Inteligência emocional no trabalho do professor

Estimular a inteligência emocional para quem trabalha na sala de aula por Jaqueline Novoletti

Em 2005, 55,9% dos empregados em Vitória da Conquista apresentaram distúrbios psíquicos (REIS ET AL.). No ano de 2009 40% dos profissionais de São Paulo apresentaram queixas quanto à sua saúde mental (FERREIRA-COSTA e PEDRO-SILVA). Uma pesquisa entre os meses de junho e julho de 2018 revelou que cerca de 66% se afastaram do trabalho por questões de saúde (CNTE). Os três percentuais acima descritos tratam da mesma profissão: professores.

Sabemos da importância de levar para a escola temas relacionados à saúde mental e emocional, de modo a trabalhá-los de maneira transversal com os estudantes. Mas, falando especificamente da inteligência emocional no trabalho do professor, Diehl e Marin, no artigo Adoecimento Mental em Professores Brasileiros, alertam que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) considera a profissão docente  uma das mais estressantes e que, enquanto encarada como sinônimo de atividade desgastante, repercute na saúde física, mental e no desempenho profissional de quem leciona, afetando assim a saúde da escola como um todo. 

Classes muito numerosas, insatisfação nas relações interpessoais, desmotivação e desvalorização do trabalho e falta de tempo para lazer e descanso, somados à jornada de trabalho extensa, são apontadas como possíveis causas para o estresse no trabalho docente.

Portanto, o foco deste artigo é trazer para a pauta a preocupação com quem é cobrado por levar o tema para a sala de aula, afinal,  a educação emocional tem grande relevância, primeiramente, por permitir que docentes compreendam suas emoções. É fundamental abordar a inteligência emocional no trabalho do professor!

1. A escola enquanto ambiente antiemocional

É notório que a discussão sobre saúde emocional é recente, visto que as emoções sempre foram socialmente reprimidas e tiveram sua relevância minimizada. O estudo da Professora Dra. Francisca Alexandre de Lima, da Universidade Federal da Paraíba, sobre formação docente e educação emocional sustenta que tais repressões refletem também no ambiente escolar. Paradoxalmente, a educação básica deveria ser justamente o tempo e espaço em que estudantes pudessem ser educados emocionalmente.

A Professora Francisca nos chama a atenção para o fato de assumirmos papéis sociais em nossa cultura nos vários espaços que ocupamos. Segundo ela, isso pode nos afastar de nossas emoções, gerando dualidade entre as regras que devemos seguir dentro desses papéis e o que verdadeiramente sentimos. A partir disso, a professora, formula a hipótese de que, por essas razões, ideias como “um bom professor não deve ficar de conversa com estudantes” são disseminadas. 

Desse modo, de acordo com Francisca, esconder sentimentos tem o potencial de gerar afastamento nos docentes, podendo assim justificar a tomada de decisões de forma isolada, ações sem comunicação com o outro e distância das relações escolares.

2. Como lidar com o cenário?

Pensando em tangibilidade e mudanças que estão de fato ao alcance das equipes escolares, algumas ações podem auxiliar na promoção de cuidados aos profissionais da educação. Gonser traz algumas delas:

  • Dar aos professores pausas reais: O sistema “tap-in/tap-out”, praticado numa escola em Nashville, nos EUA, permite que os docentes chamem um colega, via mensagem, para que possam sair da sala por alguns minutos em situações de estresse. Tal método estimula e normaliza que professores peçam ajuda uns aos outros e que não precisam agir feito “super-heróis”.
  • Parar de olhar para o relógio: Tendo em vista ser inegável que professores dedicam-se antes, durante e após às aulas, é importante ter flexibilidade ao monitorar as horas de trabalho e o tempo gasto na escola, possibilitando que algumas atividades possam ser feitas em casa. Sabemos que essa mudança envolve flexibilidade também por parte da gestão escolar e, às vezes, até da secretaria de ensino e da diretoria, mas vale a reflexão!
  • Check-ins regulares e informais: Checagens rápidas, ainda que na porta da sala de aula, mostram a importância dada aos docentes pela gestão e coordenação pedagógica ao reservarem tempo para ouvir os professores e entender como têm sido as demandas.
  • Acordos compartilhados: Não enviar mensagens e/ou e-mails após um horário combinado e nos fins de semana incentiva que de fato os professores estabeleçam limites para o trabalho.

