Existe um modelo de escola ideal?

A busca por um modelo de escola ideal demonstra o compromisso de gestores e educadores com a qualidade da educação

Pode parecer uma pergunta boba, ou até mesmo ingênua, mas muitos profissionais da educação acabam se perguntando, em algum momento da carreira, como seria o modelo de escola ideal, a escola dos sonhos, uma escola em que tudo funciona e em que todos ensinam e aprendem de maneira plena. Até que, diante dos desafios diários do contexto escolar, essa pergunta vai ficando de lado e, com ela, o desejo de construir um ambiente de aprendizagem que esteja no mesmo patamar das nossas maiores expectativas também vai se perdendo. Afinal, buscar continuamente por um modelo de escola ideal pode ser muito frustrante, mas ao mesmo tempo, demonstra o compromisso de gestores e educadores com a qualidade da educação. Nesse artigo, trazemos alguns exemplos e reflexões que consideramos inspiradores para quem ainda não desistiu de sonhar.

1. A família dos estudantes está presente no seu modelo de escola?
Recentemente, o Todos pela Educação lançou uma série documental chamada “Educação que dá certo”, na qual apresenta modelos de gestão educacional que foram capazes de melhorar os indicadores da educação pública em estados e municípios brasileiros. Em um dos episódios, a Escola Municipal Vereador José Wilson Melo Nascimento, localizada na Zona Rural de Coruripe (AL), é apresentada como uma escola modelo e sua gestora é entrevistada para falar desse caso de sucesso. Em um dado momento da conversa, a entrevistadora chama atenção para o mural localizado atrás da gestora escolar em que é possível ver fotos dos “professores inspiradores”, “estudantes destaque” e, de modo mais surpreendente, das “mães nota 10”. A diretora explica que naquela escola eles reconhecem e premiam todos aqueles que fazem a educação funcionar, seja entre os professores, alunos ou comunidade. Pode parecer um gesto pequeno e, ao decorrer do documentário, fica claro que essa medida isolada não é, de forma alguma, a razão para o sucesso escolar. Mas esse mural indica um princípio fundamental para qualquer modelo de escola que seja verdadeiramente eficaz: os atores principais da educação, o que inclui os pais e responsáveis pelos estudantes, precisam ser valorizados.

2. A subjetividade dos educandos cabe na escola dos seus sonhos?
A Escola dos Sonhos, uma escola comunitária em Bananeiras (PB), virou notícia por seguir um modelo de ensino que coloca o estudante – e a comunidade escolar em geral – no centro das decisões pedagógicas. Nesse modelo, construído pela comunidade com base em estudos e referências externas, os tutores e mediadores questionam os educandos sobre o que querem aprender e, a partir daí, projetos e roteiros de pesquisa são desenvolvidos. Não há provas ou avaliações tradicionais elaboradas por professores, nem séries ou salas de aula. A escola, organizada de maneira coletiva, oferece espaços de aprendizagem, utilizados pelos alunos conforme suas necessidades. Individualmente, cada aluno recebe orientação de um tutor e realiza sua pesquisa onde quiser. A função dos mediadores é promover a autonomia dos educandos, conforme seus interesses e as diretrizes legais. Outras atividades como oficinas, momentos de relaxamento e de troca entre estudantes são oferecidas para estimular a interação e potencializar a aprendizagem. Esse modelo de escola foi premiado e reconhecido internacionalmente, por mostrar que, havendo vontade, preparo e organização coletiva, é possível construir outras formas de ensinar e aprender.

3. E se a escola modelo não for uma escola?
Em 1984, o antropólogo mineiro Tião Rocha  criou o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), uma “instituição de aprendizagem” que, nas palavras de seu fundador, comprovou “que é possível sim fazer educação de boa qualidade sem escola, em qualquer lugar.” Ele defende que uma boa educação se faz com bons educadores, que geram processos permanentes de aprendizado, sem a necessidade de salas de aula e livros didáticos. A proposta de Tião parece radical, mas, na verdade, aposta na cultura popular e na troca entre pessoas como uma experiência de desenvolvimento para além do que imaginamos. Não é muito diferente do que acontece em templos de diversas religiões, em casa na troca entre familiares, em reuniões de amigos que compartilham conhecimento entre si ou em qualquer outra troca que pode acontecer entre vizinhos, colegas, etc. Acreditar que é possível fazer educação de qualidade sem um modelo específico de espaço e uma cartilha predeterminada a seguir é uma forma de focar no essencial: a relação entre as pessoas.

Enfim, não existe uma fórmula mágica ou um segredo oculto para sanar todos os problemas da educação, e o espaço escolar pode cumprir o seu papel de muitas formas, seguindo diferentes modelos – ou até mesmo deixando de existir com esse nome, no formato que conhecemos. Contudo, o compromisso de educadores, familiares e educandos por um modelo de escola que atenda aos seus ideais é essencial para fazer com que os espaços de aprendizagem sejam cada vez melhores. Afinal, como bem eternizou Eduardo Galeano, a utopia serve precisamente para que não deixemos de caminhar.

A Curiós tem trabalhado para ajudar as redes rumo a uma escola que faça sentido tanto para educadores quanto para os alunos e suas famílias. Nós podemos ajudar a sua rede nessa missão. Quer saber como? Mande uma mensagem, vamos adorar conversar com você 🙂

Referências:

G1, por Ana Beatriz Rocha. Sem salas de aula e focada na educação comunitária, escola do Brejo paraibano é reconhecida internacionalmente. Outubro de 2021. Disponível em: <https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2021/10/15/sem-salas-de-aula-e-focada-na-educacao-comunitaria-escola-do-brejo-paraibano-e-reconhecida-internacionalmente.ghtml>. Acesso em 30 jan. 2023.

Porvir. “É possível fazer educação de qualidade sem escola”. Março de 2013. Disponível em: <https://porvir.org/e-possivel-fazer-educacao-de-qualidade-sem-escola/>. Acesso em 30 jan. 2023.

Todos Pela Educação. Educação Que Dá Certo – Episódio 2: Coruripe, oportunidades para todos. YouTube, 2022. Disponível em: <https://youtu.be/k2Rmqe6Vnvo>. Acesso em 30 jan. 2023.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!