melhoria das condições de trabalho docente incluem, então, a reestruturação da distribuição de aulas, priorizando a carga horária integral em uma única escola, além da realização de concursos públicos que promovam estabilidade e reduzam vínculos temporários.
Também é essencial a valorização salarial, de modo a evitar a necessidade de múltiplos contratos para garantir uma remuneração justa. Por fim, destaca-se a importância do planejamento por parte das redes de ensino, permitindo que os professores tenham tempo adequado para construir vínculos, planejar suas aulas e propor inovações pedagógicas.
Valorizar o professor começa com políticas públicas bem implementadas, e essa é uma discussão que precisa ganhar força nas escolas, nas redes e em toda a sociedade.
É PRECISO VALORIZAR O PROFESSOR E O SEU TEMPO
Esse fenômeno acaba por evidenciar não apenas a desvalorização profissional do professor, mas um desafio estrutural da educação básica no Brasil, onde a precariedade e sobrecarga são confundidas com falta de esforço.
Valorizar o professor é também garantir que ele possa ensinar com tempo, foco, intencionalidade e dignidade, sem precisar alternar a sua rotina entre duas ou mais escolas.
Reconhecer o problema é o primeiro passo para construir soluções. Então, que tal levar esse debate para sua escola ou secretaria de educação?
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REFERÊNCIAS
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SOARES, G. J. N.; PINHEIRO, M. L. R. G.; PEREIRA, R. N. A.; OLIVEIRA, L. A.; MARTINS, A. S. A. Os impactos da pedagogia da presença na escola integral: uma abordagem significativa para a educação. In:CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, X, 2024. Anais… X CONEDU: Realize Ed. 2024. Disponível em: < https://editorarealize.com.br/editora/anais/conedu/2024/TRABALHO_COMPLETO_EV200_MD1_ID13765_TB6872_27102024212841.pdf > Acesso em 26/06/ 2025.
