Como as escolas preparam hoje os líderes para o futuro?
Como a juventude tem sido trabalhada em textos acadêmicos e projetos de políticas públicas no Brasil? Seu papel tem sido de protagonista ou de objeto dessas ações? Foi com o objetivo de responder essas perguntas que o British Council sistematizou um relatório com as observações a partir do estudo sobre juventude e políticas públicas no Brasil e a formação de lideranças.
As principais conclusões do estudo nos dão importantes indicativos sobre o papel da educação na formação de jovens e adultos comprometidos com a transformação social.
1. Jovens como sujeitos de direitos
Até o ano 2000, a maioria das políticas públicas que abordavam o público jovem os entendia como “objeto de direitos”. Isso significa que, até esse momento, era raro olhar para a juventude como mais do que objeto de intervenção.
Diante das transformações globais e nacionais ao longo da virada do século, passou-se a identificar o jovem como sujeito de direitos. Ou seja, como sujeito ativo de transformação. Nesse sentido, predomina também a visão da educação como ponto focal de origem dessa transformação, sendo essa a área que mais recebe investimentos por associações e instituições filantrópicas.
2. Desaceleração da pauta
O relatório continua com um dado importante:
“No censo do GIFE (associação de investidores sociais do Brasil), até 2018, havia uma categoria própria voltada para jovens, a saber: “Formação de jovens para o mercado de trabalho”. Após 2018, a categoria desapareceu. Isso indica como o tópico desacelerou, tanto no nível governamental quanto no não governamental.” (pág.10)
A despriorização da temática trouxe novos desafios às organizações que trabalham com o público jovem. As organizações participantes do estudo comentam sobre a dificuldade nesse período de obter e realizar investimentos, além da importância de serem próximas umas às outras a fim de debaterem as melhores formas de enfrentamento por meio da troca de experiências.
3. Nova fase de crescimento
Nesse contexto, desde 2019 observou-se um esforço para elevar novamente a agenda. No âmbito do British Council, realizador do estudo, foi criado o “Pacto das Juventudes pelos ODS” com o objetivo de incentivar e priorizar a pauta.
Nas entrevistas feitas às organizações, um ponto fundamental de fomento da nova fase ao público é com relação à formação e capacitação dos jovens líderes. Alinhado a isso, o uso de novas tecnologias combinadas a atividades presenciais contribui tanto para o engajamento quanto para o senso de pertencimento e acolhimento dos jovens.
A educação vem em linha com esse debate. É por meio dela que podemos administrar de forma mais ativa e efetiva as juventudes do Brasil, trazendo-as para o centro das discussões e processos decisórios. A educação anda lado a lado com o tema de juventude e políticas públicas no Brasil para a formação de lideranças.
O relatório em questão continua seu desenvolvimento apresentando marcos importantes para a temática no Brasil. Alguns deles são a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990, a criação do Conselho e do Programa Nacional da Juventude (Projovem) em 2005, a promulgação da Emenda Constitucional nº 65, aprovada em 2010 pelo Congresso Nacional, e a aprovação do Estatuto da Juventude, a partir da Lei 12.852 de 2013.
Todas essas iniciativas mostram o progressivo reconhecimento do papel da juventude na sociedade. Falar de futuro é falar dos jovens, e falar de jovens é falar de educação.
“Segundo a pesquisa de opinião pública realizada em 2016 pela Secretaria Nacional de Juventude, 91% dos jovens disseram acreditar que eles são capazes de mudar o mundo. Na mesma linha, 44% acreditam que o Brasil vai melhorar nos próximos anos e 54% consideram a política algo muito importante. Para os especialistas no tema das juventudes, os jovens dispõem de uma percepção naturalmente mais otimista sobre o futuro e as oportunidades vindouras do que a população mais velha. No lado oposto, apesar de reconhecerem a política como algo muito importante, 39% dos jovens responderam que não se envolvem/não gostam de política.” (pág. 17)
Em ano de eleições, como 2022, o relatório traz um dado extremamente importante: a queda gradativa na emissão de títulos eleitorais entre 16 e 17 anos. Segundo o TSE, “em 2002 o percentual era de aproximadamente 3% do número total de eleitores, caindo para 1,5% em 2018.” (pág. 18)
A falta de interesse pela chamada “política clássica”, contudo, não condiz com um pensamento desatento a questões políticas no cotidiano. A maioria dos jovens, em pesquisa realizada pelo Datafolha ao longo das eleições de 2018, afirma ser ativamente engajado em ações políticas informais. Em complemento a isso, o uso da internet e das novas formas de comunicação é marca fundamental dessa geração, sendo também usada como forma de engajamento. Inclusive, temos um artigo bem interessante sobre esse tema, que você pode conferir aqui!
Quando observamos a escolaridade dos jovens, alguns sinais são visíveis:
- Em 2015, somente 76% dos jovens de 16 anos haviam concluído o ensino fundamental
- Em 2004, a média de permanência na escola de jovens entre 15 e 17 anos era de 7,1 anos e, em 2014, de 8,8 anos
- Entre 2004 e 2014, foi registrada uma queda de quase 1 milhão de matrículas no ensino médio
- Atualmente, aproximadamente 50% dos jovens não terminam o ensino médio
Com tantos desafios na educação, gerados especialmente por níveis elevados de pobreza e desigualdade social, é claro o impacto que se tem nas políticas públicas nacionais, que acabam enviesadas para suprir necessidades específicas consideradas mais urgentes, que não o despertamento de senso crítico. As políticas públicas voltadas à juventude e sua formação como líderes no Brasil fica em segundo plano.
Nesse contexto, a escola é estimulada a encarar seu papel de forma ampla e fundamental. A formação de crianças e jovens tem relação direta com o futuro que construímos e com o engajamento de cada um deles para a criação de uma sociedade mais empática, respeitosa e preocupada com o bem-estar coletivo. Nós entramos nessa “de cabeça”, e você? Vamos conversar? Mande uma mensagem e vamos somar forças!
Referências:
British Council. “Reflexões sobre juventudes e liderança para políticas públicas no Brasil”. Novembro de 2020. Disponível em: https://www.britishcouncil.org.br/sites/default/files/british_council_report_juventudes_port.pdf
