De professora para professor(a): o engajamento de alunos no contexto pós-pandemia

Você tem dúvidas sobre o engajamento dos alunos? Já se perguntou a razão pelo desinteresse deles? Já se sentiu culpada(o) ou culpou essa nova geração por estarem tão desmotivados em aprenderem?  – por Marina Queiroz

O engajamento de alunos é um tema recorrente entre os professores em todos os níveis da educação. Na sala de professores, nos corredores da escola, nos ambientes formativos ou até mesmo nas conversas despretensiosas fora do contexto escolar esse tema vem à tona. Longe de ser uma receita de bolo, o engajamento de alunos pode ser norteado por um conjunto de princípios e orientações, que, se aplicado de acordo com o contexto, pode auxiliar e muito o seu trabalho.

Uma coisa é certa: o mundo está em constante transformação e a educação precisa acompanhar essas mudanças, afinal, educar envolve ensinar por diferentes óticas e percepções a realidade e as relações do ser humano com o mundo. 

Há mais de dois anos, em um contexto de pandemia, publicamos um artigo sobre o engajamento de alunos em um ambiente remoto de ensino. Naquele momento, o mundo parou e precisamos mudar a rota para continuarmos. A educação precisou entrar no modo remoto e os professores, estudantes, responsáveis, coordenadores pedagógicos e gestores escolares se adequaram para esse novo formato. Buscar o engajamento de alunos foi imprescindível nesse contexto e no contexto pós-pandemia.

No estudo, “A voz dos Estudantes” da Unicef produzido após a pandemia, a pesquisa amostral expôs que 50% dos estudantes revelaram que tiveram dificuldades para manter uma rotina de estudos e 46% se sentiram despreparados para acompanhar as atividades escolares, sendo que esse número aumentou para 50% em relação aos estudantes negros e diminuiu para 39% em relação aos alunos brancos. O estudo também divulgou que 57% das escolas não ofereceram espaços em que os estudantes pudessem falar sobre seus sentimentos. 

A pandemia acentuou as desigualdades, retrocedeu a aprendizagem e produziu efeitos na saúde emocional dos estudantes, além de aprofundar o uso excessivo da tecnologia. Dessa forma, esse olhar atento é fundamental para formular ideias e motivar os estudantes.

O texto produzido no contexto da pandemia tinha como base 3 princípios-chave: respeito, ação e justiça. No formato presencial e no contexto pós-pandemia esses princípios permanecem os mesmos, no entanto, as estratégias de engajamento mudaram. 

Para engajar é preciso respeitar a história, as vivências, culturas e contextos de seus estudantes. Eles precisam de olhares atentos e empáticos para quem eles são e estão se descobrindo ser. Todos nós gostamos e precisamos de afeto positivo. 

A observação e o acolhimento direcionarão você, professor (a), a agir a partir do que o seu aluno precisa e do que você pode oferecer enquanto profissional, com as limitações inerentes à profissão. Além disso, observar as atitudes dos alunos que geram efeito positivo e validá-las, bem como observar e intervir em atitudes que geram efeitos negativos para eles mesmos e para quem está no ambiente escolar (e fora dele) são ações necessárias para o engajamento de alunos. Os estudantes querem ser vistos e precisam de influências e orientações positivas. 

O princípio da justiça norteia os outros dois princípios: o de tratar o aluno com equidade e equilíbrio. Como exemplo disso, vamos supor que José é um aluno muito desatento na sua aula e vez ou outra conversa muito e acaba por atrapalhar o andamento das atividades. Maria é uma estudante dedicada e atenta. Você está na sala de aula, faz as explicações e naquele dia José se comportou bem. Na hora da resolução de problemas, Maria pede para sentar em dupla com uma amiga. Você autoriza. José vendo aquela situação também pede, você diz não. José não entende aquela situação, argumenta e fica muito chateado. 

Qual seria a melhor forma de resolver essa situação? Dizer “não” foi o correto naquele momento por todos incômodos que ele provocou anteriormente? Ou será que essa atitude foi injusta com ele, já que foi permitido para a outra estudante? Será que nós, professores, poderíamos resolver os conflitos com os estudantes e dar novas oportunidades? Como será que o José se sentiu e qual foi o efeito dessa atitude em seu engajamento?

São perguntas e reflexões, longe de julgamentos ou rótulos. A ideia aqui é provocar pensamentos e ações que coloquem o estudante em um lugar de acolhimento, para que ele se sinta motivado, interessado, engajado. Mas também sabemos das dificuldades de ser professor(a) e como o desengajamento dos nossos estudantes pode provocar a nossa desmotivação, por isso, elencamos algumas dicas para te auxiliar:

Utilize a tecnologia ao seu favor quando possível. Se na escola tiver sala de informática ou chromebooks, por que não pedir que eles façam uma pesquisa ou joguem jogos pedagógicos? O KhanAcademy é uma dica ☺

Utilize o cotidiano deles para ensiná-los. Se você é professora de matemática, utilize a tabela de um campeonato de futebol para trabalhar números inteiros, tabulação, gráficos ou outros conteúdos. Pergunte a eles o que eles mais gostam de aprender ou saber. Coloque o nome deles e as situações trazidas nas questões e problemáticas. 

– Já conhece a gamificação? Por que não tornar a sua aula um jogo de videogame com etapas, fases, pontuações e linha de chegada?

– Crie combinados com eles e traga consequências caso não sejam cumpridos. Aja com justiça quando necessário.

– Envolva os seus alunos nas atividades propostas. Distribua funções e tarefas, designe monitores, trabalhe com grupos e escolha os componentes de forma estratégica. 

Por fim, compartilhe com os seus colegas de profissão o que está funcionando e o que não está, caminhar junto deixa o caminhar mais leve e potente.

Referências: 

UNICEF. “Educação brasileira em 2022 – a voz de adolescentes”. 2022. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/media/20186/file/educacao-em-2022_a-voz-de-adolescentes.pdf

SHIRLEY, Dennis; HARGREAVES, Andy. Cinco Caminhos para o Engajamento: Rumo ao Aprendizado e ao Sucesso do Estudante. Penso Editora, 2022.

GUALTER, Letícia Rodrigues Dumont. Gamificação, engajamento e aprendizagem na educação básica. 2022.

compartilhar

Relacionados

Educação contra o discurso de ódio

Educação contra o discurso de ódio. Guia prático para combater o discurso de ódio na sala de aula – por Júnia Bicalho (…)

Estudantes curiosos, professores estimulados

Estudantes curiosos, professores estimulados: o ensino por Investigação na construção de aulas instigantes – por Marina Queiroz (…)

A importância do acolhimento de educadores no início do ano letivo

A importância do acolhimento de educadores no início do ano letivo – Como acolher os professores no início das atividades pedagógicas? (…)

Encontrou o que precisava?