As estantes de livro da sua escola são tudo o que podem ser?

5 maneiras de garantir que as estantes de livro contribuam para a inclusão

Fornecer “janelas e espelhos” para que os alunos possam se ver e serem expostos a novas realidades não é um conceito novo para os educadores. Mas, à medida que nos tornamos cada vez mais conscientes das muitas pessoas cujas histórias permanecem não contadas – e do efeito cascata que nossa ignorância coletiva tem na formação de nosso discurso e nossas prioridades culturais – vale a pena revisitar o que está nas estantes de livro das nossas escolas.

Que novas oportunidades existem para fazer com que os alunos se sintam mais incluídos e mais conectados ao que estão aprendendo na escola?

Realizar uma auditoria cuidadosa e focada nas estantes de livro da biblioteca escolar geralmente apresenta problemas, alguns deles difíceis de detectar à primeira vista. Alguns livros de Monteiro Lobato, por exemplo, apesar de muito conhecidos, precisaram ser revisitados por seu conteúdo que reforçava estereótipos negativos de pessoas negras.

Esses pontos cegos em nossas bibliotecas podem se traduzir em representações imprecisas e até prejudiciais dos diferentes grupos em uma sala de aula, isolando as crianças ou fazendo com que se sintam como estranhos. Livros que representam e honram a diversidade da sala de aula, no entanto, destacam a beleza e as realizações desses grupos em vez de empurrá-los para a margem ㅡ e dão aos alunos um vislumbre da vida de pessoas diferentes deles. Inclusive, falamos um pouco sobre a relação desse tema com as avaliações escolares nesse outro post.

“Os livros se tornam transformadores quando mudam nossas perspectivas, alteram nossas visões de mundo e aprofundam nossos relacionamentos com os outros”, escreve Kathryn Fishman-Weaver, diretora executiva da Mizzou Academy, uma escola de ensino médio on-line localizada na Faculdade de Educação da Universidade de Missouri, nos Estados Unidos.

Aqui estão cinco maneiras de auditar as estantes de livro das bibliotecas da sua escola para promover um ambiente de aprendizado que abrace a riqueza das identidades dos alunos.

1. Fazer um inventário de seus livros pode ser uma forma de começar. Avalie sua biblioteca enquanto faz algumas perguntas que abordam o tema da diversidade, por exemplo:

Quantos livros…

  • têm pessoas negras ou indígenas como o personagem central, em vez de um ajudante?
  • apresentam personagens LGBTQ?
  • têm personagens de destaque com diferentes habilidades físicas e intelectuais?
  • têm protagonistas que representam diferentes tipos de corpos?
  • têm personagens de origens familiares diferentes?
  • tratam sobre personagens encarcerados com dignidade?

Tente ir além da representação:

  • Muitos dos livros retratam mundos que são utópicos e sem problemas?
  • Os livros dependem muito de caricaturas ou promovem estereótipos prejudiciais?
  • Os papéis típicos de gênero são dominantes em toda a biblioteca?
  • As mulheres são frequentemente representadas como líderes poderosas ou como instigadoras de ação e mudança?
  • As heranças linguísticas e culturais são respeitadas?

2. Você, gestor, pode estimular os professores a examinarem de perto a biblioteca de sua escola, de modo a identificar o que está faltando em suas aulas. Um bom exercício pode ser um tipo de “bingo”, no qual os professores podem refletir juntos sobre os livros que leram e também sobre os livros que ensinam ou recomendam aos alunos.

A cartela de bingo, composta por quadrados que os professores podem preencher com os títulos de livros de um autor quilombola ou de um indígena, por exemplo, serve como catalisador para a discussão de experiências e visões de mundo que estão claramente ausentes do currículo.

3. Alguns textos que representam pessoas e contextos diversos retratam inadvertidamente esses personagens de forma negativa ou perpetuam sutilmente estereótipos negativos.

