Como podemos construir escolas de educação infantil que estimulem o protagonismo dos estudantes
Por Samuel Godinho
Quando eu ainda estava na faculdade de arquitetura, antes de fazer uma transição de carreira para a área da Educação, eu já me interessava bastante por arquitetura escolar, ou seja, pela arte de construir espaços de aprendizagem. Em um desses seminários, que todo estudante de graduação acaba participando para poder conseguir horas complementares, eu tive a sorte de ouvir a fala de um dos arquitetos que colaborou com os projetos das Escolas Municipais de Educação Infantil de Belo Horizonte. Na ocasião, ele ressaltou o quanto cada detalhe daquelas construções foi pensado para atender às necessidades das crianças, permitindo que desenvolvessem habilidades e competências e, sobretudo, que se apropriassem da escola como um lugar especial, não só de aprendizagem, mas também de acolhimento.
Aquela experiência mudou a minha visão sobre educação infantil. Até então, eu não tinha parado para pensar o quão relevante é essa etapa de ensino para o desenvolvimento de competências como autonomia, organização, protagonismo e senso de comunidade. A partir de então, passei o resto da minha graduação tentando entender como o espaço escolar poderia ser usado de maneira intencional, como ferramenta pedagógica. Com o tempo, acabei descobrindo muitas escolas que são construídas assim, como espaços de produção e valorização do conhecimento, tendo como foco a realidade cognitiva e corporal das crianças e adolescentes. Entretanto, eu me questionava, e aquelas que não foram construídas dessa maneira? Será que teremos que refazê-las?
A resposta veio em uma fita-cassete. Na cena, crianças entre 3 e 5 anos se ajoelham e se esticam para pintar um muro branco. Todas elas estão com uniforme escolar e parecem felizes e concentradas ao realizar a importante tarefa com precisão. Essa gravação foi feita pelos professores da escola particular de educação infantil em que eu estudei e eu era uma das crianças na filmagem, contente em colocar a mão na massa para fazer da minha escola um lugar mais interessante. Eu não me recordo o quão planejada foi essa ação, mas com o conhecimento que tenho hoje, percebo que ações como essa, que incentivam estudantes a realizarem atividades práticas, que geram resultados visíveis e significativos, podem promover o desenvolvimento de habilidades essenciais como cooperação, criatividade e empatia.
Para tal, é importante envolver as crianças em todo o processo: qual espaço da escola elas gostariam de modificar? Como elas imaginam que a escola será após essa intervenção? Com o conhecimento que elas já possuem, é possível fazer a modificação que desejam ou precisam se preparar melhor? Quais serão os materiais necessários? Elas são capazes de fazer essa modificação sozinhas ou vão precisar de ajuda? Elas gostariam de contar com o apoio das famílias ao executar o projeto? Perguntas como essas podem ser feitas aos alunos de forma lúdica e contextualizada. Por exemplo, antes de perguntar o que gostariam de modificar, seria interessante organizar uma pequena excursão pelos espaços da escola. A partir daí, pode ser iniciada uma conversa sobre aquilo que gostam e aquilo que não gostam. Por sua vez, para colher boas sugestões das crianças, uma possibilidade é propor atividades de imaginação e representação, em que os estudantes possam – de forma colaborativa – fazer desenhos criativos de como seria a sua escola dos sonhos. Evidentemente, é essencial que todo o processo seja devidamente orientado pela equipe docente. Afinal, a ideia não é que as crianças deem todas as respostas, mas que fique claro para elas que os adultos as escutam com atenção e valorizam as suas ideias.
Depois da intervenção, é importante estimular os alunos a tomarem consciência sobre o processo pelo qual passaram: o que vocês aprenderam com essa experiência? O que vocês sentem quando olham para o resultado dessa intervenção? O que podemos fazer com o resto de material que não foi utilizado? Elas gostariam de tirar fotos ou filmar o resultado do projeto? Como podemos usar e cuidar dessa obra que construímos juntos? Todo esse processo, se feito de maneira intencional e coordenada, pode fazer com que as crianças percebam a escola, desde a educação infantil, como um espaço prazeroso e inovador.
Vale ressaltar, que a ideia de trabalhar com projetos de intervenção no espaço físico do ambiente escolar é apenas uma possibilidade no vasto campo da “cultura maker” e das “metodologias ativas”. Digo isso, porque acredito que perceber que toda criança tem um pouco de arquiteto em si, pode ser um primeiro passo para uma concepção mais ampla, de que todo ser humano também tem um pouco de professor, um pouco de artista, um pouco de cozinheiro, um pouco de jornalista, um pouco de engenheiro, e por aí vai!
Por fim, gostaria de destacar que a qualidade do ambiente construído pode influenciar o desenvolvimento infantil de várias formas e, por isso, é importante que toda a comunidade escolar esteja mobilizada para cobrar dos órgãos competentes a garantia de conforto térmico, acústico, lumínico e segurança em todas as escolas de educação infantil. Além disso, como exemplificamos aqui, bons espaços podem estimular o desenvolvimento de boas competências e é importante ter isso em mente na hora de construir ou reconstruir – física e simbolicamente – os espaços de aprendizagem. Contudo, não custa lembrar que quem faz mesmo a diferença no desenvolvimento das crianças são as professoras e professores, à medida que “criam espaço” para que práticas relevantes sejam aplicadas no dia a dia de crianças e adolescentes.
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Referências:
G1, por Tácita Muniz. “Em atividade com os pais, alunos pintam muro de creche em Cruzeiro do Sul”. Julho de 2017. Disponível em: <https://g1.globo.com/ac/cruzeiro-do-sul-regiao/noticia/em-atividade-com-os-pais-alunos-pintam-muro-de-creche-em-cruzeiro-do-sul.ghtml>.
Porvir. “Especial Educação Mão na Massa”. Outubro de 2016. Disponível em: <https://maonamassa.porvir.org/>.
