Orquídeas e Dentes de Leão na sala de aula

Pesquisas na sala de aula indicam a direção para melhor engajamento e aprendizagem dos alunos orquídeas e dentes de leão – por Débora Chaves

Como você lida com um ambiente de pressão? Geralmente a cobrança te impulsiona ou paralisa? E em ocasiões em que você tem que falar em público: você sente aquele frio na barriga ansioso e encorajador ou um leve sentimento de pânico vem à sua mente?

Essas perguntas podem parecer distantes da educação, mas, na verdade, os pesquisadores têm mergulhado em questões como essas para entender a sala de aula e as diferentes formas de estimular o aprendizado nas crianças e adolescentes.

Uma dessas pesquisas ficou carinhosamente conhecida como “Orquídeas e Dentes de Leão“. Você não entendeu errado! Estamos realmente falando daquelas lindas flores, que se desenvolvem em alguns ambientes específicos, como o tronco de outras árvores, e aquelas plantinhas que parecem crescer em qualquer lugar, inclusive no meio do concreto!

Isso não acontece simplesmente porque uma planta é mais forte que a outra, mas porque a própria estrutura química delas é diferente. Enquanto os dentes de leão conseguem se adaptar a ambientes adversos, a capacidade de adaptação das orquídeas não é tão elevada.

Mas esse não é um texto sobre biologia! Parece que estou fazendo uma digressão, mas não é bem assim. Marinus van IJzendoorn e Adriana Bus, dois pesquisadores focados em entender de que forma a aprendizagem se dá na sala de aula, elaboraram essa analogia para pensar os diferentes estudantes que compõem os espaços escolares.

Segundo os pesquisadores, a maioria das crianças são como dentes de leão. Isso porque é comum que eles se desenvolvam e cresçam de forma satisfatória, independente do ambiente em que isso se dá. No entanto, existem crianças que são orquídeas, que acabam tendo seu desenvolvimento dificultado a partir de alguns contextos não ideais.

A questão é que, tal como as plantas, para “crianças orquídeas” a provisão do ambiente correto para seu crescimento e aprendizagem pode ser decisivo para que ela tenha um desempenho ótimo, inclusive melhor que o da maioria. Essas crianças comumente são caracterizadas por comportamentos disruptivos, TDAH, dislexia, entre outros traços que, em geral, são identificados e tratados. No entanto, os pesquisadores fizeram uma importante questão: se esses são comportamentos unicamente negativos, como eles sobrevivem ao longo do tempo?

Isso sugere uma reflexão mais profunda, sobre possíveis vantagens e desvantagens de um perfil em comparação ao outro, e isso tem muito a ver com a sala de aula: e se os alunos que não se dão bem na escola são orquídeas colocadas em um ambiente inapropriado?

É comum que em uma mesma turma tenhamos diversos estilos de aprendizagem e é preciso atenção para que ninguém fique para trás. Uma estratégia popular que contribui para isso é fazer verificações de aprendizagem em diferentes etapas e formatos, garantindo que, se um aluno aprende melhor escrevendo e outro falando em voz alta, a disparidade será minimizada.

Do mesmo modo, oferecer recursos extras em diferentes formatos (vídeos, textos, reflexões, atividades práticas) é também uma ferramenta importante para garantir que todos aprendam.

O desafio, também abordado pelos pesquisadores, no entanto, é descobrir quais tipos de materiais e atividades são mais efetivos para aqueles alunos com mais dificuldade. Afinal, nem todo mundo aprende do mesmo jeito! Mas como descobrir isso? Quais são os estímulos certos para cada aluno?

Parece complexo, e é mesmo, já que se trata do cérebro humano, mas IJzendoorn e Bus foram atrás de uma resposta estudando a genética humana. E encontraram!

No cromossomo 11 do nosso DNA, está o DRD4, que, como todo “pedaço” de DNA, nada mais é do que um padrão que se repete. Esse, em particular, é o responsável por fazer a recepção da dopamina acontecer e esse, como talvez você já saiba, é um neurotransmissor diretamente ligado à sensação de prazer. Popularmente é conhecido como “hormônio da felicidade”.

A questão é que os pesquisadores encontraram diferentes repetições do DRD4 em diferentes pessoas. Enquanto para a maioria ele se repete 4 vezes, para algumas, 7 vezes, 3 vezes, e assim por diante. Nos seus estudos, eles entenderam que as pessoas com 7 repetições são, em geral, exploradoras, desbravadoras, mais amantes do risco e propensas à hiperatividade. Para essas pessoas na sala de aula, o estímulo tem de ser elevado para que consigam sentir os efeitos da dopamina. Essas são as orquídeas.

A questão é que as salas de aula parecem ser desenhadas por dentes de leão para dentes de leão! Portanto, mais do que assumir que alunos com piores resultados têm de fato dificuldades de aprendizagem, é importante estar atento se eles estão sendo instruídos de maneira adequada. Enquanto estudantes são reprovados para passarem pelo mesmo sistema que não funcionou da primeira vez ou são submetidos constantemente ao mesmo estilo de didática que já não deu certo, as suas chances de desenvolvimento são cada vez piores.

Para transformar essa realidade, o ideal seria uma sala de aula composta por diferentes educadores, focados em apoiar os educandos nas suas necessidades específicas, ou até mesmo uma possibilidade de personalização do ensino a partir de escolhas dos alunos. Sabemos que mudar todo um sistema de ensino, baseado em grandes turmas com um só professor é um sonho de looooongo prazo, mas com atenção, registro e inovação é possível alcançar aquelas orquídeas e fazê-las desabrochar.

Já imaginou se cada criança recebesse as orientações necessárias para descobrir se são dente de leão ou orquídea? Quanta coisa poderia mudar! 

Se interessou pelo tema? Você pode gostar de ler mais sobre assuntos relacionados aqui.

Referências:

Education Next, por Laurence Holt. “The Orchid and the Dandelion”. Agosto de 2021. Disponível em: https://www.educationnext.org/the-orchid-and-the-dandelion-new-research-uncovers-link-between-genetic-variation-how-students-respond-teaching/ 

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!