O imprevisível no espaço escolar

Como abrir espaço para o inesperado pode enriquecer a aprendizagem – Juliana Ferro

Semana passada tivemos a jornada pedagógica organizada pela Secretaria Municipal. E eu tive o prazer de mediar esse momento de estudo dentro da creche que estou como diretora. Logo na primeira fala da palestrante escolhida pela secretaria ela perguntou: “Há lugar para o imprevisível no espaço escolar?” Eu entrei em parafuso pensando nisso.

Essa frase me marcou demais, fiquei refletindo sobre isso até o final da roda de conversa. Pensando que temos uma crescente na discussão sobre planejamento e currículo, o alinhamento com os direcionamentos que as redes consideram importantes para o aprendizado das crianças, surge um questionamento: Em que momento conseguimos considerar os interesses dos nossos estudantes?

Uma rápida busca no google já nos leva a explicação do que seria imprevisível, “aquilo que não se pode prever”, ou seja, o que não temos nenhum controle. 

Nenhum controle pode gerar um certo pânico em alguns professores, pois o controle sempre se fez presente nas salas de aulas. Esse aspecto está inclusive associado ao aprendizado, muitas vezes.

E aqui começa nossa conversa, o imprevisível tem um potencial de ser surpreendente, novo e extremamente enriquecedor.

Imagina só você montar uma aula inteira para falar sobre as frutas da feira. Deixar a sua mesa cheia de frutas e perguntar para os seus estudantes: O que tem na feira? e prontamente eles respondem, pilha, roupa, meia, ventilador, entre outras coisas que definitivamente te levam para longe das frutas. E agora?

O quanto pode ser assustador abrir margem para o que os estudantes trazem?

Lembro que peguei o hábito de toda primeira aula com uma turma nova, falar poucas coisas sobre mim e abrir para me perguntarem qualquer coisa. Os estudantes ficavam empolgados e sempre perguntavam: qualquer coisa mesmo? Em se tratando de turmas do fundamental II, poderíamos esperar qualquer coisa mesmo. E apesar do frio no estômago ao responder, sinto que isso ajudava a criar um espaço de confiança entre nós. 

Trouxe dois momentos para pensarmos o imprevisível dentro da sala de aula, um não programado e outro programado na medida do possível. A verdade é que em nenhum desses momentos estamos falando de improviso, ambos os momentos estavam cercados de um objetivo e um planejamento. O planejamento, é fundamental para que o imprevisível no espaço escolar se torne um processo significativo e construtivo.

É claro que vamos lidar com alguma tensão ao abrir espaços de discussão ou mesmo quando sem a intenção de abrir o espaço ele surja. Imagina, o quanto o conceito de feira poderia ter sido expandido. Outros elementos poderiam surgir e quem sabe até um projeto interdisciplinar incluindo manifestações culturais, pontos turísticos, gastronomia, cotidiano, entre outros assuntos além das frutas.

Penso que para ficar confortável com o desconhecido imprevisível no espaço escolar, é necessário ter dois pontos bem esclarecidos:

  1. Repertório

Nós como educadores precisamos estar conectados com os temas de interesse dos estudantes e atualizados com o que acontece no mundo, no país, na cidade, no bairro. É muita coisa, eu sei, por isso podemos e devemos estar atentos aos corredores, as pequenas aglomerações na sala, aos registros nas paredes. O que quero dizer é que o contexto importa muito. Estarmos atentos aos pontos de atenção dos nossos estudantes faz toda diferença para canalizar essas informações em produção de conhecimentos significativos.

  1. Humildade

Eu sei que é difícil ouvir “mas você não é professor/professora, como não sabe?”, afinal de contas ainda carregamos esse estigma de saber de tudo, mas para lidar com o imprevisível é fundamental saber dizer que não sabe algo. O importante é que esse ‘não saber’ venha seguido de uma ação e quem sabe de convite aos estudantes para que pesquisem e aprendam juntos. Não temos que saber de tudo e podemos/devemos construir conhecimentos junto com nossos estudantes.

Porque o imprevisível no espaço escolar é tão importante?

Considerando a teoria de aprendizagem significativa (AUSUBEL) o aprendizado acontece na interação entre os conhecimentos prévios e o que está sendo apresentado. O espaço espontâneo dos estudantes com base nas propostas feitas pelos docentes é justamente a manifestação dos conhecimentos e pontos de interesses desses estudantes. 

O imprevisível, o inesperado, traz um potencial de aprendizagem que extrapola a memorização e abre espaço para a construção do conhecimento.

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Referência bibliográfica:

PELIZZARI, Adriana et al. Teoria da aprendizagem significativa segundo Ausubel. revista PEC, v. 2, n. 1, p. 37-42, 2002.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!