A formação de professores para uma cultura digital com pensamento crítico é simultaneamente uma necessidade e um desafio
Nós já falamos aqui na Curiós sobre a importância de incluir temas ligados à tecnologia e inovação na formação de professores e professoras, seja ela inicial ou continuada. Afinal, não é possível falar de educação no século XXI, sem considerar os avanços do mundo digital. Nessa perspectiva, o historiador Yuval Noah Harari, entre as suas “21 lições para o século XXI”, defende que “[…] a última coisa que um professor precisa dar a seus alunos é informação. Eles já têm informação demais. Em vez disso, as pessoas precisam de capacidade para extrair um sentido da informação, perceber a diferença entre o que é importante e o que não é, e acima de tudo combinar os muitos fragmentos de informação num amplo quadro do mundo” (HARARI, 2018, p. 322). Porém, será que todos os professores estão preparados para educar nesse contexto?
Para Lúcia Dellagnol, diretora presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB), a resposta é “não”. Ela é categórica ao dizer que “Quando você pergunta [aos professores e professoras] como eles usariam os recursos tecnológicos para ensinar ou avaliar os alunos, para fazer uma curadoria de recursos educacionais digitais, eles dizem abertamente que não receberam formação e não sabem fazer isso”. E complementa dizendo que “a maioria dos professores diz que não sabe utilizar a tecnologia para o seu próprio desenvolvimento profissional, ou seja, para fazer cursos on-line ou autoavaliação on-line”. É evidente que muitos docentes estão aptos a utilizar tecnologias digitais em suas aulas de forma inovadora e, tantos outros, já contribuem nesse processo de formação para o mundo digital, ensinando seus estudantes a “extrair um sentido da informação”, como defendido por Harari. Porém, o que as pesquisas mais recentes indicam é que professores com essa qualificação ainda não são a maioria no Brasil.
Uma boa notícia é que muitas redes de ensino têm se esforçado para oferecer formações sobre a temática de tecnologia, ainda que esse processo esteja acontecendo de forma desigual entre as redes país afora. Segundo Lia Glaz, diretora presidente da Fundação Telefônica Vivo, 78% das redes de ensino reconhecem “a oferta de mais formações em tecnologia e computação para os professores” como uma prioridade para os próximos anos. Mas será que os professores e professoras estão abertos a aprender sobre esse tema?
Segundo o relatório “Consensos e dissensos sobre alinhamento à BNCC” os próprios docentes brasileiros consideram que entre as Competências Gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), as mais difíceis de implementar são “Cultura Digital” e “Pensamento Científico, Crítico e Criativo”, ou seja, aquelas mais essenciais para “combinar fragmentos de informação” de forma consciente e coerente no século XXI. O estudo do Instituto Reúna traz a percepção de um gestor escolar de Minas Gerais que ajuda a ilustrar o cenário, ele diz: “Tecnologia ainda é um campo difícil de se trabalhar. Alguns professores são resistentes, e a falta de recursos de alguns alunos ainda é um entrave para chegar nessa cultura digital”.
Nesse sentido, a formação de professores brasileiros (inicial e continuada) pode ser melhorada, mas precisa que os agentes da educação estejam abertos a conhecer e utilizar novas ferramentas em sala de aula, como também fora dela, para o seu desenvolvimento pessoal e profissional. E mais, é essencial que docentes e gestores educacionais saibam filtrar informações no mundo digital e ensinem seus estudantes a avaliarem as informações de forma crítica. Nessa perspectiva, um primeiro passo seria reconhecer que a formação para o mundo digital é uma necessidade contemporânea e que, por isso, o uso de tecnologia na educação torna-se essencial. O segundo, talvez, seja encarar as ferramentas e recursos educacionais digitais como aliados e não como um peso na rotina escolar. Inclusive, muitos desses recursos já estão amplamente difundidos pelas redes de ensino do país, como o uso de PowerPoint para fazer apresentações e do Google Formulário para questionários.
Um outro passo que pode ser dado pelos profissionais da educação é o de experimentar autonomamente o uso de ferramentas digitais interativas no contexto escolar. Você pode começar procurando por vídeos online em que ferramentas como Kahoot!, Mentimeter, Trello, Plickers, Padlet ou Khan Academy são usadas em sala de aula para se inspirar. Além disso, você pode assistir a documentários que abordam questões mais profundas sobre tecnologia para entender como esse assunto é relevante e não pode ser deixado para depois. Nesse sentido, dois filmes interessantes são Privacidade Hackeada e O Dilema das Redes. Independente da abordagem que você escolher e do foco que decidir dar, o essencial é começar a atualizar a sua prática, com o objetivo de atender às necessidades mais urgentes do mundo em que estamos vivendo. Comece simples, mas comece!
Se precisar de uma ajudinha pra dar esse primeiro passo, não hesite em chamar a Curiós! Estamos aguardando sua mensagem 😉
Referências:
British Council Brasil. Panorama de educação STEM no Brasil [livreto eletrônico]: reflexões sobre a análise de dados e documentação bibliográfica/ British Council Brasil, Fundação Carlos Chagas. UNBEHAUM, Sandra.; GAVA, Thaís M.; ARTES, Amélia. – 1. ed. – São Paulo, SP : British Council. Brasil, 2023. Disponível em: <https://drive.google.com/file/d/1wcSLgJ9Sx0a635U7j6DoE4rxdgXPmV8s/view>. Acesso em 18 mai. 2023.
Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB). Tecnologias digitais nas escolas municipais do Brasil: cenários e recomendações. CIEB, Fundação Telefônica Vivo, UNDIME, Iede. 2023. Disponível em <https://www.fundacaotelefonicavivo.org.br/wp-content/uploads/pdfs/Pesquisa_TecnologiasDigitais.pdf>. Acesso em 18 mai. 2023.
HARARI, Yuval Noah. 21 lições para o século XXI; tradução Paulo Geiger. – 1a ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
Instituto Reúna. Relatório Consensos e dissensos sobre alinhamento à BNCC. Instituto Reúna, Movimento pela Base, Cenpec, Fundação Lemann, Imaginable Futures. 2021. Disponível em: <https://biblioteca.institutoreuna.org.br/Pesquisa_Consensos_e_Dissensos_do_Alinhamento_%C3%A0_BNCC.pdf>. Acesso em 18 mai. 2023.
