O que você sabe sobre racismo ambiental?

Reflexões e práticas para promover a conscientização sobre racismo ambiental na educação pública – por Júnia Bicalho

Nos últimos tempos, um termo emergiu a partir de discussões políticas e sociais, chamando nossa atenção para uma questão delicada: o racismo ambiental. Essa interseção entre questões raciais e ambientais tem evidenciado as disparidades que permeiam nossa sociedade e nosso meio ambiente. Professores comprometidos com uma educação inclusiva e consciente precisam entender do que se trata, se aprofundar no tema e pensar em formas de abordá-lo em sala de aula. O texto de hoje lança luz sobre o conceito de racismo ambiental e oferece sugestões práticas para educadores explorarem esse assunto de maneira significativa com seus alunos. Se te interessa entender mais sobre o tema e como aplicá-lo em sua prática educacional, continue conosco!

O que é Racismo Ambiental?

    O racismo ambiental vai muito além de uma simples questão geográfica. Ele se manifesta quando comunidades racializadas são desproporcionalmente afetadas por problemas ambientais, como poluição, falta de acesso a recursos naturais e desastres ambientais. Não é difícil perceber como, em grande parte dos casos, as manchetes sobre deslizamentos de terra, enchentes, contaminações e desmatamento têm como pano de fundo áreas habitadas majoritariamente por negros, indígenas, ribeirinhos e outros grupos étnicos vulneráveis. Essa correlação não é mera coincidência, ela é a manifestação clara de uma realidade incômoda: as questões ambientais estão intrinsecamente ligadas à discriminação racial.

    O histórico de desigualdade estrutural coloca comunidades racializadas em uma posição de maior vulnerabilidade diante dos desafios ambientais. Além da falta de acesso a recursos naturais de qualidade, essas comunidades muitas vezes carecem de infraestrutura básica, como sistemas de saneamento adequados e espaços verdes. A proximidade de indústrias poluentes afeta a qualidade do ar e da água, contribuindo para o aumento das taxas de doenças respiratórias e outros problemas de saúde. E quando se trata de participação nas decisões que dizem respeito ao seu ambiente, esses grupos são excluídos dos processos de tomada de decisão, resultando em políticas que perpetuam ainda mais as injustiças ambientais.

    Para professores que atuam em escolas públicas, é crucial reconhecer que uma parcela significativa de nossos alunos está sujeita ao racismo ambiental em suas comunidades. Não apenas os alunos, mas a própria instituição escolar pode ser afetada, uma vez que a distribuição desigual de recursos educacionais e oportunidades também pode ser interpretada como uma forma de racismo ambiental. Logo, compreender sobre o tema e trabalhá-lo em sala de aula, é extremamente importante para conscientizar os alunos sobre suas próprias realidades e capacitá-los a lidar com essas questões de maneira informada e proativa. Além disso, de acordo com Silva (2012), a integração do termo racismo ambiental com o conceito de injustiças ambientais potencializa a identificação e o combate a essas questões, enriquecendo assim a discussão sobre o tema.

    1. Abordando o racismo ambiental em sala de aula

    Nos tópicos abaixo, listamos algumas sugestões para a abordagem desse tema, divididas por área de conhecimento. Essas sugestões podem – e devem – ser adaptadas de acordo com o contexto e a realidade de cada sala de aula. 

    • Ciências da Natureza: explore as interseções entre ciência e justiça social, abordando estudos de casos de comunidades afetadas por problemas ambientais. Os alunos podem, por exemplo, analisar situações de comunidades afetadas por questões como a contaminação da água potável ou, ainda, investigar como a construção de um aterro sanitário próximo a uma comunidade pode resultar em impactos negativos para a saúde e o meio ambiente local. Realizar experimentos práticos também pode ser uma maneira eficaz de ilustrar os efeitos da poluição e discutir estratégias de mitigação. 
    • Ciências Humanas: introduza ferramentas de mapeamento geográfico por meio das quais os alunos possam identificar e mapear áreas afetadas por racismo ambiental em nível local e global. Eles podem analisar mapas de distribuição de poluentes, acesso a recursos naturais e padrões de segregação racial para entender melhor as disparidades ambientais. Por exemplo, podem criar mapas que mostrem a concentração de indústrias poluentes em determinadas áreas urbanas e como isso se correlaciona com a composição étnica dessas comunidades.
    • Linguagens: incentive os alunos a analisarem textos literários que explorem a relação entre a degradação ambiental e a opressão racial, como romances e contos. Uma sugestão é trazer para a sala de aula a leitura do livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, de Carolina Maria de Jesus, no qual a autora descreve de forma contundente os desafios diários enfrentados por ela e seus vizinhos, incluindo a falta de saneamento básico, a poluição ambiental e a ausência de políticas públicas adequadas. Além de analisar textos, os alunos podem também expressar suas próprias experiências e perspectivas por meio da escrita criativa e ensaios reflexivos.
    • Matemática: utilize conceitos matemáticos e científicos para promover análises de dados estatísticos relacionados ao racismo ambiental. Para isso, os alunos podem coletar dados sobre a qualidade do ar, a contaminação da água ou outras variáveis ambientais da comunidade ou cidade. Os dados podem ser obtidos através de pesquisas online, dados disponibilizados por agências governamentais, ONGs e até mesmo por meio de pesquisas de campo realizadas em suas próprias comunidades. Em seguida, eles podem usar softwares de planilhas para criar gráficos diversos que representem visualmente essas informações. Além disso, os alunos podem calcular estatísticas descritivas, como média, mediana, moda e desvio padrão, para analisar os dados coletados. 

    O racismo ambiental é uma realidade complexa que merece nossa atenção e ação. Ao trazer esse tema para a sala de aula, nós, educadores, podemos catalisar discussões significativas e inspirar uma nova geração de cidadãos conscientes e engajados. Aprofundar essas estratégias com exemplos concretos ajuda os alunos a compreenderem melhor sobre o tema e suas ramificações. A transdisciplinaridade é também muito bem vinda na abordagem desse assunto. Conversar com professores de outras áreas e buscar juntos criar um trabalho que envolva toda a escola pode ser extremamente significativo.

    Estamos animados para saber se alguma dessas dicas se encaixa em sua sala de aula e como você planeja aplicá-las. Compartilhe conosco suas experiências e ideias. Vamos adorar saber caso tire alguma das sugestões do papel!

    Referências:

    Injustiça ambiental e racismo: A urgência de uma abordagem equitativa. Disponível em: <https://conselho.saude.gov.br/ultimas-noticias-cns/3329-injustica-ambiental-e-racismo-a- urgencia-de-uma-abordagem-equitativa>. Acesso em: 13 abr. 2024.

    O que é racismo ambiental e de que forma ele impacta populações mais vulneráveis. Disponível em: <https://www.gov.br/secom/pt-br/fatos/brasil-contra-fake/noticias/2023/3/o- que-e-racismo-ambiental-e-de-que-forma-impacta-populacoes-mais-vulneraveis>. Acesso em: 13/04/24.

    SILVA, L. H. P. E. Ambiente e justiça: sobre a utilidade do conceito de racismo ambiental no contexto brasileiro. e-cadernos CES, n. 17, 1 set. 2012.

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    Laura Marsiaj Ribeiro

    Fundadora e CEO

    Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!