Bullying não é “mimimi”

Em uma era digital, precisamos debater nas escolas sobre a intensificação do bullying

Por Joice Andrade

Com o crescente e cada vez mais cedo uso das tecnologias por crianças e adolescentes, um sério problema surge, o cyberbullying, ou mesmo a intensificação do bullying. E é na escola que essas práticas acontecem com maior frequência, sendo muitas vezes silenciosas. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 23% dos estudantes brasileiros afirmaram ter sofrido bullying, levando consigo traumas para a vida adulta. A escola é lugar de compartilhamento de conhecimento, mas também de formação de cidadãos, logo, é fundamental que a escola se posicione sobre a temática, a fim de minimizar os impactos gerados por essa violência, conscientizando os estudantes. Neste artigo, nosso foco é refletir com professores e coordenadores sobre o bullying, como ele tem ocorrido, e orientá-los a como enfrentar esse problema.

O que é bullying? E o cyberbullying?

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), define bullying como um ato de violência física, verbal e/ou psicológica, sendo intencional e repetitiva. Com o amplo acesso às redes sociais e a ideia de “terra sem lei”, surge também o cyberbullying, que é a prática do bullying através das tecnologias digitais. Esses dias ouvi em uma palestra do Leandro Karnal que “a internet  oferece o mundo, mas não diz o que é bom ou ruim”, e, de fato, se usada de maneira correta, a tecnologia é capaz de oferecer vastas possibilidades para crianças e adolescentes, inclusive para o aprendizado. Porém, sabemos que nela existe um mundo de fakes news, conteúdos impróprios e ilícitos, vidas artificiais que geram excessivas comparações, ataques cruéis entre pessoas desconhecidas e poder de rápido compartilhamento e exposição. Tudo isso intensifica a prática do bullying, que por vezes acontece entre telas, mas que sua continuação é levada para o ambiente escolar e suas consequências para a vida toda.

Entenda porque urge refletir sobre o bullying

De acordo com o estudo apresentado pelo psiquiatra Timothy Brewertonm, o qual atendeu estudantes do massacre de Columbine (uma escola dos EUA), 66 dos ataques em escolas que ocorreram no mundo de 1966 a 2011, 87% dos atiradores sofreram bullying e viram no ataque uma forma de vingança. Ainda segundo esse estudo, foi apontado que naquele país 160 mil estudantes deixam de frequentar as aulas por medo de sofrer agressões verbais e físicas. Outro dado relevante é o que diz a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), “o suicídio é a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos”, e evidencia a violência, inclusive o bullying como um dos riscos à saúde mental. Com esses relatos, é possível compreender o complexo problema acarretado pela prática do bullying, sendo necessário o debate desse tema nas escolas, para que seja possível combater e prevenir, evitando e minimizando esses impactos negativos.

Como identificar uma vítima e um agressor?

Não existe padrão de identificação de vítimas e agressores, visto que cada pessoa reage e expressa sentimentos de distintas formas, mas traremos alguns aspectos comuns identificados em vítimas e agressores. 

Vítimas: em uma entrevista ao G1, adultos que já sofreram bullying na adolescência e infância, relataram omissão da escola, medo de denunciarem e alguns sentimentos e traumas, como: dores de cabeça, nervosismo, perda de sono, baixo rendimento na escola, choros descontrolados, isolamento social, vergonha de falar em público, medo de ir à escola, problemas na aprendizagem, aumento ou perda de peso, timidez e baixa autoestima. 

Agressores: geralmente são aqueles estudantes mais populares, com poder de influenciação. O psicanalista Jorge Broide, estudou sobre o bullying e concluiu que a violência é também uma forma de aliviar os problemas pessoais. Além disso, o agressor tem necessidade de se mostrar como alguém superior, muitas vezes, segundo Broide, na tentativa de esconder emoções, violências e abusos sofridos. Nas redes sociais, esse agressor geralmente se esconde em perfis sem fotos ou fakes, espalhando boatos ou comentários de ódio.

Vale ressaltar que vítimas podem passar a agressoras quando não acolhidas. No estudo realizado pelo Instituto Sou da paz com relação a ataques a escolas, foram apontadas duas características principais dos agressores: o sofrimento na escola, ciúmes, castigo, ou ser vítima de bullying; e uso da cultura agressiva na internet, com diálogos em comunidades de incentivo à violência, Deep Web, e atualmente nas redes sociais como Instagram, Tiktok, Whatsapp, Telegram e Twitter, com discursos de ódio, homofobia, discriminação racial, social, religiosa e de gênero.

