Um olho nos dados e outro nos dardos, por Marina Queiroz
Sabemos da existência de inúmeros problemas educacionais no Brasil, hipóteses são levantadas, estudos realizados e decisões são tomadas, mas como consolidar hipóteses, construir estudos embasados e tomar decisões mais acertadas? Através da análise dos dados, a transformação destes em informações e posteriormente, em indicadores, que consubstanciam toda e qualquer análise, inferência e decisão (nessa respectiva ordem) nos parece ser o melhor caminho.
Pode-se dizer que o censo escolar é um conjunto de dados estatísticos que revelam o retrato da educação no país. Todas as escolas públicas e privadas precisam responder a uma série de perguntas, desde a infraestrutura da escola, as condições dos materiais até a etnia dos estudantes, o número de matriculados, a taxa de reprovação e de abandono escolar.
Com os números em mãos conseguimos analisar a situação da educação por rede, por contexto, por escola para, assim, tomar decisões coerentes com as metas e os objetivos firmados no Plano Nacional de Educação, que é responsabilidade de todos os entes federativos em prol da garantia do direito à educação no país.
Por intermédio desses dados, índices são construídos, como por exemplo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Sua fórmula é exatamente o cruzamento dos dados da taxa de aprovação presentes no Censo Escolar multiplicados pela média de desempenho nas avaliações do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). A partir dos resultados do IDEB, é possível averiguar a qualidade de ensino de uma escola, rede e de todo o sistema da Educação Básica brasileira. Por essa e outras razões que o Censo Escolar é tão importante para a educação.
E o que os resultados do Censo Escolar 2023 revelaram?
- Notou-se a diminuição no percentual de matrículas em toda a educação básica, 77 mil matrículas a menos quando comparado com 2022. No ensino fundamental, as matrículas para 2023 foram 3% menores do que o contabilizado em 2019;
- Já o número de matrículas da Educação de Jovens e Adultos (EJA) reduziu consideravelmente, cerca de 20,9% entre os anos de 2019 e 2023;
- Por outro lado, as matrículas da educação profissional sofreram um aumento de 26,1% em relação ao ano de 2019;
- Houve um aumento expressivo no percentual de matrículas da educação especial de 41,6% em relação a 2019 e aumento gradativo dos alunos incluídos em salas comuns de 92,7% em 2019, para 95% em 2023.
- As taxas de aprovação, que se elevaram no período pandêmico, voltaram a sofrer queda e equivalem às taxas antes da pandemia;
- Em relação à disponibilidade de internet, os dados mostraram que o recurso é menos presente na região Norte do país;
- Ainda sobre a disponibilidade da internet, nas escolas municipais o recurso é menor (83,9%) em comparação com as escolas estaduais (94,4%), federais (100%) e privadas (98,9%).
Como as secretarias podem utilizar os resultados do Censo Escolar 2023 na tomada de decisões em 2024?
- É possível analisar os resultados por rede e por escola, através do PowerBi e do Oracle Business Intelligence. Observe quais escolas necessitam de maior recurso de infraestrutura, que estão sem acesso à internet ou a recursos pedagógicos e crie um plano de ação com o planejamento orçamentário disponível para incidir sobre essas redes;
- Com o aumento das matrículas na educação especial e no número dos alunos incluídos em salas regulares é preciso ter um olhar pedagógico estratégico em relação a como tem sido essa inclusão. Quais metodologias têm sido adotadas para o aprendizado dos estudantes? Há um acompanhamento e como tem sido a evolução individual desses estudantes? Os professores e coordenadores pedagógicos estão recebendo formação?
- As taxas de reprovação voltaram a apresentar resultados no mesmo patamar do período anterior à pandemia. A solução não pode ser, simplesmente, não permitir que esses estudantes reprovem. É preciso que ações sejam implementadas no início do ano, através de relatórios que indiquem os estudantes faltosos, os com problemas de comportamento e aqueles com maiores dificuldades na aprendizagem. A partir dos relatórios, um plano de ação pode ser pensado para cada um dos casos, evitando não somente a reprovação, como o abandono e a evasão escolar.
Sabemos que a garantia do direito à educação é complexa e que o problema da evasão, por exemplo, pode ter causas sociais e econômicas. Sendo assim, a solução não permeia apenas a agenda educacional e sim um espectro que envolve segurança pública, políticas sociais, assistenciais e culturais, políticas econômicas, entre outras. Sendo assim, focar em estratégias inovadoras, de escuta ativa, mesclando aspectos e olhares quantitativos e qualitativos, integrando-as com outras agendas governamentais pode ser um diferencial. Você concorda? Mande uma mensagem pra gente e vamos continuar essa reflexão!
Referências:
