“Prestem atenção!” é suficiente?

A importância de comandos além do “prestem atenção” para a prática pedagógica

Por Gabriel Schimmelpfeng Passos

Era uma sexta-feira à tarde e minha última aula do dia. Eu já estava desejando o retorno para minha casa e planejando uma noite de descanso enquanto caminhava para a sala do 6° ano B.

Fui recebido aos gritos pelos alunos. No curto intervalo de tempo durante o meu caminhar entre a porta da sala e a minha mesa, três alunos já me pediram para ir ao banheiro e mais dois perguntaram se podiam encher a garrafinha de água. Era uma turma relativamente desafiadora!

Antes de respondê-los, pedi para que todos se sentassem e, após isso, disse: “prestem atenção em mim”. Curiosamente, apenas alguns atenderam a esse chamado. De fato, todos sentaram em seus lugares, porém, poucos olhavam atentamente para mim. Percebi que alguns alunos estavam realizando as tarefas de casa de outra disciplina, enquanto outros copiavam o conteúdo que foi escrito no quadro por outro professor. Percebi que falar apenas “prestem atenção” não era suficiente!

O que significa para os alunos a frase “Prestem atenção!”?

Utilizar esse comando com os alunos pode ser fonte de frustração e gerar dúvidas sobre a própria autoridade devido ao desalinhamento de expectativas entre o aluno e o professor.

Enquanto para você, professor, prestar a atenção é cessar todas as atividades e olhar atentamente em silêncio, para os alunos o mesmo comando pode significar apenas ficar em silêncio.

A partir dessa reflexão imediata, logo após o meu decepcionante pedido de atenção aos alunos, voltei a dar o mesmo comando, mas com algumas alterações:

“Peço que todos vocês fechem os cadernos, coloquem sobre eles os lápis ou canetas que estiverem usando e olhem para mim em silêncio!”

O resultado foi outro! Todos os alunos atingiram as minhas expectativas ao seguirem prontamente o meu comando específico para prestarem a atenção em mim. Não havia ambiguidade na minha orientação, diferente de quando disse somente “prestem atenção”.

Entendi que o comando específico é direcionar a ação do aluno, dentro do âmbito da gestão de sala de aula, através de orientações pontuais, podendo ou não serem subdivididas em etapas, para atingir um determinado objetivo pedagógico.

Vamos para alguns exemplos! Ao invés de pedir “Guarde esse celular!”, não seria menos confuso dizer “Eu gostaria que você guardasse o seu celular dentro da mochila e não o utilizasse até o final da minha aula. Caso contrário, o seu celular será recolhido!”. O comando foi claro e pontual, impossibilitando qualquer tipo de interpretação pelo aluno para insistir na indisciplina.

Após conquistar a atenção de todos os alunos, expus a todos os objetivos da aula e, logo em seguida, iniciei a chamada da turma. Durante esse momento, um aluno levantou-se e caminhou em minha direção. Ele perguntou, enquanto eu fazia a validação de frequência, se podia pegar algumas frutas que estavam em um árvore bem ao lado da última janela localizada no fundo da sala de aula. Eu consenti apenas se esse estudante conseguisse alcançar as frutas com o braço (a sala fica no térreo!).

Voltei a realizar a chamada, monitorando esse aluno que lentamente se posicionava no fundo na sala. Percebi que ele se afastou da janela, ao lado da árvore, e encostou na parede oposta, vislumbrando as frutas. O aluno dobrou o joelho direito, deixando a sola do pé rente à parede e a utilizou de impulso para correr em direção a janela. Em questão de segundos, o aluno desapareceu do meu campo de visão com um único salto.

Parei de fazer a chamada, levantei bruscamente na cadeira, na qual eu estava sentado, e corri em direção ao fundo da sala. Ao deparar-me com o aluno sorridente brincando com as frutas, perguntei preocupado por que ele tinha pulado a janela. Fui de encontro aos seus olhos confusos e entendi que ele não sabia que tinha feito algo de errado, já que eu mesmo disse que podia pegar as frutas se alcançasse com o braço. Foi o que ele fez!

E vocês acreditam que o aluno pulou a janela motivado pela indisciplina ou por que eu não utilizei um comando específico sobre como ele deveria coletar as frutas? Compartilhe com a gente suas ideias sobre esse episódio. Vamos adorar lê-los!

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!