Autonomia e o desenvolvimento integral, práticas centradas na experiência e na descoberta – Juliana Ferro
Outro dia, observei a movimentação de entrada na creche. Crianças de 1 a 3 anos chegavam, algumas sorrindo, outras com sono. Algumas só deixavam o responsável ao ver sua “tia” preferida. A dinâmica continuou assim até que todos recebessem as crianças e as encaminhassem para suas salas. Contei isso para uma pessoa próxima, e ela comentou: “Eles são muito pequenos, eu realmente só colocaria meu filho lá se precisasse ir trabalhar!”.
Essa observação me levou a refletir sobre como a creche e, talvez, a educação infantil ocupam um espaço limitado ao acolhimento, servindo apenas como um local onde os pais deixam seus filhos. Esse pensamento remete ao início da criação desses espaços, quando as mulheres começaram a trabalhar fora de casa.
Embora, hoje, diversas pesquisas, como as de Da Silva, Monteiro e Rodrigues (2017), comprovem a importância da educação infantil para o desenvolvimento da criança, ainda precisamos avançar na forma como concebemos as práticas pedagógicas na educação infantil. E, quem sabe, desfazer essa impressão criada nos primórdios da associação da educação infantil a um viés assistencialista.
Aqui chegamos às metodologias ativas, que, apesar de terem ganhado popularidade recentemente, não são novas. Afinal, colocar o estudante no centro da aprendizagem e atribuir ao professor o papel de mediador do processo apareceu antes mesmo das proposições de Paulo Freire sobre “ler o mundo”, como discute De Brito (2020).
O conceito de metodologia ativa envolve autonomia. Os professores colocam os estudantes em situações que lhes permitem desenvolver conhecimentos e experiências que não estão exatamente “calculadas”.
Esse conceito está alinhado com a BNCC, que orienta a educação infantil com base em campos de experiências, como o reconhecimento de traços, cores, formas e sons; o eu, o outro e o nós; corpo, gestos e movimentos; escuta, fala, pensamento e imaginação; além dos campos de espaços, tempos, quantidades, relações e transformações.
Ao dividir os conteúdos em campos de experiências, pensamos na experimentação como um processo autônomo e individual de cada criança. Quem está envolvido com o contexto da creche deve proporcionar diferentes contatos que facilitem essa experimentação, levando em conta o desenvolvimento de cada campo de experiência.
Por exemplo, no dia 19 de abril, celebramos o Dia dos Povos Indígenas na creche que acompanho e realizamos uma experimentação com itens da cultura indígena. Exibimos temperos, alimentos, instrumentos de caça, e uma oca na área externa da creche para que as crianças circulassem livremente. Na mesa de alimentos, colocamos batatas doces, milho, coco, acerola, entre outros. Os temperos chamaram mais atenção; as crianças gostaram dos cheiros e das texturas e também os usaram para pintar a pele. As professoras explicaram cada item conforme o interesse das crianças.
Como não planejamos que todas tivessem a mesma experiência, enquanto algumas olhavam a mesa e mexiam no peixe (embalado com plástico filme), outras ficaram curiosas com os itens de madeira dentro da oca, algumas queriam sentar na rede, enquanto outras brincavam com os colares de sementes na folha de bananeira.
Não podemos medir exatamente o impacto dessa experiência nas crianças, mas sabemos que proporcionamos vivências que permitiram o reconhecimento de si e do outro, do corpo e do movimento, de texturas, sons e formas. Também percebemos cenas de negociação, como a troca do pilão de temperos pelo chocalho de feijão.
As metodologias ativas na educação infantil já estão presentes em muitas ações. O que precisamos é atribuir intencionalidade a elas para que alcancem objetivos claros. Sem objetivos educacionais bem definidos, o brincar fica limitado em si mesmo. No entanto, o brincar na educação infantil deve ter um viés pedagógico claro, para dialogar com os campos de experiências fundamentais para o desenvolvimento das crianças.
Sempre que pensamos em metodologias ativas na educação infantil, devemos lembrar da frase de Piaget (1976): “Cada vez que alguém ensina prematuramente a uma criança algo que ela poderia ter descoberto, essa criança é impedida de inventá-la e, consequentemente, de compreendê-la completamente.” Devemos usar essa reflexão para planejar nossas atividades, considerando que a experimentação é fundamental para o desenvolvimento infantil e definindo claramente os objetivos de aprendizagem que queremos alcançar com determinadas ações.
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Referências
DE BRITO, Aline Pereira. METODOLOGIAS ATIVAS PARA CRIANÇAS. EDUCAÇÃO E CULTURA EM DEBATE, 2020, 6.1: 9-13.
DA SILVA, Stefânia; MONTEIRO, Stephanie Souza; RODRIGUES, Marinéa Figueira. A importância da Educação Infantil para o pleno desenvolvimento da criança. Revista Mosaico, 2017, 8.2: 30-38.
Piaget, J. (1976). A equilibração das estruturas cognitivas: problema central do desenvolvimento (M. M. dos S. Penna, Trad.). Rio de Janeiro: Zahar Editores.
