Personalização do ensino: transformando práticas pedagógicas

Desafios e estratégias para implementar uma abordagem centrada no estudante, por Juliana Ferro

Já tivemos aqui no blog outras conversas sobre aprendizagem significativa, sobre metodologias e até ferramentas para tornar as aulas mais atrativas. Mas sem entendermos o porquê precisamos repensar nossas práticas em sala de aula, toda essa conversa sobre mudanças na forma de aprender não surtirá muito efeito. Nesse texto, quero conversar sobre a importância da personalização do ensino. Portanto, vamos falar sobre os desafios para implementação dessa prática e sugerir um “ponta pé” inicial para aplicação do ensino centrado no estudante.

Para entender melhor o que seria a personalização do ensino, vamos então observar a perspectiva de Morán (2015). Ele apresenta que a necessidade de mudanças significativas na forma em que ensinamos são urgentes, a tecnologia é um fatores que impulsionou a urgência dessas mudanças. A forma com que os estudantes interagem hoje é completamente diferente da forma em que interagiam nos anos 80, por exemplo. No entanto, nossa forma de repassar o conhecimento não mudou tanto desde que instituímos a escola como obrigatória.

Morán argumenta que a personalização do ensino é fundamental na educação contemporânea. Já que ela possibilita que cada aluno tenha uma aprendizagem mais significativa, integrando experiências individuais e colaborativas. Ou seja, para haver ensino centrado no estudante é necessário conhecer esses estudantes, não apenas considerando o desenvolvimento de habilidades, mas também seus gostos, seus interesses, seus medos, sonhos. 

A inovação pedagógica vem de uma reestruturação de como entendemos o espaço escolar e também de superar alguns desafios para a implementação dessa nova forma de ver o processo de aprendizagem.

O autor traz uma lista com cinco possíveis desafios para a implementação da personalização do ensino:

Resistência à mudança: tanto por parte dos professores, da própria gestão e até mesmo dos estudantes. Lembro que logo que assumi duas turmas de 7º ano eles ficaram claramente incomodados das primeiras aulas serem focadas em entender o pensamento crítico deles e quase não copiarem do quadro. Um estudante chegou para mim e disse: “Por que você não escreve no quadro e manda a gente copiar?”. Um outro me perguntou: “quando vamos ter aula?”, já estávamos tendo aula, só que não no estilo que eles estavam acostumados.

Modelos tradicionais: a forma com que aprendemos enquanto estudantes, como aprendemos a ensinar na faculdade e como temos alguma familiaridade, os modelos tradicionais funcionam, afinal aprendemos assim, certo? Por outro lado, se pararmos para pensar que hoje temos recursos que antes não tínhamos e que cada realidade a sua medida, pode experienciar outras formas de construir conhecimento. Acredito então que se pensarmos na construção do conhecimento, ajude a superar essa ideia de repasse de informação que ainda está vinculada ao modelo tradicional.

Capacitação e incertezas sobre a implementação: precisamos levar em conta que não estamos familiarizados com todas essas novas formas de ensinar e que a falta de capacitação é um grande desafio para a implementação da personalização do ensino. É por isso que algumas escolas adotam a implementação progressiva. Começam, incentivando a troca entre professores e compartilhamento de boas práticas. Organizam, oficinas e espaços de troca para que as novas formas de ensinar sejam valorizadas e difundidas.

Necessidade de revisão estrutural: esse eu considero que seja o ponto mais desafiador. Pois, podemos ser extremamente inovadores em sala, incentivar a independência e a criatividade, mas precisamos de currículos e avaliações que valorizem novos processos de construção de conhecimento. 

Considerando esses desafios, o que podemos fazer para implementar a aprendizagem individualizada?

Como citei anteriormente, a personalização vai além de saber quais habilidades ainda precisam de atenção. Ela  também diz sobre fazer com que o estudante se sinta pertencente, visto e incentivado dentro dos seus pontos de interesses e objetivos.

Algo que eu já apliquei com meus estudantes e acredito que ajude muito na aproximação com eles é um pequeno questionário com perguntas pessoais. Peguntas como: cor favorita, animal, tipo de música, disciplina favorita, entre outras perguntas nesse sentido. Ao final, cada um se apresentava, o que já ajudava a criar identificação entre os pares e também me fazia conhecer um pouco de cada um. 

Sobre a parte mais técnica, uma avaliação diagnóstica também é necessária. Mapear as habilidades que precisam de atenção vai ser fundamental para direcionar sua prática e entender o perfil de desenvolvimento dos seus estudantes.

Acredito que esses dois movimentos iniciais, aliados a capacitação, o uso de tecnologia e apoio da equipe gestora, vão possibilitar a personalização do ensino e potencializar o desenvolvimento dos estudantes.

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Referência bibliográfica

MORÁN, José Manuel. Mudando a educação com metodologias ativas. Tradução . Ponta Grossa: UEPG/PROEX, 2015.  Acesso em: 20 fev. 2025.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!