Por uma educação especial inclusiva

O que professores podem fazer para garantir um ambiente acolhedor e colaborativo à educação especial inclusiva?

Recentemente, o tópico da educação especial inclusiva voltou a ser tema de debate público. No último mês de outubro (2021), o governo federal publicou um novo decreto que incentiva a criação de escolas e salas de aula exclusivas aos alunos diagnosticados com deficiência. A proposta de política vai na contramão da recomendação de organizações internacionais, de ativistas pelos direitos das pessoas com deficiência e da própria legislação brasileira sobre o tema. Segundo a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência de 2006, as crianças com deficiência possuem o direito a um sistema educacional inclusivo ofertado, preferencialmente, dentro das escolas regulares.

A defesa de um modelo de educação pautado na educação especial inclusiva possui importantes respaldos estatísticos. Segundo uma pesquisa realizada pelo Centro de Ensino, Pesquisa e Inovação (CEPI) do Instituto Jô Clemente, as crianças e adolescentes que frequentam escolas regulares apresentam expressivos ganhos em identidade, autonomia, comunicação, linguagem, expressão, relacionamento interpessoal e aprendizagem. Em contraste, no caso dos alunos matriculados em escolas especiais, não se observam avanços tão significativos nos mesmos quesitos.

Entretanto, os benefícios não se limitam apenas às crianças com deficiência. Segundo Luiza Corrêa, coordenadora do Instituto Rodrigo Mendes, especializado em educação inclusiva, o modelo de inclusão é fundamental para todas as crianças de uma escola, as quais desenvolvem a tolerância e a convivência com as diferenças. A mesma opinião é compartilhada por Luís Carlos de Menezes, professor da Universidade de São Paulo e consultor da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. Segundo o pesquisador, a ideia de que todos da turma são corresponsáveis pelo aprendizado dos alunos com algum tipo de dificuldade é uma forma de educação para uma postura solidária, adequada para a convivência em sociedade.

Muitas pessoas acreditam que esse debate não é central dentro do âmbito educacional. Entretanto, segundo dados do Censo Escolar de 2018, o Brasil possui mais de 1,2 milhão de alunos com deficiência, altas habilidades e transtornos globais do desenvolvimento, o que demonstra a dimensão da importância de pensarmos em práticas para uma educação especial inclusiva de verdade. Por isso, compartilhamos algumas dicas de como você, educador ou educadora, pode garantir um ambiente acolhedor no qual as diferenças são recepcionadas com compreensão e atenção.

1. Conheça as necessidades do seu aluno

É muito importante que você conheça o seu aluno, procurando enxergá-lo para além da deficiência, buscando pontuar quais são as suas necessidades e potencialidades específicas, assim como os pontos que devem receber maior atenção de sua parte. Para isso, procure conversar com a família do aluno e entender a sua história e, em especial, acompanhe atentamente a sua conduta na creche ou na escola.

É fundamental que você saiba, por exemplo, se o aluno realiza acompanhamento médico e psicológico, assim como se a deficiência foi originada a partir de doenças genéticas, de lesões congênitas (adquiridas na gravidez ou durante o parto) ou de agravos externos (doenças ou acidentes). Isso porque diferentes deficiências impactam de formas distintas a interação do aluno com o ambiente escolar e, portanto, demandam diferentes comportamentos dos educadores.

Por isso, é importante que você busque se informar sobre a deficiência do estudante. Uma dica é pedir a recomendação de materiais confiáveis e de fácil compreensão para a equipe médica que acompanha o estudante por intermédio dos próprios familiares.

2. Conheça a sua própria estrutura e os recursos disponíveis

É comum que alguns alunos com deficiência demandem algumas especificidades de infraestrutura que podem não existir em alguns ambientes de sua escola. Por isso, convide os familiares do estudante para conhecer e avaliar as instalações disponíveis nos espaços de convívio e de estudo.

Caso não exista a infraestrutura necessária, procure conversar com a gestão de sua escola para elaborarem planos de adaptação do espaço para melhor acolher os alunos. Por exemplo, é possível destinar as salas localizadas no térreo da escola, ou seja, aquelas que não precisam de escadas para o acesso, para turmas que possuam alunos deficientes. Essa mudança pode facilitar a locomoção desses alunos sem precisar de grandes reformas estruturais.

3. Crie um plano de desenvolvimento individualizado

Acompanhar o desenvolvimento do aluno é fundamental para encontrar os pontos do currículo escolar e da postura docente que precisam ser adaptadas para as necessidades dos estudantes. A Lei Brasileira de Inclusão 13146/2015 estabelece o Plano de Desenvolvimento Individual como uma ferramenta fundamental para o acolhimento de alunos com necessidades educacionais especiais.

É importante que o PDI seja criado sempre no início de cada ano letivo, envolvendo professores, familiares e representantes da gestão escolar. Primeiro, é preciso identificar os pontos que dificultam ou facilitam o processo de aprendizagem do estudantes, incluindo informações sobre as condições do ambiente familiar da criança, assim como considerações sobre o seu comportamento e possíveis problemáticas de saúde.

Além, também é muito importante que os educadores sejam capazes de priorizar as competências a serem mais exploradas no processo de aprendizagem da criança. É possível determinar, por exemplo, uma adequação do currículo para o aluno, reduzindo o número de disciplinas a serem cursadas ou propondo métodos de avaliação alternativos, mais condizentes com a realidade daquele aluno.

É muito importante que o PDI tenha uma linguagem clara e objetiva, de forma que todos os envolvidos na aprendizagem do aluno sejam capazes de entender os objetivos descritos no documento. Por fim, é interessante que o plano seja revisado mensalmente, de forma que os educadores repensem a viabilidade e a prioridade de cada um dos objetivos.

4. Explore o tema da inclusão

Para o completo acolhimento dos alunos com necessidades educacionais especiais é preciso que as outras crianças da escola estejam abertas às diferenças. Por isso, é muito importante que você, no papel de educador ou educadora, aborde questões como aceitação e diversidade na rotina da sala de aula. Assim, você vai ajudar a prevenir possíveis casos de bullying ou intolerância.

Uma dica é apostar no aprendizado compartilhado. Você pode propor atividades nas quais os estudantes de sua turma ajudem os alunos que precisam de algum apoio adicional para a aprendizagem, incluindo os alunos com algum tipo de deficiência. Essa é uma oportunidade de reforçar os conhecimentos aprendidos e dos alunos compartilharem seus pontos fortes e fortalecerem aquilo que possuem mais dificuldade.

5. Esteja aberto ao aprendizado contínuo

Quando se trata de educação, é fundamental que os professores e a equipe pedagógica estejam abertos ao aprendizado. Apesar da importância de uma preparação de qualidade com antecedência sobre os alunos com necessidades especiais de educação, a prática dentro de sala de aula aprimora a abordagem dos educadores, desde que estes estejam atentos e reflitam constantemente sobre a sua própria prática, identificando atitudes positivas e buscando evitar futuras ações negativas.

A Curiós trabalha todos os dias para ajudar os educadores a atingirem seu pleno potencial. Quer saber mais? Entre em contato com a gente! Quem sabe não temos o que você precisa 🙂

Referências:

Paula Ramos. O que (não) há de novo na nova política de educação especial. Nexo Jornal, 2020.

Secretaria Municipal de Educação de Maceió. Guia de Educação Especial para a inclusão na rede municipal de ensino de Maceió. 2016.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!