Propostas estruturantes para melhorar a rotina do professor

A simplificação da rotina do professor pode aumentar a satisfação de docentes e estudantes com o ambiente escolar

A rotina do professor pode ser marcada por muitos desafios – sobrecarga de trabalho, correção de avaliações em casa, dificuldades em conciliar necessidades pessoais e profissionais, entre outros – e nós já falamos aqui na Curiós sobre a importância de docentes avaliarem periodicamente o tempo que têm dedicado ao cuidado do corpo e das relações afetivas. Além disso, sabemos que alguns métodos de organização podem ajudar a desafogar a nossa mente, liberando espaço para as nossas prioridades. Mas é preciso ir além e pensar em como as condições de trabalho dos docentes podem garantir que os profissionais da educação consigam focar no que realmente importa: o compromisso consigo mesmos e com a educação dos estudantes.

Nessa perspectiva, o Dados para um Debate Democrático na Educação (D3e), em parceria com a Fundação Carlos Chagas (FCC), tem desenvolvido uma pesquisa sobre o volume de trabalho dos professores dos anos finais do ensino fundamental. Recentemente, o relatório que reúne os dados e propostas levantados foi divulgado em uma transmissão ao vivo que teve o cuidado de ouvir não apenas os pesquisadores envolvidos no projeto, mas também a professora Gina Vieira Ponte. Ela, que conhece bem a realidade do Distrito Federal – onde concentrou sua atuação – falou da rotina do professor numa perspectiva mais conectada com o chão da escola e trouxe sua experiência pessoal para corroborar o debate. Você pode assistir a gravação clicando aqui. Quanto ao relatório da pesquisa, apresentamos a seguir os principais pontos levantados.

O texto se dedica a avaliar as condições de trabalho docente, intimamente relacionadas ao que ocorre em sala de aula e que influenciam o volume de trabalho dos professores. Para tal, foi feita uma análise comparativa da realidade brasileira com a dos Estados Unidos, França e Japão no que diz respeito ao número de escolas, redes, etapas e disciplinas lecionadas; tamanho e número de turmas e número total de alunos por professor; bem como o tempo gasto e sua distribuição de acordo com as atividades realizadas.

A partir das análises realizadas, os pesquisadores concluíram que “intervenções isoladas e pontuais têm pouco potencial de produzir efeitos positivos” na melhoria da rotina do professor, sendo necessárias soluções “planejadas de maneira conjunta e articulada”. Por isso, defendem uma mudança no “paradigma de contratação e definição de atribuições dos docentes por parte das redes de ensino brasileiras”. Enfatizando a necessidade de que elas “empreendam esforços para que os professores sejam cada vez menos tratados como ‘fornecedores de aulas’ e, cada vez mais, como professores de uma unidade escolar”.

Junto a isso, o relatório apresenta 9 propostas estruturantes que, na visão dos pesquisadores, poderiam melhorar a rotina do professor se implementadas em conjunto. São elas: 

  1. Reservar um tempo adequado na jornada de trabalho docente para atividades pedagógicas fora da sala de aula;
  2. Oferecer condições para que esse tempo seja gasto na escola, de modo que o professor possa interagir com alunos e responsáveis e participar de atividades de colaboração e desenvolvimento profissional;
  3. Garantir que o docente trabalhe em uma única escola, pois é pouco provável que um profissional seja capaz de exercer o papel amplo de atuar em sala de aula e de colaborar com a comunidade escolar em mais de uma instituição de ensino, simultaneamente;
  4. A contratação dos professores com a exigência de dedicação exclusiva;
  5. Deve ser oferecida uma jornada de tempo integral, com uma remuneração que se aproxime da média das outras ocupações que requerem o mesmo nível de formação no mercado de trabalho local, a fim de aumentar as chances de que os profissionais aceitem se dedicar com exclusividade;
  6. Modificar a organização da grade curricular; 
  7. Viabilizar e valorizar a obtenção de dupla licenciatura dos professores; 
  8. Substituir parte da carga de aulas por outras responsabilidades no âmbito escolar, tais como ser responsável por uma turma ou coordenador de uma área do conhecimento;
  9. Reduzir as turmas com mais de 30 estudantes, especialmente nas escolas com mais proporção de alunos com desempenho acadêmico e/ou nível socioeconômico baixo.

Todas as propostas apresentadas foram feitas com base na análise das condições de trabalho dos professores dos anos finais do ensino fundamental, mas também podem servir de inspiração para pensarmos a simplificação da rotina do professor ou professora de qualquer ciclo ou modalidade de ensino. Afinal, é indispensável melhorar as condições de trabalho docente, para conseguirmos aumentar a satisfação dos estudantes com o ambiente escolar e, consequentemente, sua aprendizagem.

Você concorda com as propostas? Quer colocar a mão na massa para torná-las realidade? Entre em contato com a gente e vamos trabalhar juntos!


Referências:

Gabriela Miranda Moriconi, Nelson Antonio Simão Gimenes, Luciana França Leme. Volume de trabalho dos professores dos anos finais do ensino fundamental [livro eletrônico]: uma análise comparativa entre Brasil, Estados Unidos, França e Japão – 1. ed. – Ribeirão Preto, SP: D3E, 2021. Disponível em: <https://www.fcc.org.br/fcc/wp-content/uploads/2021/10/d3e_fcc_relatorio_volumedetrabalho.pdf>. Acesso em 24 jul. 2023.

Webinário | Volume de trabalho de professores das redes estaduais e municipais do Brasil. Itaú Social. YouTube. 15 de junho de 2023. Disponível em: <https://www.youtube.com/live/uIzjqgtkNjU?feature=share>. (102 min.).

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!