Estudantes curiosos, professores estimulados

O Ensino por Investigação na construção de aulas instigantes – por Marina Queiroz

Como instigar a curiosidade dos seus estudantes? Você concorda que quando os estudantes estão curiosos as aulas fluem melhor? E quando isso acontece, nós, professores, também ficamos mais motivados? 

E agora, eu te pergunto: Qual seria uma aula ideal para você, professor(a)?

Pense em uma aula com os estudantes perguntando sobre o tema, realizando pesquisas, colaborando com os outros estudantes, investigando o assunto abordado e construindo respostas. 

Nesse artigo, vamos abordar a metodologia do Ensino por Investigação. E não, esse método não é utilizado apenas nas aulas de ciências. Vamos desmistificar esse pensamento e mostrar que o Ensino por Investigação pode ser usado em qualquer área de conhecimento.

Sabemos que para uma boa aula acontecer muitas questões interferem. Desde fatores mais complexos, que envolvem a escola, a gestão escolar, a estrutura do ambiente escolar, o perfil dos estudantes, as condições socioeconômicas e os níveis de violência que envolvem a comunidade escolar, até fatores mais específicos, como o que aconteceu na aula passada, a temperatura, a dinâmica escolar e as relações entre os estudantes naquele dia, entre outros.

Todas as problemáticas citadas anteriormente têm um ponto em comum: você não consegue controlá-las. Mas, pensar em uma metodologia adequada e construir um plano de aula estruturado pode ser um caminho que está ao seu alcance. E, assim, proporcionar meios para uma aprendizagem significativa, que faça sentido e que coloque o estudante no centro do seu processo de aprendizagem.

O Ensino por Investigação envolve o questionamento e a busca por respostas para esses questionamentos levantados. No dicionário, investigação significa “averiguação sistemática de algo; inquirição, indagação, apuração” e é exatamente isso que esse método proporciona e estimula por intermédio da curiosidade.

Mas, o que é Ensino por investigação?

É uma metodologia ou abordagem didática em que a construção do conhecimento é permeada de perguntas, discussões entre os estudantes, escolha de evidências e hipóteses e diversos meios de encontrar respostas para o problema formulado na investigação. 

Essa abordagem movimenta os estudantes a pensarem, desenvolverem o raciocínio lógico, o pensamento crítico, a curiosidade e a criatividade. Os estudantes saem da passividade, das aulas somente expositivas, e se tornam protagonistas dos seus processos de aprendizagens. 

Entretanto, é preciso que haja um planejamento e que o(a) professor(a) seja mediador(a) desse processo, estando atento ao momento certo de indagar e direcionar, como diz Carvalho: “a diretriz  principal  de  uma  atividade  investigativa é o cuidado do(a) professor(a) com o grau de liberdade intelectual dado ao aluno e com a elaboração do problema” (DE CARVALHO; 2018, , p. 767). 

O grau de liberdade dado ao aluno refere-se justamente à mediação do(a) professor(a). É preciso que o estudante tenha espaço para errar, perguntar, questionar, participar e discutir com os seus pares, mas, tem o momento em que é preciso que haja o direcionamento de acordo com os objetivos daquela aula que estão presentes no plano de aula do professor(a).

Em relação à elaboração do problema, o Ensino por Investigação é uma metodologia que tem o problema como elemento central do processo investigativo. Geralmente, o problema é formulado através da investigação, hipóteses são pensadas, um plano de trabalho é construído, dados e evidências são obtidas através da pesquisa e conclusões são tiradas de toda a investigação. A depender do tema, pode haver modificações. O método direciona a construção do conhecimento, no entanto, as adaptações são necessárias a partir do contexto.

Vamos a um exemplo?

Ana é professora de história e o conteúdo de suas próximas aulas era a Idade Média e o Feudalismo, a abordagem didática escolhida foi o Ensino por Investigação. Ana preparou uma sequência didática de 4 aulas. Na primeira aula, a professora utilizou uma imagem de um feudo como o começo de toda a investigação, essa imagem estava projetada na parede, mas poderia ser de um livro ou de um quadro. 

Algumas perguntas brotaram da curiosidade dos estudantes: Que período é esse? O que está presente nessa imagem? Quem vive ali? Quem é aquele senhor perto do castelo? Como as pessoas se alimentam, sobrevivem? Como eram as relações de trabalho?

A partir de cada questionamento, hipóteses foram levantadas. Um estudante trouxe algo que fugiu muito do objetivo, a professora não trouxe respostas diretas ou evidenciou o erro, mas mediou e realizou outras perguntas que o direcionassem, permitindo que o estudante desenvolvesse o raciocínio e as inferências para pensar em outras hipóteses.

Na segunda e na terceira aula, após os questionamentos e as hipóteses, um plano de trabalho pôde ser construído: dividiu-se os estudantes em grupos, cada grupo ficou responsável por um problema para encontrar evidências e dados que confirmassem (ou não) as hipóteses utilizando os computadores da informática, livros da biblioteca e outras ferramentas de pesquisa, com a mediação da professora.

Na quarta aula sobre o tema, os estudantes fizeram uma roda, os grupos apresentaram o que eles conseguiram formular de respostas sobre os problemas e as hipóteses. Uma grande construção coletiva de conhecimento acerca do tema foi obtida e as conclusões geraram um enorme mapa mental sobre a Idade Média e o feudalismo. Tudo isso utilizando o Ensino por Investigação. 

Gostaram? Essa abordagem didática poderia ser utilizada nas cinco áreas de conhecimento presentes na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Utilizem a ferramenta, a criatividade e confiem nos seus estudantes ☺ ‍

E fica a dica! No podcast da Curiós você pode ouvir um episódio completo sobre esse tema. Clique no link e confira!

Referências:

Dicionário de Oxford, disponível em: https://languages.oup.com/google-dictionary-pt/

DE CARVALHO, Anna Maria Pessoa. Fundamentos teóricos e metodológicos do ensino por investigação. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, p. 765-794, 2018.

SASSERON, Lúcia Helena.Fundamentos Teórico-Metodológicos para o Ensino de Ciências: a sala de aula. Capítulo 12 – O Ensino por Investigação: pressupostos e prática. Disponível em: https://midia.atp.usp.br/plc/plc0704/impressos/plc0704_12.pdf

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!