Qual papel o SAEB deve exercer na tomada de decisões dentro da escola?
Nos últimos dias, ganhou repercussão na mídia os resultados do Brasil no Pirls (Progress in International Reading Literacy Study – Estudo Internacional de Progresso em Leitura). Você, provavelmente, se deparou com alguma manchete apontando que nosso país está na quarta pior posição entre os 65 países que participaram de tal estudo. A avaliação em questão, para esclarecer, é aplicada para estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental e de, maneira geral, busca averiguar qual o nível de leitura deles no sentido de interpretar e compreender diferentes tipos de texto.
Contudo, o estudo mencionado é apenas uma das avaliações externas existentes, você já deve ter ouvido sobre o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), sobre o SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) e tantas outras que podem se dar em nível internacional, nacional, estadual, regional e/ou municipal. O ponto é que todas são capazes de nos trazer um panorama sobre a realidade educacional, que é muitas vezes desafiadora. Ocorre que esses resultados não precisam ser vistos apenas como instrumento para constatar e demonstrar esse cenário, na verdade, podem ser um norte para a construção e reconstrução do trabalho pedagógico dentro da escola.
Diante da diversidade das avaliações externas, neste artigo vamos discutir sobre o SAEB, que terá uma nova edição ao final deste ano. O SAEB diz respeito ao Sistema de Avaliação da Educação Básica e, nesse sentido, trata-se de uma avaliação com frequência bianual, em âmbito nacional, com o intuito de avaliar o nível de aprendizagem dos estudantes, do 5º Ano, do 9º Ano do Ensino Fundamental e da 3ª Série do Ensino Médio, de modo a diagnosticar a qualidade da educação básica. Para tanto, conta com provas de Matemática e de Língua Portuguesa, além de um questionário contextual, respondido por alunos, professores, diretores e secretários de educação.
Além disso, o SAEB contribui para o cálculo do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Ele une em um único indicador dois conceitos importantes quando se trata de verificar a qualidade da educação básica, quais sejam o aprendizado aferido pelo SAEB e o fluxo escolar (taxa de aprovação dos alunos), obtido através do Censo Escolar. Assim, SAEB e Ideb estão vinculados, mas não se confundem.
Dado o caráter censitário desses indicadores, é possível visualizar o desempenho e a nota obtida pelo país, pelos estados, pelos municípios, pelas redes de ensino e pelas escolas de maneira individual. Ocorre que, por vezes, essa amplitude de dados acaba recaindo em um aspecto classificatório, no sentido de analisar quem tem uma nota maior e quem tem uma nota menor, sem levar em consideração outros fatores, o que pode contribuir, por sua vez, para cobranças excessivas por resultados, as quais prejudicam uma leitura adequada desses dados.
Diante disso, é importante compreender as avaliações como parte natural e essencial do processo de ensino e aprendizagem para construir planos de ação de caráter pedagógico bem como correções de rota. Assim, a avaliação, seja interna ou externa, não deve ser vista pela perspectiva do medo e do julgamento, ela está ali para colaborar com o desenvolvimento do aprendizado.
Mas agora você deve estar se perguntando: como fazer do SAEB um aliado da aprendizagem de forma efetiva, tendo em vista fatores como aplicabilidade e praticidade?
De início, já queremos ressaltar a importância do desenvolvimento de um trabalho articulado e alinhado entre gestão, coordenação pedagógica e professores, e aqui não só professores de Língua Portuguesa e de Matemática, mas de todas as disciplinas, pois o SAEB avalia habilidades práticas de leitura e de resolução de problemas, necessárias em diferentes áreas. A partir disso, iremos trazer três pontos para direcionar o uso do SAEB e do Ideb na tomada de decisões dentro da escola, conforme documento elaborado pelo Itaú Social e pela Comunidade Educativa.
- Leitura de dados: nem sempre esse é um processo fácil. A escola, muitas vezes, é levada a se comparar com outras sem olhar com cuidado os seus próprios dados e o contexto onde sua comunidade escolar está inserida. Cada escola possui uma meta a ser alcançada no Ideb, e após o resultado é possível não só verificar se ela foi atingida ou não, mas também é possível visualizar, através do boletim de desempenho, dados específicos, como, por exemplo, o Indicador de Nível Socioeconômico, o Indicador de Adequação da Formação Docente, e a distribuição percentual dos estudantes por escola por nível de proficiência. Tais dados permitem uma leitura contextualizada de modo a compreender de maneira aprofundada a realidade da escola em si.
- Diagnóstico: A partir disso, diferentes questões podem ser levantadas, como, por exemplo: O nível socioeconômico pode estar interferindo no desempenho dos alunos? Na nossa escola há muitos professores sem formação docente adequada? Em Língua Portuguesa, quais habilidades os estudantes apresentam menor nível de proficiência? E em Matemática? Esse processo de diagnóstico permitirá chegar a conclusões que guiarão a construção de ações de caráter pedagógico.
- Ação: diretor e coordenador pedagógico devem exercer uma posição de liderança nesse processo de leitura de dados e diagnóstico para conduzir e mediar a definição de ações. Essas duas figuras, por exemplo, podem estabelecer metas para guiarem a elaboração dos planos de ação, tendo em vista a análise não só da avaliação externa, mas também dos resultados das avaliações realizadas internamente, seja pelo professor ou de forma institucional, bem como a proposta curricular e o projeto político pedagógico da escola. Essas metas podem ser discutidas por disciplina ou por área de conhecimento, em momentos distintos, para facilitar a construção dos planos de ação de maneira articulada.
Dessa forma, essa sequência de passos permite “transformar os resultados da avaliação (SAEB) num ponto de apoio para entender, criticar e, eventualmente, alterar o processo pedagógico” (Fundação Itaú Social, Cenpec, 2013). Nesse sentido, pode contribuir, inclusive, para conciliar o cumprimento do currículo com as necessidades de recomposição e recuperação da aprendizagem.
Contudo, apesar do SAEB ser um importante norteador para o trabalho pedagógico, não deve ser o único. As avaliações internas também são essenciais para isso, até porque conseguem trazer um olhar individualizado para o aluno. Ademais, não se pode esquecer de observar o currículo e o projeto político pedagógico da escola para desenhar ações adequadas à realidade da comunidade. Esse não precisa ser um caminho árduo, mas deve ser parte integrante do dia a dia da escola e encarado com tranquilidade pelos seus membros. A Curiós ajuda redes de educação nessa missão. Quer saber como? Entre em contato!
Referências:
ABE, Stephanie Kim. Ideb: Como ler os dados e utilizá-los para pensar intervenções nas escolas. Cenpec, 2020. Disponível em: <https://www.cenpec.org.br/noticias/ideb-como-ler-os-dados-e-utiliza-los-para-pensar-intervencoes-nas-escolas>. Acesso em: 23 mai. 2023.
Avaliação Externa: como compreender e utilizar os resultados. Fundação Itaú Social, Comunidade Educativa. Disponível em: <https://novaescola.org.br/avaliacao-externa-compreender-e-utilizar-resultados/>. Acesso em: 23 mai. 2023.
Avaliações Externas: perspectivas para a ação pedagógica e a gestão do ensino. Fundação Itaú Social, CENPEC. Disponível em: <https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1935535/mod_resource/content/1/avalia%C3%A7%C3%B5es%20externas.pdf>. Acesso em: 23 mai. 2023.
Como utilizar as avaliações externas para melhorar a aprendizagem. Instituto Unibanco. Disponível em: <https://www.institutounibanco.org.br/aprendizagem-em-foco/8/>. Acesso em 23 mai. 2023.
