Consciência negra na sala de aula

Reflexões para uma educação antirracista pela construção de uma sala de aula que valoriza conhecimentos diversos

Por Samuel Godinho

Todos os anos, no mês da consciência negra, muitos professores ficam se perguntando sobre a melhor forma de abordar esse tema na sua sala de aula. E comigo não é diferente. Mas você já parou para pensar que, mais importante do que simplesmente fazer uma atividade sobre esse assunto, é essencial construir um ambiente de aprendizagem em que todos sejam ouvidos, valorizados e acolhidos na sua diversidade?

A artista portuguesa Grada Kilomba conta em suas “Memórias de Plantação” – livro no qual reflete sobre episódios de racismo cotidiano – que costuma dirigir aos seus estudantes de uma universidade alemã,  já no primeiro dia de aula, algumas perguntas como “Quais países africanos foram colonizados pela Alemanha?” ou “Quem foi a Rainha Nzinga e qual papel ela teve na luta contra a colonização europeia?”. Ela relata não se surpreender quando as estudantes negras respondem corretamente às perguntas, enquanto os estudantes brancos permanecem em silêncio. E conclui:

“Aquelas usualmente silenciosas começam a falar, enquanto aqueles que sempre falam tornam-se silenciosos.” (KILOMBA, 2019, p.50)

Essa estratégia, de escolher as perguntas a fim de dar voz aos que estavam em silêncio, visa fazer com que todos os estudantes percebam quem sabe o quê e quem não sabe. E, sobretudo, que reflitam sobre o porquê dessa diferença. 

Inspirado nessa perspectiva, decidi rever minha prática pedagógica, uma vez que sou professor de Língua Inglesa em uma escola em que predominam estudantes pretos e pardos. Para tal, preparei uma atividade de compreensão auditiva sobre a música “Who has a friend, has everything”, versão em inglês da canção “Quem tem um amigo, tem tudo”, do rapper brasileiro Emicida. Além da atividade de escuta, preparei várias questões de gramática e interpretação de texto baseadas na letra da canção.

Na última delas eu perguntei: “Por que você acha que o Emicida fala de pessoas que foram referência na luta pelos direitos das pessoas negras (como Mandela e Luther King) na letra da sua música?”. Circulando pela sala enquanto os estudantes respondiam às questões pude perceber que um estudante negro, que falava muito pouco e se sentava na última cadeira, tinha dado uma resposta interessante. Por sua vez, outros estudantes estavam com dificuldade para entender a questão. Segui observado até que todos terminassem a tarefa. 

Para a correção, como de costume, perguntei: “Quem gostaria de ler e responder a primeira questão?”. E os estudantes que se manifestavam, sempre os mesmos, iam respondendo. Para a última pergunta, eu mudei a abordagem e disse que gostaria de ouvir a resposta do aluno que tinha dado uma excelente resposta e o chamei pelo nome. Muito tímido, ele relutou um pouco, mas acabou lendo a sua resposta: “Para mim, ele quis fazer uma homenagem para o seu povo.” E, de repente, aquele aluno que estava acostumado a esse lugar de não saber e de não falar, estava dando uma resposta que me emocionava e causava admiração em seus colegas. Com sua resposta, ele demonstrou sua capacidade de reconhecer uma referência nominal em uma canção como homenagem e de classificar o conjunto das pessoas negras como um “povo”. Talvez, o que faltava para ele até então, era essa oportunidade para manifestar a sua consciência negra. 

Em suma, essa história exemplifica uma de várias estratégias que podemos utilizar como professores para ajudar a construir uma sala de aula que valoriza conhecimentos diversos, estimula a consciência racial dos estudantes e que seja, de fato, pautada na lógica de uma educação antirracista, inclusive além do Dia da Consciência Negra. Refletir sobre isso quando planejamos nossas aulas e avaliações é algo que não se limita ao dia 20 de novembro, mas que deve pautar as nossas ações ao longo de todo o ano. Talvez a primeira pergunta a se fazer, parafraseando Grada Kilomba, seja “Quem está no centro das nossas salas de aula? E quem permanece fora, nas margens?” e, a partir daí, rever as nossas referências e replanejar as nossas perguntas para que todos tenham voz e se sintam representados.

As estratégias da Curiós podem ser de grande ajuda nesse processo. Quer saber como? Entre em contato 🙂

Referências:

KILOMBA, Grada. Memórias de Plantação: Episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!