Renata Ishida pontua ainda a importância de um “espaço de cuidado para os educadores, com formação, acolhimento e condições saudáveis para exercer o trabalho”. Esse espaço dedicado para que não só estudantes, mas também professores e funcionários sejam escutados, é uma das medidas para lidar melhor com as questões socioemocionais e garantir que a inteligência emocional no trabalho do professor seja contemplada.

Além disso, Ishida traz alguns pontos a serem planejados no ambiente escolar:

  • Ter uma ou mais pessoas responsáveis pelas questões de saúde mental na escola: na hipótese de ausência de profissionais da psicologia, é preciso selecionar alguém para receber uma formação específica e que possa ser referência no ambiente escolar. Assim, é fundamental que todos os agentes da escola tenham ciência do profissional de referência – tanto para sanar dúvidas, quanto para encaminhar alguma situação específica
  • Mapear serviços e recursos disponíveis e manter os contatos desses serviços em fácil acesso: Unidade de Pronto Atendimento; Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi); Conselho Tutelar; Unidade Básica de Saúde; Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, Bombeiros, além de outras pessoas e estabelecimentos. É importante, ainda, definir os contatos para situações de emergência e não emergência.

3. Lidar com o cenário não significa perder de vista as mudanças estruturais

Por fim, é necessário ressaltar que muitas questões debatidas aqui são problemáticas que dependem de transformações sistêmicas do trabalho dos professores –  melhores salários, menores cargas horárias de trabalho, valorização da profissão docente, formação continuada que contemple a inteligência emocional, além de benefícios e incentivos que promovam o acesso dos professores a atendimento psicológico constante.

Cuidar e se preocupar com a saúde de quem convive e interage com nossos estudantes é de fato valorizar a promoção de um espaço de aprendizagem saudável, racional e emocionalmente.

Caso queira continuar essa conversa, estamos à disposição! Vamos adorar falar com você e ajudar a fazer da sua escola um ambiente mais emocionalmente saudável.

Referências: 

CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação. 66% dos professores já precisaram se afastar por problemas de saúde. Ago/2018. Disponível em: https://cnte.org.br/index.php/menu/comunicacao/posts/cnte-na-midia/66178-66-dos-professores-ja-precisaram-se-afastar-por-problemas-de-saude

Diehl, A.; Marin, A. H. 2016. Adoecimento Mental em Professores Brasileiros: Revisão Sistemática da Literatura. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, 7(2): 64-85.

Ferreira-Costa, R. Q.; Pedro-Silva, N. Níveis de ansiedade e depressão entre professores do Ensino Infantil e Fundamental. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pp/a/prLXmmdXG3hdQWTSBgm6JZD/#

Gonser, S. Schools, Not Teachers, Must Reduce Stress and Burnout—Here’s How. Disponível em: https://www.edutopia.org/article/schools-not-teachers-must-reduce-stress-and-burnout-heres-how 

Lima, F. A.; Carneiro, D. G. B.; Pereira, R. T. Formação Docente e Educação Emocional. Disponível em: http://www.srna2014.ufba.br/modulos/submissao/Upload-222/60170.pdf

Oliveira, R. O papel da gestão escolar diante das questões socioemocionais. Disponível em: https://porvir.org/o-papel-da-gestao-escolar-diante-das-questoes-socioemocionais/?utm_campaign=newsletter_3922_-_matific_-_outros__v2&utm_medium=email&utm_source=RD+Station 

Reis. E. J. F. B.; Martins, F.; Araújo, T. M.; Porto, L. A.; Silvany Neto, A. M. Trabalho e distúrbios psíquicos em professores da rede municipal de Vitória da Conquista, Bahia, Brasil. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csp/a/7PMLCfPCGB77SwTVkFfKd9F/#

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!