O processo de ensino-aprendizagem e a adaptabilidade

Sobrevivência, ensino, flexibilidade, ensino-aprendizagem… O que uma coisa tem a ver com a outra?

Por meio de estudos com animais, a ciência já comprovou: a exposição ao novo e inesperado proporciona novos conhecimentos. Quando ratinhos foram expostos ao mesmo circuito repetidamente, em pouco tempo se conformaram a ele e, se expostos a outro modelo, não conseguiam prosseguir. Em comparação, outros ratinhos, expostos a diferentes meios e caminhos, facilmente se adaptam para sair de determinada situação. Qual dos processos de “ensino-aprendizagem” parece mais efetivo nesse caso?

Quando pensamos na natureza, é importante considerar o impacto que essa observação tem. Se um animal selvagem não se expõe ao novo, dificilmente consegue se adaptar a situações de perigo. Esse é o princípio que usamos para dizer: tentar coisas novas, apesar de às vezes ser assustador, é necessário! A flexibilidade, portanto, deve ser marca importante na vida de estudantes e professores.

Apesar disso, sabemos que nem sempre esse é um processo tranquilo. Sair da zona de conforto, como o próprio nome indica, não é confortável! A ideia de que tentar o novo pode trazer insucesso às vezes causa muito medo, mas queremos te mostrar como é importante valorizar o processo de ensino-aprendizagem, mais do que o resultado em si.

Vamos pensar sobre o seu primeiro ano como educador? Pode ser que isso tenha sido há muitos anos, ou talvez você esteja vivendo esse momento agora. Pense: será que você é o mesmo professor que era no começo? Quantos erros teve que cometer para chegar onde está hoje? E será que os erros acabaram? O certo é que, enquanto houver espaço para crescimento e aprendizagem, erros continuarão acontecendo. Falamos um pouco sobre isso nesse post, que contém o relato de uma professora em seus primeiros momentos como educadora.

O pesquisador Manu Kapur, especialista no estudo do tema de fracassos e seus impactos na aprendizagem, comenta que um ponto importante de atenção por parte dos educadores é “segurar” o impulso por ajudar o aluno imediatamente diante de alguma dificuldade que ele enfrenta. Passar por dificuldades e até mesmo falhar é parte fundamental do desenvolvimento dos indivíduos por meio do seu processo de ensino-aprendizagem.

Apesar disso, é preciso reconhecer os limites de cada um. Quando o desafio ou o “fracasso” é grande demais a ponto de causar frustração, quer dizer que o ponto saudável foi ultrapassado. Engajar seus alunos em atividades que incentivem-nos a ir além da zona de conforto é importante, mas respeitar os limites de faixa etária e conhecimentos prévios ajuda a sua condução a se manter em limites coerentes dentro do processo de ensino-aprendizagem. Isso nos lembra da Zona de Desenvolvimento Proximal de Vygotsky! O teórico, já há mais de 100 anos, atentava os educadores para as oportunidades de aprendizagem em contextos de desafios.

Nesse contexto, Manu Kapur desenvolveu o conceito de “falha produtiva”, fazendo referência a uma prática em que educadores poderiam propor exercícios e discussões difíceis a seus alunos. Enquanto se engajam no processo de descoberta de respostas, os estudantes podem cometer erros e, assim, desenvolver habilidades e adquirir conhecimentos mais profundos do que em uma aula simplesmente expositiva.

Você pode ter pensado na aprendizagem baseada em problemas, e você está no caminho certo! Essa estratégia está alinhada com a ideia de não oferecer respostas prontas aos alunos, o que, de acordo com as pesquisas abordadas, tem tudo a ver com uma aprendizagem mais ativa e efetiva. Falamos um pouco mais sobre isso nesse post!

Por fim, Manu pontua alguns cuidados: 

“O objetivo é projetar experiências que incorporem o fracasso de maneira segura e com cautela. Então, transformamos esse fracasso inicial em algo produtivo, intervindo, dando feedback e orientação aos alunos e ajudando-os a dar sentido ao material, reunindo-o em um todo mais coerente.”

O professor é referência, é ele o guia do processo. Como você tem trabalhado para que a sua sala de aula seja o espaço seguro para cometer erros que ele nasceu para ser? Esse é um ponto fundamental nas soluções da Curiós. Nós trabalhamos para ajudar o educador a construir essa sala de aula engajadora e acolhedora. Quer saber como? Mande uma mensagem! Vamos adorar te ouvir e apoiar 🙂

Referências:

Park, A.J., Harris, A.Z., Martyniuk, K.M. et al. Reset of hippocampal–prefrontal circuitry facilitates learning. Nature 591, 615–619 (2021). https://doi.org/10.1038/s41586-021-03272-1

Youki Terada por Edutopia. “If You’re Not Failing, You’re Not Learning”. Setembro de 2022. Disponível em https://www.edutopia.org/article/if-youre-not-failing-youre-not-learning 

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!