Inteligência emocional e desinteresse: uma abordagem intencional
A Base Nacional Comum Curricular, conhecida como BNCC, trouxe um foco maior para a educação integral e para o protagonismo juvenil como elementos importantes para a educação do século XXI. E, apesar das grandes discussões sobre como implementar e efetivar esses paradigmas educacionais, uma questão comum costuma se tornar latente nesse cenário, que é o desinteresse dos estudantes pela escola e pelos estudos. Em pesquisa realizada em 2022 com professores de diferentes estados do Brasil, esse foi o principal desafio apontado por eles em seu dia a dia (31%) (Todos pela educação et al., 2023). Além disso, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2022, o segundo maior motivo para o abandono escolar é a falta de interesse em estudar (24,7%). Assim, partindo tanto da voz do professor quanto da do estudante, a inteligência emocional e o desinteresse é uma problemática presente.
Mas você pode estar se perguntando o que educação do século XXI, desinteresse pelos estudos e inteligência emocional tem a ver. Atualmente, é recorrente ouvir sobre a importância da aprendizagem socioemocional para a formação dos estudantes, sobre como eles estão adoecidos e necessitam de acolhimento e espaço para trabalhar suas emoções. Porém, quando levamos essa conversa para o ambiente escolar e para os professores, percebemos os desafios envolvidos em promovê-la na prática. É comum ouvir frases, como, por exemplo, “os alunos não irão ligar para isso” ou “eles irão debochar desse tipo de coisa”. Ou seja, o desinteresse pode ser visto como um entrave para o trabalho com inteligência emocional.
A inteligência emocional é a capacidade de lidar com informações de caráter emocional. “Salovey e Mayer especificam suas quatro principais ramificações: a capacidade de perceber e expressar emoções, a capacidade de facilitar ou raciocinar sobre emoções, a capacidade de compreender emoções e, por fim, a capacidade de regular emoções”. (Instituto Ayrton Senna, eduLab21, 2023)
Dessa forma, o intuito deste texto é mostrar o contrário. É trazer a possibilidade de usar a inteligência emocional como uma ferramenta para “quebrar” tal desinteresse. Para isso, será apresentado um plano de aula, a partir do qual a inteligência emocional será trabalhada dentro da seguinte habilidade da BNCC:
“(EM13LP19) Apresentar-se por meio de textos multimodais diversos (perfis variados, gifs biográficos, biodata, currículo web, videocurrículo etc.) e de ferramentas digitais (ferramenta de gif, wiki, site etc.), para falar de si mesmo de formas variadas, considerando diferentes situações e objetivos”
(BRASIL, 2017).
Objeto de conhecimento: Textos biográficos.
Objetivo geral: Compreender quais elementos estão envolvidos na produção de um texto biográfico.
Objetivos específicos:
- Compreender o objetivo de um texto biográfico.
- Identificar tipos de texto biográficos.
- Identificar como a inteligência emocional perpassa a construção biográfica.
Estruturação da aula:
Após o acolhimento dos estudantes e apresentação do objetivo da aula, exponha um gif biográfico para introduzir esse tipo de texto. Gif biográfico é uma imagem animada que traz os principais momentos da vida de uma pessoa conhecida, como um artista ou um político. Se possível, escolha uma pessoa conhecida pelos alunos para que os processos de identificação e compreensão sejam mais naturais. Em uma busca rápida, dá para encontrar desde gifs biográficos de políticos até de artistas internacionais. A partir disso, construa junto com os estudantes o objetivo de um texto biográfico. Com esse ponto desenvolvido, apresente alguns textos biográficos em outras modalidades e suportes para que os estudantes percebam a versatilidade desse gênero textual, de acordo com seu contexto de comunicação.
Em sequência, de modo a motivar os estudantes a refletirem sobre os elementos relevantes para a produção de uma biografia, exiba o “TEDx TALKS” da Chimamanda Ngozi Adichie sobre “O perigo de uma história única”. O intuito aqui é mostrar como a construção biográfica envolve a mobilização da inteligência emocional, em especial quando autobiográfica. Afinal, contar sua própria história implica em voltar ao passado e resgatar suas memórias, que podem estar permeadas por sentimentos e emoções distintas. Algumas lembranças podem, por exemplo, ser dolorosas e estressantes, enquanto outras podem ser felizes e energizantes. Saber lidar e selecionar quais são mais significativas para contar quem é você demanda exatamente compreender e regular as nossas emoções até para poder expressá-las, já que uma história biográfica não é apenas um conjunto de fatos da vida de alguém, mas também a essência deles, o impacto que eles geram na pessoa objeto da biografia e naqueles que conhecem a história.
Ao final da aula, como forma de verificação, solicite aos estudantes que escrevam em seus cadernos três elementos importantes, caso fossem escrever sua autobiografia. Após, peça que alguns alunos compartilhem os elementos que selecionaram.
A intenção desse plano de aula é trazer a possibilidade de trabalhar com a inteligência emocional de maneira articulada com as habilidades previstas na BNCC e/ou no currículo de onde você trabalha. Abordá-la de forma indireta, mas intencional e aplicável, pode ser a força motriz para tirar seus alunos da inércia.
Nem sempre em uma primeira tentativa vai funcionar e fluir da forma como você planejou, mas com o tempo os alunos podem se sentir mais confortáveis para se abrir e participar. Não se esqueça de que a inteligência emocional não é uma temática que consegue ser desenvolvida em uma aula só, mas que deve ser exercitada continuamente, afinal, reconhecer, compreender, raciocinar e regular nossas emoções não são tarefas fáceis, são, na verdade, um processo.
Dessa forma, professor, sempre que estiver diante de uma habilidade em que a inteligência emocional possa ser explorada, promova esse momento com seus estudantes. É importante trazer uma abordagem direcionada e específica para ela, até para que faça sentido para seus alunos. Nada impede que uma aula seja dedicada a ela, mas ela pode vir associada ao trabalho de alguma outra habilidade, sem por isso perder seu valor. Se quiser trazer algum comentário ou experiência, ou até mesmo pedir ajuda, entre em contato com a gente!
Referências:
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 27 ago.2023.
Competências socioemocionais e emocionais da criança dos anos iniciais do ensino fundamental. Instituto Ayrton Senna. Disponível em: https://institutoayrtonsenna.org.br/app/uploads/2023/05/competencias-socioemocionais-e-emocionais-da-crianca-dos-anos-iniciais-do-ensino-fundamental.pdf. Acesso em: 27 ago. 2023.