Traremos agora formas para auxiliar coordenadores e professores em como desconstruir paradigmas, prevenindo, combatendo e encarando o problema do bullying em suas escolas:

  1. Prevenir: é sempre melhor prevenir do que remediar, e por mais que pareça inexistente a prática de bullying na sua escola, muitas vezes elas acontecem silenciosamente, ou por telas de aparelhos digitais. Promover palestras sobre o assunto com toda a comunidade escolar, abrir espaços para rodas de conversa em sala, onde possam debater sobre o tema, mostrando a diferença de uma simples brincadeira e o bullying, afirmando que não é “mimimi” (termo usado pela atual geração ao se referir de forma satirizada a alguém que reclama de algo sem seriedade), é uma forma de prevenção. Outra alternativa, é promover dias de cinema, em que os filmes ou documentários sejam voltados a temas como bullying, violência, emoções e sentimentos, colaboração, solicitando ao aluno um resumo de reflexão sobre o que foi assistido. É essencial também que a escola esteja atenta a grupos em redes sociais, limitando o uso na escola, mas também ensinando como fazer bom uso das tecnologias.
  1. Identificar: esteja sempre atento ao comportamento de cada estudante, às vezes o silêncio ou a agressividade escondem muitos problemas da vida pessoal. Assim, também é possível contar com a ajuda dos próprios estudantes, isso porque ao promover essas rodas de conversas e reflexões, o aluno consegue distinguir o que se configura bullying, e permite que os alunos se sintam encorajados para denunciar agressões sofridas por colegas ou por eles mesmos. Mostre-se sempre aberto a ouvi-los sem julgamentos precoces, isso te ajudará a ter o apoio deles nessa identificação.
  1. Combater: ao identificar práticas de bullying, deve-se ocorrer conversas e/ou punições, sejam elas brandas ou rígidas, a depender do dano causado à vítima e da frequência de repetições. Para não expor os envolvidos, é mais adequado ter um diálogo reservado, quando não presenciada a cena, podendo também ouvi-los separadamente. Caso presencie o ocorrido, é importante repreender, sem constrangimentos, o agressor no exato momento, para que a turma compreenda que a atitude foi incorreta. O coordenador tem um papel importante nessa etapa, no sentido de dar autonomia ao professor para realizar punições, mas também de dar apoio, conversando quando necessário com os estudantes e convocando seus responsáveis para um diálogo sobre a violência ocorrida.
  1. Acolher: não adianta apenas dar “sermões”, é necessário disponibilizar acolhimento, o professor pode ter uma primeira conversa para ouvir os envolvidos, mas, após isso, encaminhá-los para a coordenação. A coordenação por sua vez, deve encaminhá-los para um acolhimento psicológico, para que a vítima possa expor os sentimentos gerados pelo ataque, não desencadear traumas, e não se tornar um futuro agressor. Assim também com o agressor, para que ele possa ser escutado e identificados os problemas raízes para os ataques, no intuito de que não volte a praticar novamente. Caso sua escola não possua psicólogos, é importante estar entre as principais solicitações à secretaria de educação.
  1. Agir: após esses passos, ou mesmo entre eles, é necessário pensar em ações de trabalho com os estudantes para desenvolver neles senso de auto responsabilidade, colaboração, solidariedade, respeito e valorização às diferenças, empatia e cuidado, controle e identificação das emoções. Algumas dessas ações podem ser: práticas de meditação guiada, dinâmicas colaborativas e de conexão com a turma, apoio aos estudantes na identificação das suas potencialidades e pontos de desenvolvimento para aumentar a autoestima, desenvolvimento de gincanas solidárias em prol da comunidade, contextualização do conteúdo com a temática da diversidade, incentivo e disponibilização de práticas de esporte, trabalho com a educação tecnológica, mostrando como usá-la de maneira responsável. E também promover a formação dos professores e dos funcionários da escola, para que saibam lidar com situações de bullying.

Diante de tudo isso, é inegável que o bullying é um problema social e até mesmo de saúde pública, que precisa ser levado a sério, principalmente por parte da escola, uma vez que é nesse espaço que ele se intensifica, ganhando ainda mais força com uso das redes sociais. Combater e refletir sobre a violência é necessário, mas criar um ambiente acolhedor, onde as crianças e adolescentes se sintam encorajadas e seguras a buscarem ajuda, é o que de fato irá tratar o problema raiz. O ciclo da violência precisa ser quebrado, e isso só é possível quando propagada uma cultura de paz, empatia, valorização da diversidade e respeito às diferenças. Agora é sua vez de levar essa reflexão, acolhimento, combate e ações contra o bullying e qualquer tipo de violência para sua escola!

Referências:

G1.globo. Bullying motivou 87% de ataques em escolas, diz estudo dos EUA. Disponível em: <G1 – Bullying motivou 87% de ataques em escolas, diz estudo dos EUA – notícias em Educação (globo.com)> Acesso em: 06 de abril de 2024.

G1.globo. Vítimas de bullying revelam omissão da escola e medo de falar sobre tema. Disponível em: <G1 – Vítimas de bullying revelam omissão da escola e medo de falar sobre tema – notícias em Educação (globo.com)> Acesso em: 08 de abril de 2024.

Instituto Sou da Paz. Raio-x de 20 anos de ataques a escolas no Brasil (2002 – 2023). Disponível em < Instituto Sou da Paz | 25 anos – AS ARMAS DO CRIME> Acesso em: 06 de abril de 2024.

OPAS. Saúde mental dos adolescentes. Disponível em: <Saúde mental dos adolescentes – OPAS/OMS | Organização Pan-Americana da Saúde (paho.org)> Acesso em: 08 de abril de 2024.

Unicef. Bullying e Violência Escolar, Suas consequências e como combatê-las. Disponível em: <Bullying e Violência Escolar (unicef.org)> Acesso em: 06 de abril de 2024.

Unicef. Cyberbullying: O que é e como pará-lo. Disponível em: <Cyberbullying: O que é e como pará-lo (unicef.org)> Acesso em: 08 de abril de 2024.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!