Um pouco da formação continuada na perspectiva de Paulo Freire – Por Natália Araújo
Um dos temas fundamentais para pensarmos a qualidade do ensino e a autoestima dos educadores é a formação continuada. Nesse campo, Paulo Freire foi um educador e teórico cuja reflexão crítica sobre essa prática pedagógica destaca a natureza política da educação e parte de conceitos-chave de sua obra, como o diálogo, a relação entre teoria e prática e a construção do conhecimento, mostrando como esses elementos se entrelaçam para moldar a prática educacional de forma significativa.
No horizonte, um caminho
A jornada de formação é um convite à revelação do ser inacabado que habita em cada um de nós e à consciência de que a educação é um processo contínuo de aprendizagem, dado não apenas à nossa capacidade de adquirir mais conhecimento, mas à combinação sempre única, nova e desafiadora entre a necessidade de diferentes abordagens metodológicas e didáticas, a pluralidade dos estudantes e das formas de aprender, e os múltiplos contextos sociais que irão interpelar essas dinâmicas.
Em obras como “Medo e ousadia – o cotidiano do professor” (l987), “Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar” (1993) e a célebre “Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática docente” (1996), Paulo Freire incentiva professores a questionarem as estruturas de poder existentes na educação, a se tornarem agentes de mudança em suas comunidades educacionais e, principalmente, a desenvolverem consciência crítica de suas práticas docentes, o que leva à aprimorá-las.
Tal como Freire apontou, a ideia de professor(a) investigador(a) está em profundo diálogo com a natureza da educação e do ato educativo: “Fala-se hoje, com insistência, no professor pesquisador. No meu entender, o que há de pesquisador no professor não é uma qualidade ou uma forma de ser ou de atuar que se acrescente à de ensinar. Faz parte da natureza da prática docente a indagação, a busca, a pesquisa. O que se precisa é que, em sua formação permanente, o professor se perceba e se assuma” (Freire, 1996, p. 32).
Além disso, a formação continuada fundamentada na lógica freiriana, em uma abordagem crítico-emancipatória da educação, ajuda a desenvolver a autonomia, além da curiosidade e da experimentação didático-pedagógica nos espaços de formação e, posteriormente, na prática docente em sala de aula. A “educação como prática da liberdade” (Freire, 1967) está no campo do ensino inclusivo, visando ao aprendizado de todos, e percebendo no ato de educar uma ferramenta de libertação social, capacitando os alunos a compreenderem e transformarem de forma ativa o mundo ao seu redor.
A educação então se revela uma prática intrinsecamente ética, fundamentada na busca pela justiça social, no respeito à singularidade de cada indivíduo em sua diversidade política e econômica. O docente reconhece sua própria jornada de aprendizado contínuo, reflete sobre suas práticas, nutre paixão pelo que faz e pelos seus alunos e alunas. Assim, precisa ter clareza e tomar decisões conscientes sobre o impacto de sua atuação como agente de transformação, dando um importante passo em direção à mudança.
Paulo Freire nos convida ao movimento, à constante busca pelo desenvolvimento pessoal e à transformação da realidade por meio da educação. Sua perspectiva de formação continuada enfatiza a importância do diálogo e da reflexão crítica sobre a prática educativa como ferramentas para a conscientização e a emancipação. É necessário pensarmos como fazer isso; questionando-nos sobre nossas práticas e buscando novos conhecimentos e experiências através de grupos de estudo, dialogando com os pares, estudantes, etc., seguindo os passos propostos por Freire para a construção de uma educação mais crítica, democrática e transformadora.
Referências:
Dossiê – Paulo Freire, a Prática Pedagógica e a Formação de Professores. Educ. rev. (61). Julho de 2016
Paulo Freire – formação de educadoras/es, diversidade e compromisso
social / organização Júlio Emílio Diniz-Pereira. Belo Horizonte. Autêntica, 2019.
