Como oferecer um ensino de qualidade?

O desafio de promover um ensino de qualidade e verdadeiramente significativo para todos os estudantes

Por Samuel Godinho

Um dos livros que mais me marcou enquanto professor em início de carreira foi a narrativa envolvente de Elizabeth Green sobre os desafios e possibilidades do ato de ensinar. Seu livro intitulado “Formando mais que um professor” não é dos mais lidos nas faculdades de educação pelo Brasil, provavelmente porque concentra sua análise no contexto dos Estados Unidos, uma realidade diferente em muitos aspectos. Porém, a forma como ela coloca em palavras os desafios mais corriqueiros de um professor iniciante – como fazer os estudantes escutarem, qual nível de amizade podemos estabelecer com eles, como alcançar a todos da mesma forma, a solidão da função, entre tantas outras questões – não se distancia muito da realidade de qualquer professor brasileiro que deseja encontrar a melhor forma de oferecer um ensino de qualidade aos seus estudantes. 

Uma das narrativas mais marcantes apresentada por Green é a de uma professora dos anos iniciais que se depara com a dificuldade de seus alunos em lembrarem o procedimento para resolver uma divisão, que haviam aprendido (pelo menos era o que ela pensava) na semana anterior. A professora então decide buscar orientação com seus colegas, testa novos métodos que estavam sendo desenvolvidos na universidade, observa aulas de outros professores e monta uma equipe docente que observa suas aulas e apresenta sugestões. Por fim, decide se especializar em matemática para apoiar seus alunos no componente que tinham mais dificuldade.

Ao se colocar na posição de aluna, estudando matemática mais a fundo, percebe que a matéria fica muito mais interessante à medida que é provocada a refletir, discutir, criar hipóteses e construir provas a respeito de problemas complexos, ao invés de simplesmente aprender fórmulas e algoritmos. Ao final, é essa experiência que viveu como estudante universitária que ela leva para suas aulas e, nessa mesma perspectiva, estimula crianças e adolescentes a refletir e argumentar. 

Entre os vários exemplos apresentados na obra, um me chamou mais atenção. Em uma sequência didática, a professora organizou alunos do terceiro e quarto ano para que apresentassem uma “Conferência sobre o Número Zero”. Nessa atividade, ela criou um contexto propício para que discutissem, criassem hipóteses e provassem se o número zero é par, ímpar ou “nenhum dos dois”. Desse modo, ela estimulou os estudantes a chegarem a conceitos por conta própria, sem simplesmente dizer “Zero é par” e esperar que todos decorassem a informação. Pode parecer que tempo está sendo perdido com essa atividade, mas, à medida que os colegas são incentivados a colaborar, pensar de forma crítica e criativa e comunicar suas ideias de forma clara, o ensino ganha mais sentido e a aprendizagem ocorre de fato. 

Em outro momento do livro, para embasar seu argumento de que um ensino de qualidade tem muito pouco a ver com a reprodução de passos aprendidos na escola, a autora cita uma pesquisa que havia avaliado a aprendizagem de crianças carentes brasileiras ainda no século XX. Ela menciona o exemplo de um adolescente que, ao vender 4 cocos que custavam 35 cruzeiros cada, era capaz de chegar ao valor total de 140 cruzeiros. Mas, quando confrontado com a operação 35 x 4 escrita em um papel, se confundia tentando lembrar o procedimento aprendido na escola e dava como resposta o número 200. Ou seja, ainda que o garoto fosse capaz de realizar o cálculo, o ensino ao qual teve acesso não tinha sido eficaz em fazê-lo compreender isso, ao contrário, o confundia. Nessa perspectiva, a criatividade do estudante para resolver a operação (dois cocos dá 70, mais um coco dá 105, mais 35, são 140) é completamente desprezada, ao invés de ser aproveitada em sala de aula.

Eu sei, para quem é professor há alguns anos, pode parecer que esse tipo de método de ensino focado em colaboração, comunicação, pensamento crítico e criatividade é difícil demais para ser executado nas salas de aula reais, com suas muitas demandas. E eu concordo, nem todos os métodos vão ser eficazes em todos os contextos, para todas as pessoas. Mas o amor pelo conteúdo ensinado e pelos estudantes são o nosso maior incentivo para aperfeiçoar a nossa prática. Afinal, se valorizamos o que temos a ensinar e gostamos verdadeiramente dos nossos alunos, não faz sentido insistir em métodos que sabemos, pela prática, serem incapazes de impactar a aprendizagem de todos eles. Nesse sentido, o professor tem um papel essencial para definir a melhor maneira de oferecer um ensino de qualidade para seus estudantes. 

Quando foi a última vez que você realmente testou um novo método de ensino na sua sala de aula? Da minha parte, eu tentei mudanças recentemente, e o que posso dizer é que a tentativa valeu a pena.

Quer ajuda pra começar essas mudanças? A Curiós está do seu lado. Mande uma mensagem e vamos inovar!

Referências:

GREEN, Elizabeth. Formando mais que um professor: a essência do ensinar e como impactar a aprendizagem de todos os alunos. São Paulo: Editora Da Boa Prosa, 2015.

RUHL, Joel. Teaching Methods for Inspiring the Students of the Future. TEDx Talks, 2015. Disponível em: <https://youtu.be/UCFg9bcW7Bk>. Acesso em 26 jan. 2023.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!