Equidade na escola: para além da igualdade

Como tratar as diferenças e garantir oportunidades justas no ambiente escolar – por Juliana Ferro

Quando ouço ou leio a palavra equidade me vem duas coisas na cabeça. A primeira, a expressão “devemos tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade”, atribuída ao filósofo Aristóteles. A segunda, é um vídeo que circulou a tempo atraz de uma “corrida” em que só poderiam dar passos pessoas que se encaixavam no que era dito, por exemplo, “dê dois passos a frente se você nunca precisou ajudar seu pai ou sua mãe com as contas”. Lembra desse vídeo?

Para mim, a expressão e o vídeo abordam bem a temática da equidade, ambos trazem à tona a discussão principal quando estamos falando desse tema: a desigualdade. Pode ser que automaticamente a gente pense na palavra igualdade, que seria oposta a desigualdade, mas já sabemos que só dar oportunidades iguais não resolve.O vídeo mostra bem que por mais que pareça que estamos no mesmo ponto de partida, logo nossas diferenças vão nos distanciando ou aproximando do alcance de algo que se deseja.

A escola, normalmente, não se comporta com um ambiente que promove a equidade

A escola, portanto, acaba sendo uma amostra dessa falta de preocupação com a equidade. Colocamos todos os nossos estudantes em uma sala de determinado ano e partimos do princípio de que todos têm os mesmo conhecimentos prévios. Por exemplo, se estamos no primeiro ano do fundamental, imaginamos que todos já terão desenvolvido a coordenação motora suficiente para segurar o lápis, e essas suposições seguem até chegar ao final da educação básica.

Mas qual é o professor que nunca se surpreendeu com a defasagem em algum nível?

Esse susto inicial vem de pensarmos que todos vêm do mesmo caminho, ou da mesma base, o que em hipótese alguma é verdade. Algumas distâncias são maiores que outras. Não estou dizendo que temos que normalizar isso, mas é importante também entender que como diz a expressão de Aristóteles, precisamos tratar as diferenças de acordo com o tamanho que elas têm.

Para acrescentar em nossa conversa trago os achados da pesquisa feita por Soares (2005), em que autor apresenta resultados de um modelo analítico de medidas que favorecem a equidade tendo como base os questionários contextuais do SAEB. Entre elas estão:

Resultados de um modelo analítico de medidas que favorecem a equidade

Avaliações diagnósticas regulares: A implementação de avaliações que identificam as necessidades dos alunos para que se possa oferecer suporte adequado. Para a oferta de um auxílio personalizado é necessário entender o contexto. Quando tratamos de medidas para a promoção da equidade não tem como deixar escapar toda a análise de pontos anteriores ao cenário atual.

Programas de apoio: Intervenções direcionadas para alunos em situação de vulnerabilidade socioeconômica, como reforço escolar e acesso a materiais didáticos. A promoção de projetos adaptados que atendam necessidades específicas dos estudantes, bem como a promoção de discussões e apoio psicológico para lidar com as especificidades do público de cada escola são indispensáveis para diminuir as distâncias.

Conversamos em outro texto sobre as parcerias que a escola pode fazer com a comunidade e empresas locais para possibilitar essas ações.

Capacitação de professores: Formação contínua para que os educadores estejam aptos a lidar com a diversidade nas salas de aula. Esse ponto merece total atenção, estar atualizados e munidos de recursos para entender como lidar e direcionar de forma saudável nossas intervenções é fundamental para garantir a equidade em nossas escolas.

Políticas de inclusão: Ações que visam a inclusão de grupos historicamente marginalizados, como estudantes com deficiência ou de minorias raciais. Não podemos falar de equidade sem pensar em políticas públicas, essas asseguram a chegada de direitos a todos, independente das distâncias. Muito já foi conquistado, porém a luta por direitos ainda é uma luta real e necessária e super presente na escola.

Além dos pontos anteriormente elencados, cuidados com a infraestrutura e adaptação do currículo são fundamentais para garantir espaços acolhedores e que atendam a diversas realidades.

Gostou do texto? Compartilha com alguém que vai gostar de saber mais sobre equidade no ambiente escolar, aproveita e escreve para a gente sobre outros pontos que você acrescentaria para contribuir com a equidade em nossas escolas.

Referência bibliográfica:

SOARES, José Francisco. Qualidade e equidade na educação básica brasileira: fatos e possibilidades. Os desafios da educação no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, v. 1, p. 87-114, 2005.


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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!