Revisitando o Ensino Híbrido

Perspectivas e reflexões sobre o ensino híbrido no cenário pós-pandêmico – Por Júnia Bicalho

Durante a pandemia de COVID-19, o termo “ensino híbrido” estava na ponta da língua de educadores, pais e alunos. No entanto, com o passar do tempo, parece que o entusiasmo em torno desse modelo de aprendizagem tem diminuído, sendo cada vez menos debatido dentro do cenário educacional. Será que esse modelo ainda é relevante no contexto  pós-pandemia? O que aprendemos com essa experiência e quais elementos desse modelo ainda são válidos? É sobre isso que vamos refletir no texto de hoje. Se o tema te interessa, vem com a gente!

  1. O que é o ensino híbrido?

Aqueles que estiveram envolvidos na área da educação durante a pandemia, certamente têm esse termo, juntamente com suas implicações, ainda bastante presente na memória, mas é válido revisitar o conceito central por trás do ensino híbrido. O documento “Diretrizes Gerais Sobre Aprendizagem Híbrida”, elaborado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e divulgado em 2021, caracteriza a aprendizagem híbrida como metodologia pedagógica flexível, ativa e inovadora, que integra atividades presenciais e não presenciais, com alternância em diferentes tempos e espaços, podendo ser parcialmente controlados pelos estudantes.

Em tempos de isolamento social, a possibilidade de desenvolver atividades da forma descrita acima foi fundamental para manter a continuidade da educação. O ensino híbrido introduziu novas formas de aprendizado, proporcionando flexibilidade e adaptabilidade. Apesar dos desafios, dos quais falaremos mais adiante, precisamos reconhecer que a implementação desse modelo de ensino em meio a adversidades trouxe consigo uma bagagem valiosa. Apresentamos a seguir alguns benefícios dessa metodologia que acreditamos ser relevantes e que devem ser explorados no contexto pós-pandêmico.  

  1. Benefícios:
  • Desenvolvimento de habilidades digitais: na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a competência geral nº 5 destaca a importância de os alunos compreenderem, utilizarem e criarem tecnologias digitais de forma crítica e ética. Ao mesclar estratégias de aprendizagem, o ensino híbrido introduz no cotidiano do estudante o contato com plataformas online, softwares educacionais e outras ferramentas, capacitando-o para o uso de recursos digitais de forma abrangente. Além disso, de acordo com Fikri et al (2023), o ambiente híbrido incentiva a colaboração online, o que pode ocorrer por meio de fóruns de discussão, projetos colaborativos ou plataformas de compartilhamento de documentos, por exemplo.  
  • Personalização do aprendizado: o ensino híbrido oferece possibilidades significativas de personalização. Os estudantes podem avançar no conteúdo de acordo com seu ritmo de compreensão, acessar recursos adicionais quando desejarem aprofundar-se em um tema e enfrentar avaliações online ajustadas automaticamente com base no desempenho em atividades anteriores. Mesmo em salas de aula maiores, o professor pode eficientemente promover essa particularização por meio de plataformas adequadas, tornando a adaptação do ensino uma prática acessível e ágil.
  • Maior autonomia e engajamento do estudante: de acordo com Caldeira e Vieira (2023), o processo de ensino-aprendizagem, seja ele presencial ou online, deve ser sempre centrado no estudante e o ensino híbrido fornece uma ótima oportunidade para que isso aconteça. O professor deve propor e conduzir as atividades, atuando como mediador, mas o aluno é responsável por gerenciar a execução das tarefas. Ainda, a variedade de recursos e abordagens que podem ser exploradas nessa metodologia mantém a aprendizagem mais dinâmica e interessante.

No entanto, esses benefícios estão atrelados aos desafios que surgem como consequência do uso dessa abordagem. Abaixo vamos listar dois deles, apontando caminhos para solucioná-los, considerando principalmente o contexto da educação pública brasileira. 

  1. Desafios e Soluções
  • Acesso à tecnologia: um dos maiores desafios relacionados ao ensino híbrido é garantir que todos os alunos tenham acesso à tecnologia. Disparidades socioeconômicas podem criar uma lacuna digital, excluindo alguns alunos do processo educacional. Para evitar que isso aconteça, é essencial que o professor conheça bem o contexto dos estudantes, entendendo quem tem acesso adequado a dispositivos e conexão à internet e quais atividades são possíveis de serem executadas pelos alunos quando estão fora da escola. Se constatado que a maioria não possui acesso, estratégias como trabalhos em grupo ou o desenvolvimento de recursos de aprendizado offline podem ser implementadas. Além disso, coordenadores e gestores, com o apoio da secretaria municipal, podem avaliar a viabilidade de criar espaços equipados com tecnologia, onde os alunos possam acessar aulas online ou realizar atividades digitais supervisionadas, caso não tenham os recursos em casa. 
  • Treinamento de professores: muitos educadores podem sentir-se despreparados para utilizar as ferramentas digitais de maneira eficiente, impactando a implementação do ensino híbrido. Para superar esse desafio, é importante que as secretarias forneçam treinamentos regulares para professores e que gestores e coordenadores estimulem mentorias entre pares, na qual profissionais mais experientes ajudam os demais. Dada a dinâmica acelerada da área, o estudo acerca das tecnologias digitais é um processo contínuo.
  1. Reflexões para escolas públicas

Considerando que todos os alunos tenham acesso aos recursos digitais e que professores sejam adequadamente treinados, ainda é necessário refletir sobre como o ensino híbrido pode ser uma ferramenta potente não só para adaptar trajetórias de ensino, mas também para questionar desigualdades sociais e preconceitos. De acordo com Fernandes e Mercado (2022), na sociedade multicultural e desigual em que vivemos, o caminho mais coerente em direção a uma educação democrática começa com o reconhecimento das desigualdades socioeconômicas e das questões ligadas à identidade e à diversidade enquanto elementos presentes nas escolas. É essencial enxergar os contextos locais e individuais. Nesse sentido, o ensino híbrido pode ser uma ferramenta transformadora, proporcionando não apenas igualdade de acesso, mas também promovendo inclusão e valorização da diversidade. Ao considerar as peculiaridades de cada comunidade escolar, é possível adaptar estratégias que atendam às necessidades específicas de estudantes provenientes de diferentes contextos, enriquecendo o ambiente educacional e contribuindo para a formação de cidadãos críticos e conscientes de sua própria identidade e papel na sociedade.

E então, será que o ensino híbrido ainda é relevante no contexto pós-pandemia? Com base no que discutimos ao longo desse texto, acreditamos que sim. Implementá-lo nem sempre é uma tarefa fácil, mas, dados os benefícios agregados ao processo de ensino-aprendizagem, essa é uma abordagem que deve continuar sendo explorada pelas escolas. 

Para enriquecer essa discussão, convidamos você a compartilhar suas experiências e opiniões sobre o tema! 

Referências:

BRASIL. Conselho Nacional de Educação (CNE). Diretrizes Gerais Sobre Aprendizagem Híbrida. Brasília: MEC, 2021.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.

CALDEIRA, E. M. V.; VIEIRA, F. M. S. As concepções de ensino híbrido na educação brasileira: uma revisão sistemática da literatura. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, p. e023094–e023094, 9 out. 2023.

FERNANDES, C. J. S. C.; MERCADO, L. P. L. Identidade, diferença e personalização no ensino híbrido. v. 24, n. 1, p. 113–132, 16 fev. 2022.

FIKRI, A. H. et al. Online Learning Models in The Era and Post-Pandemic COVID-19. Journal Of Education, Teaching and Learning, v. 8, n. 1, p. 45–45, 10 abr. 2023.

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