Evitar a inclusão insensível em sua biblioteca, portanto, requer levar em conta quem é o autor do livro, se o livro retrata os personagens de maneira afirmativa e autêntica – em vez de enfatizar demais a vitimização ou retratar os personagens como sem esperança – e se apresenta situações de uma maneira que é fiel à vida e relevante para a sociedade contemporânea. Um exemplo de literatura infantil culturalmente consciente é o “Black Power De Akin”, que conta a história de Akin e seu empoderamento na medida em que conhece suas origens.

4. Recrutar alunos para ajudar a reformar uma biblioteca é uma maneira direta de permitir que eles se apropriem de seu aprendizado e contribuam com suas perspectivas singulares.

Uma ideia interessante é deixá-los catalogarem os livros de acordo com suas percepções. Eles podem, por exemplo, criar categorias que façam sentido para eles, como autores indígenas, histórias sobre outros países, literatura africana, entre outros.

5. Apesar do número crescente de livros impressos e digitais disponíveis hoje, pode não haver histórias que reflitam a cultura, o idioma e a origem de todas as crianças. Essa é parte da razão pela qual você deve considerar complementar sua biblioteca com oportunidades para começar do zero, deixando que as crianças criem suas histórias.

Para crianças mais novas, considere o uso de instruções verbais e use fotos tiradas por elas para gerar histórias ou recontar eventos, escrevendo, desenhando ou falando em voz alta. Se possível, envolva suas famílias na elaboração das narrativas.

Depois de trazer livros mais diversos para sua biblioteca, é importante pensar em como aproveitar esses materiais e abordar questões de identidade, tolerância e diversidade humana à medida que o ano avança.

Uma maneira de garantir que os alunos aproveitem esses recursos é facilitar discussões abertas sobre as leituras. Para os alunos do ensino fundamental, a leitura em voz alta pode servir como uma ferramenta poderosa, especialmente quando abordam temas de interesse dos estudantes e da comunidade. Desenhe conexões com eventos da vida real sempre que possível. Ao ler um livro, você pode iniciar uma discussão sobre um protesto relacionado no bairro, por exemplo.

Para levar a conversa ainda mais longe, considere pedir aos alunos que examinem os textos de forma mais crítica. Peça-lhes que escrevam ou falem sobre uma situação ou um desafio da perspectiva de um dos personagens. Pergunte a eles: “Como você acha que esse personagem reagiria” a uma situação hipotética – ou peça-lhes que discutam se o livro foi “uma janela, um espelho, ou ambos”.

Por fim, considere atribuir uma leitura de sensibilização antes que os alunos mergulhem em textos que tenham contextos históricos específicos. Isso os ajudará a entender melhor o que o livro fala, além de ser uma ótima oportunidade de incluir temas das áreas de conhecimento à prática de leitura fora da sala de aula.

Essas estratégias podem revolucionar a sua escola, sua rede, a educação brasileira! Quer saber como a Curiós pode te ajudar nesse processo? Entre em contato!

Referências:

Edutopia, por Hoa P. Nguyen. “5 Ways to Audit Your Classroom Library for Inclusion”. Agosto de 2021. Disponível em: https://www.edutopia.org/article/5-ways-audit-your-classroom-library-inclusion

compartilhar

Relacionados

Metodologias ativas e inovadoras: uma ruptura do foco no ensino para o foco na aprendizagem

Como as metodologias ativas podem ser utilizadas para garantir um processo de ensino-aprendizagem mais engajante e significativo? por Joice Andrade       Quadro e giz, (…)

Educação no campo: saberes da terra, vozes do Serrote

Por Lucas Sobreira  No Serrote do Urubu, uma comunidade rural nos arredores de Petrolina, sertão do São Francisco, a educação pulsa entre as pedras, (…)

ATUAÇÃO DOCENTE EM MÚLTIPLAS ESCOLAS:

ATUAÇÃO DOCENTE EM MÚLTIPLAS ESCOLAS: O QUE ISSO REVELA SOBRE A REALIDADE BRASILEIRA? por Lucas Kauan N. De Santana No Brasil, a atuação docente (…)

Encontrou o que precisava?

Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!