O Dia da Matemática e a Etnomatemática

Dia da Matemática. Como desmistificar a matemática, tornando-a mais atrativa? – Por Marina Queiroz

Hoje é o Dia da Matemática e viemos refletir sobre esse tema tão importante para a Educação Básica, que é pauta de ações e programas no setor público, privado, nas pesquisas dos especialistas e nas organizações do Terceiro Setor. 

Quantas vezes você já ouviu estudantes dizendo que não gostam de matemática? Ou mesmo pessoas adultas que dizem odiar essa disciplina? Outra fala/pergunta recorrente dos estudantes é “para que eu vou utilizar isso, professora”? 

Enquanto professora de matemática eu já ouvi essa frase por diversas vezes e construía a metodologia da minha aula com base na contextualização dos assuntos, para tentar torná-la mais interessante e estimulante. Tarefa nada fácil. Romper estigmas, lidar com habilidades não aprendidas em outros anos e que se acumulam, com contextos sociais e econômicos diferentes, com a diversidade de formas de aprender torna a educação complexa, mas fértil e instigante. 

Imagino que você que esteja lendo esse artigo enfrentou ou enfrenta questões parecidas para ensinar, coordenar ou gerir estudantes, escolas, professores e procura formas de garantir o direito aà uma educação de qualidade. Existem diversos fatores complexos para justificar a situação atual, vamos aos dados para entendermos melhor. 

Em 2021, na prova do Saeb (INEP), constatou-se que apenas 15% dos estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental estavam com o nível esperado de aprendizagem em Matemática. Em relação ao nível socioeconômico, apenas 13% dos estudantes com condições econômicas mais baixas estavam com o nível de aprendizado adequado e 37% para estudantes de nível socioeconômico mais elevado. Já quando olhamos para a raça, 12% dos estudantes negros tem um nível adequado de aprendizagem e para os estudantes brancos esse número alcança o patamar de 26%. Ou seja, aprender está intrinsecamente

relacionado aos marcadores sociais e de raça (e também de gênero) dos estudantes. 

Por outro lado, a matemática ocupa um papel importantíssimo no desenvolvimento de habilidades e competências que a Base Nacional Comum Curricular preconiza e estabelece como fundamentais para o desenvolvimento integral dos estudantes em todas as etapas da Educação Básica. Garantir o letramento matemático, o pensamento algébrico, raciocinar, comunicar, representar, formular e propor resoluções de problemas, desenvolver o raciocínio lógico e crítico e a investigação são apenas algumas das habilidades que o ensino da matemática na Educação Básica visa desenvolver. Por isso que os dados apresentados anteriormente são tão preocupantes, são estudantes sendo formados sem desenvolver habilidades basilares para viver em sociedade, em suas profissões, atividades domésticas e como cidadãos críticos e propositivos na construção de nossa sociedade. 

Como melhorar esses dados e tornar a matemática mais interessante?

Nesse Dia da Matemática, vamos propor uma abordagem que surgiu na década de 1970 como uma alternativa crítica à

matemática desvinculada da realidade social, já que é uma tendência que contextualiza a aprendizagem do ensino matemático utilizando o conhecimento prévio do estudante e do grupo sociocultural que esse estudante está imerso: estamos falando da etnomatemática, cujo precursor foi Ubiratan D’Ambrosio.

Compreender o contexto cultural da comunidade escolar possibilita a produção de uma matemática contextualizada, presente no cotidiano da comunidade e integrada a outras ciências e que se utilizada como técnica didática pode proporcionar uma melhoria da aprendizagem e do interesse dos estudantes (D’Ambrósio; 2019). 

Sobre a tendência da etnomatemática, Góes e Góes (2015, p.111) explicou que o objetivo dessa metodologia é “fazer com que a matemática seja viva, que se desenvolva por meio do questionamento e da análise de situações reais no espaço e tempo de certo grupo e de sua cultura, uma que vez que cada comunidade produz matemáticas para suprir suas necessidades por meio de métodos específicos de comparação, medida, quantificação e classificação”. 

A matemática é uma ciência que possibilita pensar soluções para problemas e por essa característica ela precisa ser dinâmica, integrada à

realidade social e que contribua para conhecer o passado, agir no presente para que o futuro seja transformado a partir do conhecimento e da prática.

Como aplicar esse método na prática? Vamos a alguns exemplos?

  1. Supomos que estamos em uma escola indígena e iremos ensinar sobre geometria. Como podemos ensiná-los esse tema? 

Ora, a cultura indígena é muito diversa, então, procure visualizar objetos, estruturas de moradias, acessórios, cosmologia que tem essas formas geométricas. Utilize o que é conhecido e ensine o que for usual, para que vejam sentido. 

  1. Agora vamos fazer de conta que trabalhamos em um assentamento rural e o assunto do momento é regra de três. Qual seria a melhor forma de ensinar? Vamos lá, caso haja o cultivo de alimentos e a agricultura seja a forma de gerar renda, por que não utilizar de exemplos práticos para ensinar regra de três e de quebra proporcionar aulas de educação financeira?  
  2. Era uma vez uma professora que lecionava em uma escola de ensino fundamental de anos finais em uma comunidade de menor renda e com muitos problemas sociais. E o conteúdo é estatística. Como ela poderia criar um plano de aula ou um projeto? 

Podemos criar um censo na escola, para que os alunos criem questionários, entrevistem uns aos outros e investiguem o que os estudantes mais gostam, quem são eles, idade, gênero, raça, problemas da comunidade, da escola. Conhecer é o caminho para transformar. A partir desses dados e da análise deles, projetos podem surgir para propor soluções a alguns desses problemas. 

Se você é gestor de redes, de uma escola, é coordenador ou pedagogo, você pode utilizar todas essas dicas e propagar a etnomatemática por aí. E qualquer ajuda, estamos por aqui ☺ 

Referências: 

D’AMBROSIO, Ubiratan. Etnomatemática: elo entre as tradições e a modernidade. 6. ed. São Paulo: Autêntica, 2019. E-book. Disponível em: https://plataforma.bvirtual.com.br. Acesso em: 02 set. 2023.

GÓES, Anderson Roges Teixeira; GÓES, Heliza Colaço. Ensino da Matemática: concepções, metodologias, tendências e organização do trabalho pedagógico. Curitiba: InterSaberes, 2015.

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