Processo de ensino e aprendizagem: um caminho gradual

Aproveitar cada passo do processo de ensino e aprendizagem é tão importante quanto a chegada

Por Jaqueline Novoletti – Professora da rede municipal de Petrolina

A escrita de “processo de ensino e aprendizagem” assim, com as palavras separadas apenas pela conjunção “e”, pode dar uma falsa impressão de que a ação de ensinar resulta quase que instantaneamente na reação de aprender. Mas deixemos claro desde o início: vamos tratar aqui sobre um processo do ensino até a aprendizagem, justamente com a ideia de um percurso a ser percorrido. Nesse artigo traremos alguns trechos desse percurso que são importantes para a chegada ao tão esperado aprendizado.

1. Objetivos do caminho e etapas antes da chegada

O objetivo do aprendizado é destinado aos estudantes. Sendo assim, deve ser compartilhado, interiorizado e parafraseado por eles para que faça sentido. Além disso, cada etapa do processo de ensino e aprendizagem deve ser planejada para que os estudantes possam protagonizar e visualizar esse processo. Isso envolve permitir tempo e espaço adequados com situações que permitam diversas experiências de aprendizagem.

Saber o que e como está aprendendo faz com que os estudantes engajem-se em cada passo dado e também deixa mais evidente para o docente quais desses passos estão sendo mais desafiadores. Para isso, Doug Lemov sugere que se “Dê nome às etapas”, dividindo as tarefas complexas formando um caminho para o aprendizado dos estudantes.

2. Valorizar os avanços: fazer de cada passo uma oportunidade

Agora que já entendemos que estamos falando de uma caminhada guiada, precisamos compreender como guiá-la de maneira mais eficiente. Vamos nos valer de Doug Lemov e falar da alta expectativa acadêmica, do erro e do tempo de espera.

Alta expectativa acadêmica: compartilhar com os estudantes que “certo é certo”, ou seja, insistir nas respostas até que elas estejam totalmente corretas, evitando chamar de certo a resposta que não está total e completamente certa. Isso porque há grandes chances dos estudantes pararem de se esforçar quando escutam a palavra “certo”. Nas palavras de Peg Grafwallner “uma abordagem de ‘ainda não’ ajuda os alunos a ver que momentos desafiadores podem ser oportunidades para alcançar seus objetivos de aprendizagem”. E para insistir no totalmente certo de maneira que os estudantes sintam-se estimulados a alcançá-lo, precisamos investir na cultura do erro.

Cultura do erro: criar um ambiente de aprendizagem em que seja seguro errar e discutir os erros para que estudantes queiram, ou ao menos não temam, expor seus erros. Assim, a tarefa de encontrar e tratar esses erros em sala de aula se tornará mais fácil, inclusive estimulando que os estudantes abordem seus próprios erros sozinhos. Estar confortável em admitir seus erros é um passo fundamental no processo de aprendizagem, mas até mesmo para errar é necessário um tempo de reflexão. E para isso vamos falar do tempo de espera.

Tempo de espera: Deixar os estudantes pensarem antes de responder é muito importante. É o que Doug Lemov chama de tempo de espera. Nós professores costumamos esperar cerca de um segundo para receber uma resposta. Ocorre que as respostas que nos chegam poderiam ser mais elaboradas, em maior número, com maior trabalho cognitivo e menos “não sei”, se esperássemos mais tempo, de modo que os estudantes seriam encorajados a levantarem a mão com a melhor resposta que tiverem e não necessariamente com a primeira que lhes vier à mente.


3. O caminho começa desde a idade dos passos com pés pequenos

É importante estimular a compreensão do processo de ensino e aprendizagem desde os primeiros passos dos estudantes em sala de aula. Quanto antes se sentirem integrantes e protagonistas do seu caminho, mais compreenderão o ambiente escolar como espaço facilitador e estimulante – influenciando inclusive em questões como disciplina e engajamento.

E para nós, que já deixamos pegadas há mais tempo, também é necessário entender que guiar a caminhada do processo de aprendizagem, é também trilhar nosso caminho de ensino. E esse caminho também envolve expectativa, erro e tempo.

4. Mas e na prática?

Numa aula de Língua Portuguesa no 8º ano sobre verbos transitivos indiretos expliquei que o verbo transitivo indireto tem seu complemento introduzido por uma preposição.

Herculis, depois de errar a resposta de uma pergunta, disse “professora acho que não estou entendendo porque não sei o que significa ‘indireto’”. Nesse momento percebi que para Herculis a caminhada naquele processo de aprendizagem precisava de uma etapa a mais. Assim, parei a aula, peguei o pincel e entreguei ao Herculis dizendo que estava fazendo aquilo de forma direta. Depois, pedi a um colega que entregasse o pincel a Herculis reforçando que eu estava lhe entregando indiretamente o objeto. Fiz então uma comparação: o verbo transitivo indireto precisa da preposição para chegar ao objeto indireto, assim como eu utilizei o colega para fazer com que o pincel chegasse ao Herculis.

Na mesma aula, a estudante Gilvânia respondeu “é o verbo que precisa daquele negócio lá” quando perguntei o que era verbo transitivo indireto. Naquele momento eu respondi “isso!”, automaticamente entendendo que “o negócio lá” era a preposição. Ao dar um retorno positivo para uma resposta que não estava completa, dei a entender àquela estudante – e também aos outros – que estava satisfeita com a resposta, interrompendo o processo cognitivo. Na aula seguinte, tive de retomar o conteúdo reforçando os termos corretos, afinal, o que é certo é certo.

Numa mesma aula pude perceber o quanto a cultura do erro e o tempo de espera permitiu ao Herculis refletir sobre as etapas do seu caminho até o aprendizado e me fez ver que, mesmo estando no caminho certo, Gilvania ainda precisava lapidar e refletir um pouco mais para chegar na resposta certa.

Na prática, o processo de ensino é tão reflexivo quanto a aprendizagem. Você concorda? Compartilhe seus pensamentos com a gente! Estamos aguardando a sua mensagem.
Referências: 

Grafwallner, Peg. Making Sure Students’ Struggles Are Productive. Disponível em: https://www.edutopia.org/article/making-sure-students-struggles-are-productive 

Lemov, Doug. Aula nota 10 2.0: 62 técnicas para melhorar a gestão de sala de aula. 2. ed. Porto Alegre: Penso, 2018.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!