Dia da Escola: quais asas daremos aos sonhos de amanhã?

Uma viagem pela história e reflexões sobre o Dia da Escola  – por Júnia Bicalho

Rubem Alves uma vez disse: “escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo”. No dia 15 de março, o Dia da Escola, celebramos não apenas a existência física dos prédios escolares, mas sim a capacidade única da escola de ser um espaço de liberdade, sonhos e transformação. Essa é uma data que nos convida a olhar para trás e contemplar o percurso já trilhado, ao mesmo tempo que nos impulsiona a vislumbrar o futuro, almejando uma escola verdadeiramente comprometida com a inclusão e a aprendizagem dos alunos. No texto de hoje, convido você a embarcar em uma jornada reflexiva sobre a evolução da escola brasileira ao longo dos séculos e seu papel fundamental como agente transformador da sociedade.

  1. A escola do ontem

A história das escolas no Brasil reflete as complexidades de um país marcado pela diversidade cultural, étnica e socioeconômica. Durante o período colonial, as primeiras instituições educacionais foram estabelecidas pelos colonizadores portugueses, com o objetivo principal de catequizar os povos indígenas. Uma sociedade latifundiária, escravocrata e aristocrática, não via a necessidade de indivíduos instruídos (RIBEIRO,1993). A educação, então, estava restrita às elites coloniais e àqueles ligados à Igreja Católica, perpetuando assim um sistema educacional excludente e desigual. 

Com a independência e a proclamação da República, surgiram movimentos em prol da universalização do ensino, buscando combater o analfabetismo e promover a educação como um direito de todos os cidadãos. No entanto, segundo Pereira et al. (2012), esse movimento, que foi ganhando força a partir do século XIX e culminou com a organização das primeiras instituições públicas de ensino brasileiras, promoveu a transmissão das ideologias da sociedade burguesa. Essas ideologias, observadas nos conteúdos escolares, visavam o aprimoramento do trabalhador. Além disso, o acesso a essas instituições estava diretamente atrelado à influência socioeconômica. Logo, a escola pública idealizada nesse período não contemplou a todos e o ensino esteve longe de proporcionar igualdade. 

Ao longo do século XX, a criação de leis e políticas educacionais, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), em 1961, e a Constituição de 1988, que estabeleceu a educação como um direito fundamental, foram marcos legais importantes na trajetória da escolarização no Brasil. Essas leis e políticas estabeleceram diretrizes fundamentais para a organização do sistema educacional e para garantia do acesso às escolas, orientando políticas públicas e os investimentos na área. Progressivamente, ao longo do século passado, a escola, embora ainda muito engessada, começou a ser pensada como local de formação de cidadãos e não apenas de transferência de conhecimento. 

  1. A escola do hoje

No século XXI, programas de incentivo para ampliar o acesso e a permanência na escola, criação de currículos nacionais (BNCC) e a expansão do ensino técnico e profissionalizante têm ocorrido com relativo sucesso,  apesar das limitações ligadas à a infraestrutura, inclusão e equidade. 

Além disso, este século trouxe consigo tanto desafios quanto oportunidades, impulsionados pelo avanço tecnológico e pelas transformações sociais em curso. As escolas do hoje lutam para se adaptar à integração de ferramentas digitais e buscam promover uma educação dinâmica e inclusiva, repensando currículos e práticas pedagógicas para preparar os alunos para os desafios contemporâneos, como a sustentabilidade e a diversidade cultural. As escolas brasileiras têm o desafio de se reinventar continuamente, buscando oferecer uma educação de qualidade que prepare os alunos não apenas para o mercado de trabalho, mas também para uma vida plena e participativa na sociedade. Essa mudança de perspectiva, que vem ocorrendo desde o século passado, reflete uma compreensão mais ampla do papel social da escola e tem se fortalecido ao longo dos anos.

  1. A escola do amanhã

A escola do amanhã, ou seja, a escola que queremos, é um local de formação de cidadãos. É um local para compartilhar, construir e reconstruir ideais, onde cada criança é verdadeiramente única, com suas vivências, culturas e perspectivas de mundo. A tecnologia não será apenas uma ferramenta, mas sim um meio para fomentar a criatividade, o pensamento crítico e a colaboração. As salas de aula se tornarão ambientes inclusivos, flexíveis e adaptáveis às necessidades individuais de cada aluno, valorizando a diversidade de saberes e experiências. 

A escola que queremos reconhecerá a importância do desenvolvimento sócio emocional, cultivando habilidades como empatia e resiliência, essenciais para o sucesso não apenas acadêmico, mas também pessoal e profissional. Mais do que preparar os alunos para o futuro, a escola do amanhã os capacitará a serem agentes de mudança em suas comunidades, promovendo uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável.

Para concretizar os objetivos ambiciosos para a escola do amanhã, será necessário um esforço conjunto e coordenado de todos os membros da comunidade escolar e a sociedade em geral, pois a interação entre alunos, professores e comunidade será a base para uma educação verdadeiramente transformadora. Por isso, neste Dia da Escola, celebremos não apenas os prédios, mas principalmente as pessoas que os habitam e que já vêm tornando possível a construção dessa incrível jornada rumo à transformação social.

Neste dia especial, convido você a se juntar a nós, renovando o compromisso de tornar nossas escolas espaços verdadeiramente acolhedores. Que trabalhemos juntos para construir um futuro no qual cada criança tenha a oportunidade de sonhar, crescer e brilhar, independentemente de onde venha ou de quem seja. Afinal, que possamos cultivar mais “escolas asas”, para que cada sonho alcance horizontes antes inalcançáveis. 

E então, como sua escola planeja comemorar o Dia da Escola? Conta pra gente! Esperamos que essa data seja amplamente celebrada, mas não como um momento passageiro, mas sim como parte de uma caminhada contínua de reconhecimento e valorização do papel transformador que a escola desempenha em nossas vidas, contribuindo para moldar o futuro e empoderar gerações.

Referências

ALVES, R. Gaiolas ou Asas? In: ALVES, Rubem. Por uma educação romântica. Campinas-SP: Papirus, 2002, p. 29. 

PEREIRA, L. A.; FELIPE, D. A.; FRANÇA, F. F. Origem da escola pública brasileira: a formação do novo homem. Revista HISTEDBR On-line, v. 12, n. 45e, p. 239–252, 2012.

RIBEIRO, P. R. M. História da educação escolar no Brasil: notas para uma reflexão. Paidéia (Ribeirão Preto), n. 4, p. 15–30, jul. 1993.

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