Formadores ou só informadores? Refletindo sobre a importância dos professores
Por Jaqueline Novoletti
“Numa era em que as informações estão, literalmente, nas palmas das mãos dos estudantes, educadores se fazem indispensáveis”. Essa afirmação fez sentido para você? Educadores são ou não são aqueles que detêm, exclusivamente, e transmitem o conhecimento? Afinal, qual será então a importância dos professores num mundo onde as informações são tão acessíveis?
1. Professores como detentores e transmissores do conhecimento. Fato ou fake?
Imagine uma sala de aula repleta de estudantes com conhecimento de mundo e vivências para além do ambiente escolar. Imagine também quantas experiências esses estudantes já tiveram (e terão). Agora, nessa mesma sala de aula, pense no professor ou professora regente da turma. Será mesmo que somente esse profissional da educação detém consigo todo o conhecimento que esses estudantes precisam? Será que todas as mentes desses educandos são como páginas em branco? Será que os conhecimentos prévios dos alunos e alunas não devem ser levados em consideração?
Se essas perguntas te fizeram refletir, estamos no caminho certo. Educadores estão em sala de aula para facilitar o processo de aprendizagem e não tão somente transmitir informações – até porque as informações estão nas palmas das mãos dos estudantes, como já diria o nosso primeiro parágrafo. Logo, professores são aqueles que estimulam alunos e alunas a utilizarem os saberes prévios de mundo, a pensarem criticamente, a dialogarem e alcançarem o conhecimento de maneira dialética e construtiva. Afinal, não são páginas em branco, e sim folhas repletas de conteúdos valiosos e contextualizados que devem, sem dúvida, ser levados em consideração. Nas palavras de Freire: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. A partir daí começamos a compreender a importância dos professores.
2. Não transmitem só informação, mas cuidam da formação!
Superamos o mito de que educadores são meros transmissores de conhecimento, certo? Então vamos a um acréscimo: não transmitem só informação, mas cuidam da formação dos educandos, ajudando-os a se tornarem cidadãos conscientes, acolhedores e preparados para a vida em sociedade. A importância dos professores se dá na mediação dentro de sala de aula, a partir da qual os estudantes praticam respeito, tolerância, diálogo, equidade, resolução de conflitos e tantos outros valores primordiais.
Repare que há incompatibilidade entre a ideia de profissionais informadores – detentores exclusivos de conhecimento – e profissionais formadores, justamente porque esses últimos precisam da construção coletiva de conhecimento para que os valores citados no parágrafo anterior possam ser trabalhados. E aqui a palavra formar deve ser entendida não como a ação de um sujeito criador que simplesmente dá a forma a um corpo, mas ainda nas palavras de Freire “quem forma se forma e reforma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado” (…) Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.” Inclusive, essa reflexão já foi abordada aqui no blog.
3. E como ser um profissional formador e não apenas informador?
Até aqui já sabemos da importância dos professores enquanto co-responsáveis pela construção e interiorização de valores necessários para a convivência social. Agora é hora de compreender alguns dos caminhos a serem trilhados, e para isso contaremos com as lições de Paulo Freire e as dicas de Weinstein e Novodvorsky:
Dialogue: Freire reforça que o diálogo é fundamental para a comunicação, e sem ela não existe educação. É ele quem implica no pensar crítico. Nesse tópico também é necessário destacar a comunicação não-violenta e a escuta ativa – essenciais para que diálogos entre os diversos atores aconteçam de maneira respeitosa, assertiva e produtiva.
Estabeleça e cumpra expectativas claras de comportamento: É primordial que os estudantes saibam quais comportamentos são esperados e suas consequências. Isso diminui a probabilidade de conflitos e aumenta as chances de interações acolhedoras e descontraídas. Além disso, mostra aos estudantes que a convivência com as regras é desagradável ou “chato”, mas necessária.
Seja justo: informe os critérios de avaliação com antecedência, sem sonegar informações. Se você vai levar a participação em conta na atribuição da nota final, diga aos estudantes e explique o que você considera como participação. Nenhum de nós gostaria de ser pego de surpresa ao ser avaliado.
Seja inclusivo: reconheça que seus estudantes são diferentes. Enfatizando: alunos e alunas não são iguais. Assim, uma sala de aula verdadeiramente inclusiva aprende-se sobre deficiências, culturas, raças, etnias e religiões. Racismo e preconceito fazem parte do mundo real. Como podemos tratar disso em sala de aula?
4. E na prática?
Suponhamos que você seja educador de Língua Portuguesa, esteja trabalhando o gênero debate regrado e proponha como tema as cotas raciais, que fará com que os estudantes sejam atravessados de maneira transversal por temáticas ligadas à negritude e às políticas públicas.
O gênero textual vai exigir dos estudantes o diálogo respeitoso e tolerante, respeitando os turnos de fala de cada um – o que inclusive pode e deve ser tratado como uma expectativa de comportamento.
Antes do debate, mencione e explique os critérios avaliativos. A oralidade será pontuada de que forma? Os argumentos terão pesos diferentes?
Após a atividade, colha as percepções dos estudantes. Elas te ajudarão a refletir sobre a sua prática e melhoria contínua.
5. E por fim: professores são muito importantes!
As lições tratadas aqui não tiveram como foco uma disciplina ou conteúdo específicos, mas sim valores e práticas de conduta. Viu só como nosso papel principal não é apenas transmitir conhecimento? Espero que essas linhas possam ter auxiliado na compreensão da dimensão da importância dos professores na construção e formação de uma sociedade tolerante, justa e inclusiva.
A Curiós trabalha para ajudar as redes de ensino a oferecerem seu máximo de forma leve na contribuição para atingirmos essa meta. Nós podemos ajudar você e a sua escola, mande uma mensagem e vamos conversar 🙂
Referências:
Freire, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
Freire, Paulo. Pedagogia do oprimido: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2019.
Weinstein, Carol Simon; Novodvorsky, Ingrid. Gestão de sala de aula: lições da pesquisa e da prática para trabalhar com adolescentes. 4. ed. Porto Alegre: AMGH, 2015.
